COMBONI COMO HOJE

Quando se espera viver o último Natal

Roma, 9 de Dezembro de 2017
“Os médicos disseram-me que o encontro final com o Pai deverá ocorrer antes do Natal de 2018. Tenho uma grande vontade em dar este salto nos Seus braços. Por enquanto, Ele sustém o meu andamento um pouco instável, procurando colocar as minhas mãos nas dos meus irmãos e das minhas irmãs que sofrem mais do que eu. Por vezes, e é a maioria das vezes, não podem fazer mais do que abraçar-me e enxugar-me as inevitáveis lágrimas.” Com estