COMBONI, QUEL GIORNO

Visita do Padre Geral aos combonianos do Brasil

Sábado, 19 de Agosto de 2017
O P. Tesfaye Tadesse Gebresilasie, superior geral dos Missionários Combonianos, realizou uma visita oficial, de 13 de Julho a 15 de Agosto, aos confrades do Brasil, acompanhado pelo superior provincial local, P. Dário Bossi. Além de querer conhecer as comunidades missionárias combonianas do Brasil, o P. Tesfaye participou na 2ª Romaria a Cacoal, o lugar aonde foi assassinado o comboniano italiano P. Ezechiele Ramin, no dia 24 de Julho de 1985. O P. Ezechiele tinha 32 anos quando deu a vida para defender os direitos à dignidade e à terra dos povos indígenas de Cacoal.

Nos dias que se seguiram à 2ª Romaria do P. Ezechiele Ramin, o P. Tesfaye encontrou-se, em Porto Velho, com os confrades das quatro comunidades do norte: Boa Vista, Açailândia, Manaus e Porto Velho. Estiveram presentes na reunião doze confrades que aproveitaram para avaliar e reflectir sobre a missão comboniana na região amazónica, sobre as comunidades e as paróquias combonianas, o trabalho em rede (local e internacional), e a comunicação. Os missionários reconheceram a necessidade de os combonianos requalificarem a sua presença e as suas actividades naquele território, através de uma adequada formação contínua e do trabalho em rede com as forças locais e as organizações internacionais, eclesiais e da sociedade civil.

Depois da apresentação das actividades de cada uma das comunidade, o P. Tesfaye apresentou a situação geral do Instituto, sublinhando os actuais recursos humanos, que tendem a diminuir, e os desafios que se têm de enfrentar a curto e a médio prazos nos territórios das missões que nos estão confiados nos diversos continentes.

Segunda Romaria do P. Ezequiel Ramin

As celebrações da Memória do P. Ezequiel em Cacoal, no dia 22, sábado à noite e a Romaria realizada em Rondolândia, partindo da comunidade P. Ezequiel até ao lugar do martírio foram o ponto alto das celebrações deste mês de Julho em que nós recordamos o exemplo de compromisso concreto e total do padre Ezequiel Ramin em defesa dos pobres sem terra e dos povos indígenas desta região do Brasil.

Muitas(os) continuam sendo tocados pelo testemunho de vida do Servo de Deus P. Ezequiel e por isso se reuniram cerca de 1300 pessoas, na opinião do P. Toninho Hammes, para louvar a Deus pelo dom da sua vida e pedir sua intercessão nos momentos de aflição que encontram. No presente momento político, social e económico, que o Brasil está vivendo, a figura do P. Ezequiel Ramin é um chamado de atenção para todos nós e especialmente para toda a igreja, enquanto nos questiona e desafia acerca de nosso compromisso real com as mudanças estruturais e com a defesa dos direitos do pobres e descartados. Recorrendo à já popular expressão do papa Francisco, o exemplo de amor, doação e entrega do P. Ezequiel Ramin nos faz renovar a grande questão: somos ou não somos uma igreja em saída?

Durante duas semanas marcamos presença num bom número de comunidades de diversas paróquias da diocese de Ji Paraná, Rondónia. Deu para sentir o apreço e carinho de todas e todos em especial pela figura do servo de Deus, P. Ezequiel Ramin, mas também por S. Daniel Comboni e por toda a família comboniana.

Durante o percurso da romaria, para além da imagem peregrina de Nª Sª Aparecida, em visita às comunidades da paróquia de Rondolândia, no jubileu dos 300 anos, foram levados diversos banners e símbolos alusivos ao P. Ezequiel. Destacamos a cruz de madeira ornada com um pano branco, simbolizando a ressureição e com um trecho de arame farpado enrolado na mesma cruz, evocando por um lado a realidade das fazendas e por outro a pobreza dos sem terra e os povos indígenas sempre mais confinados e apertados em seus territórios encolhidos. A Romaria terminou com uma celebração eucarística no lugar do sacrifício do P. Ezequiel Ramin, mártir da opção pelos pobres. Dois momentos marcaram nossa celebração: a) cada um de nós tomou em sua mão um punhado de terra, lembrando o compromisso e doação o P. Ezequiel Ramin e comprometendo-se a lançar a semente da fé e da defesa da justiça e do pobre; b) antes da bênção final, diversas pessoas deram seu testemunho de graças e curas recebidas pela intercessão do servo de Deus, P. Ezequiel.

Entre as presenças marcantes na 2ª Romaria do P. Ezequiel Ramin queremos mencionar primeiro todos os romeiros(as) que vieram juntar-se ao evento de compromisso e fé, nomeadamente o povo em geral, movimentos, projetos e organismos de ação social, ambiental, agro ecológica, etc, agentes de pastoral de diversas comunidades e paróquias, as irmãs Servas do Espírito Santo e também as irmãs da Imaculada Conceição (umas e outras de Jaru), o P. Toninho Hammes, pároco de Rondolândia e diversos párocos da diocese de Ji Paraná, Leigos Missionários Combonianos, Irmãs Missionárias Combonianas e Missionários Combonianos. Dentre os Combonianos, não podemos deixar de agradecer a participação do P. Tesfaye Tadesse Gebresilasie, da Etiópia, que é o superior geral, bem como o P. Dário Bossi, superior provincial do Brasil.

Durante o almoço partilhado e logo a seguir, muitas pessoas se dirigiram à capelinha a fim de adquirirem algum livrinho e algum CD, ou então levar para sua casa, pelo menos uma simples recordação da 2ª Romaria do P. Ezequiel.

Deixamos aqui nossa profunda gratidão a Deus, a todos os romeiros e especialmente à paróquia de Nª Sª Auxiliadora de Rondolândia, na pessoa do pároco, P. Toninho e de tantos leigos e leigas, nomeadamente da comunidade P. Ezequiel Ramin que trabalharam e doaram seus bens para tornar possível tão bela expressão de fé e vida cristã. Muito obrigado a todas e todos.

Oração

Ó Deus de misericórdia, pelo apaixonado testemunho de amor
oferecido pelo Teu servo Ezequiel Ramin aos povos indígenas e aos pobres sem terra,
faz que, inspirados por este amor, que foi até ao derramamento de sangue,
nos tornemos discípulos convictos, felizes e corajosos da Boa Nova do Reino.
Revivam os desertos dos corações egoístas e refloresça a esperança de um mundo mais justo e solidário.
Te pedimos, pela sua intercessão, alcançar a graça de que necessitamos...
(menciona-se a graça no coração).
Por Nosso Senhor Jesus Cristo teu Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Reflexão do P. Dário Bossi durante a celebração,
na Romaria de P. Ezequiel Ramin

Rondolândia, 23 de Julho de 2017

Cada um, cada uma de nós, hoje, está aqui sentindo a intensidade deste momento. Trouxemos as nossas expectativas e os nossos sonhos. É para nós um momento denso de significado, caso contrário, não teríamos suado por uma hora debaixo deste sol, em Romaria. Este espaço, circular, à sombra destas árvores, debaixo do céu de nosso Deus, torna-se sagrado, une os nossos sonhos e as nossas energias.

Também para mim, é um momento único e importante: fecha um ciclo. Por muitos anos celebrei, com os jovens na Itália, junto ao túmulo de P. Ezequiel Ramin. Lá está sepultado o seu corpo. Hoje, pela primeira vez, estou no lugar onde ele foi morto, onde derramou o seu sangue. Tanto lá como aqui vejo os jovens profundamente tocados pelo exemplo de vida desse padre, jovem como vocês. Conheço pessoas que decidiram doar a sua vida à missão exactamente a partir do encontro com o P. Ezequiel, alguns deles rezando junto ao túmulo desse companheiro de caminhada. Jovens que plantaram sua semente. Pequena e quase invisível, como diz o Evangelho de hoje. Aparentemente insignificante, frente a tantos desafios e tamanha injustiça.

Quantos de nós nos sentimos, em muitos casos, desproporcionados e impotentes frente ao mal que se propaga no mundo? Sem respostas, sem iniciativa e sem forças. Vale a pena mesmo jogar essa semente? Jesus nos garante que sim! Ele garante que essa semente, se jogada, vai crescer ao ponto de abrigar consigo muitos outros que precisam de amparo.

Trouxe para vocês as palavras de nosso melhor amigo, o Papa Francisco, que comenta assim a força dessa sementinha: “Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas.”

O futuro da humanidade está em nossas mãos. Na capacidade dos pequenos se organizarem, de promoverem alternativas criativas. Quão importante e urgente é essa palavra nos tempos sombrios que nosso país está atravessando.

Na missa de ontem, na catedral de Cacoal, pedimos perdão por nossos políticos. E também pela devastação que estamos infligindo à nossa Mãe Terra. Dom Roque denunciava a violência crescente no campo, e a CPT hoje trouxe em Romaria vários cartazes destacando isso: já tivemos nesse ano 15 assassinatos de lideranças por conflitos no campo em Rondónia, somos o estado com mais mortes no Brasil. Aqui entre nós tem gente de Colniza, nos solidarizamos convosco pelo massacre que aconteceu recentemente em suas terras. Na semana passada houve três ataques brutais a assentamentos do MST em diversas partes do Brasil. Os povos indígenas estão sendo cada vez mais agredidos por decretos e propostas de lei que ameaçam seus territórios; continua a impunidade pelos crimes cometidos na disputa de terras.

Na verdade, estamos assistindo aos mesmos conflitos que enfrentou P. Ezequiel, na versão actualizada que soma aos fazendeiros o agronegócio: uma concentração de terra e de renda ainda mais sofisticada, uma agressão aos territórios mais sistemática, apoiada também por desenhos políticos. Qual foi a resposta de Ezequiel, frente a essa onda de injustiça na Amazónia?

Primeiro: não fugir do conflito. Não pensemos que a Igreja deve evitar os conflitos, ou apaziguá-los. Nossa missão não é esconder os problemas, mas sim denunciá-los profeticamente. Atenção: assumir o conflito não significa odiar o adversário. Ao contrário, é amá-lo, mesmo se com decisão e firmeza a partir de nossos valores, propondo a ele uma conversão. Ignorar o conflito, ao contrário, é omitir-se e deixar propagar a injustiça.

Segundo: no conflito assumir o lado do mais fraco. É fácil demais estar do lado de quem ganha, é nossa tendência e tentação de cada dia, no desporto, nas eleições políticas e também no cotidiano das disputas. Mas o cristão no conflito tem claro qual é o seu lado, que foi o lado de Jesus e deverá sempre ser o lado da igreja: os pobres de Deus.

Terceiro: enfrentar o conflito de maneira não violenta. Não adianta querer somar violência a violência, já vimos até onde isso leva: uma escalada de agressão que se torna descontrolada. Ezequiel testemunha que a não violência no enfrentamento do mal é uma resposta viva e fecunda. Como ele mesmo dizia: “uma vitória com aparência de derrota”. Qual é a resposta da Igreja frente a essa onda de injustiça na Amazónia?

Entre outras, lembremos hoje a Rede Eclesial Pan-amazónica (REPAM). Essa criança da Igreja na América Latina é uma tentativa de resposta articulada, em rede, a partir de nossos territórios, fazendo com que a igreja inteira coloque ao centro de suas preocupações a Amazónia e as pessoas que vivem nela, tentando preservá-la. Acompanhemos com entusiasmo e participação essa iniciativa da Igreja. E qual é a sua resposta pessoal frente a tudo isto?

Espera-se de você criatividade no dom da vida: não somente Deus é criador, cabe a você também fazer de sua vida uma obra de arte ao serviço dos outros. Gostaria que saíssemos da Romaria de hoje com a firme renovação de nosso dom total da vida. Cada um à sua maneira, com criatividade, com radicalidade! Se estamos aqui hoje, é para não poupar energias e forças.

Quem sabe que hoje também amadureça, aqui entre nós, uma vocação missionária comboniana, assim como aquela de P. Ezequiel, ou do P. Rafael que muitos de vocês conheceram aqui e que agora, bem agora mesmo, está celebrando em comunhão connosco nas Filipinas, em preparação à sua missão na China.

Estamos aqui para fazer memória. Atenção: não é um exercício do passado, uma saudade que se repete a cada ano. Não, é bem mais: fazer memória é como preparar a terra, para plantar nela também a nossa semente. Pode ser pequena, mas o Evangelho nos dá a certeza que vai dar frutos, vai crescer e amparar outras pessoas frágeis. Assim como a semente de Ezequiel deu fruto, no Brasil e no mundo inteiro.

A terra onde estamos é sagrada. Aqui foi derramado sangue inocente, de uma vida que se doou de graça, para os pequenos. Vamos nos ajoelhar, então. Peguemos em nossas mãos um punhado dessa terra. Em silêncio, vamos nos perguntar: qual é a semente que eu posso e devo plantar?

Assumimos hoje, aqui, o compromisso de nos doar plenamente. “Deita a semente à terra, não será em vão. Não te preocupes a com a colheita, planta para o teu irmão.”

Reflexão final do P. Dário Bossi

Caros irmãos,
em geral quando visito uma comunidade comboniana tendo a imaginar que se trate de encontros pessoais e coletivos para sentir o clima e ‘ajustar os ponteiros’. Mas a caravana realizada junto a pe. Tesfaye, que senti interiormente como verdadeira peregrinação, teve um significado mais profundo.

Parece-me que seus diálogos com cada um tocaram as cordas de nossas escolhas de vida, fizeram memória de nossa caminhada pessoal na Família Comboniana, interpelaram nossas motivações originárias e atuais. Assim, esses encontros são oportunidade de revisão da vida, da intensidade de nossa vocação e de nossa felicidade. Creio façam parte do percurso de regeneração que estamos tentando percorrer através da Análise Institucional, provocando-nos a voltar às raízes, recordar nossa primeira intuição missionária, escutar nossos passos e discernir se houve fidelidade na doação da vida...

Acompanhando a visita, senti junto convosco paixão pelo que somos e fazemos. Percebi que ainda há gosto e dedicação em nosso empenho. Houve interesse e até uma certa inquietação com respeito ao resto do Instituto (teve boas perguntas sobre confrades, províncias, situações delicadas, desafios missionários, organização do Instituto, etc).

É muito importante esse sentimento de pertença, interesse e acompanhamento reciproco. Sabemos que o tamanho de nossa Província não o favorece e o processo de unificação o desafiou fortemente. Mas precisamos e podemos reagir a isso, valorizando todas as oportunidades que temos ou imaginamos.

Estimulo as comunidades mais próximas a promoverem encontros informais entre si. Tentaremos também realizar mais atividades conjuntas e dar-nos mais tempo nos encontros plenários, para debater e aprofundar temas de interesse comum.

Sente-se no corpo, no cansaço e na falta de energias a desproporção entre nosso pequeno grupo e esse País imenso, com desafios enormes à dignidade dos pobres e da criação, onde o Pai da Vida nos convida à missão e ao encontro profundo e plural com o Ressuscitado.

O próprio rosto das igrejas mudou muito rapidamente nos últimos anos, até surpreendendo quem entre nós carrega memórias de outro Brasil ou vive ainda com saudades de tempos mais engajados.

Por tudo isso, é ainda mais necessário como combonianos termos um foco claro, cuidarmos de ações de incidência significativa e paradigmática, fortalecermos alianças com quem acredita nessa missão, prezarmos a comunicação como instrumento instigante e inspirador de nosso jeito de sermos igreja.

Ao reler a memoria de cada uma de nossas visitas (envio em anexo a coletânea dos textos escritos passo a passo) percebe-se quanto é bonita a vitalidade de nossas comunidades, nosso mergulho na vida do povo, o empenho que vai além do ritualismo ou da pura gestão institucional.

Por outro lado, precisamos aprofundar e aprimorar o sentido e o método de nossa proximidade às causas populares através das comunidades cristãs e de associações, projetos e entidades. Sinto angustia porque nos faltam ainda condições, por exemplo, para aprofundar o rosto da paroquia comboniana inserida nesses desafios, intercambiando experiências e visões; ou para articular melhor as alianças que temos com diversas entidades, pastorais ou projetos empenhados em defesa da vida nos territórios; ou ainda para consolidar um movimento leigo comboniano no Brasil (há tantas pessoas vinculadas à nossa espiritualidade, história e presença, mas tenho a impressão que não estejamos conseguindo cultivar suficientemente essas vidas que foram semeadas em nossa sociedade e igreja).

Enfim: a peregrinação continua, cabe a todos nós dar-lhe o ritmo e a direção que o Espírito está tentando nos inspirar, passo a passo. Parafraseando Papa Francisco, “Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação pela vida e a missão não nos tirem a alegria da esperança!”
Um abraço,
Pe. Dário

Nota: publicamos, em anexo, os slides com as estatísticas dos Missionários Combonianos, em Julho de 2017, que o Padre Tesfaye Tadesse apresentou em quase todas as comunidades que visitou.


O P. Tesfaye Tadesse Gebresilasie, superior geral dos Missionários Combonianos, celebra com os confrades, no Brasil.


P. Tesfaye Tadesse, Padre Geral (primeiro à esquerda, em pé).


P. Dário Bossi, superior provincial dos Missionários Combonianos, no Brasil (ao microfone).


P. Tesfaye Tadesse (ao microfone).

Allegati: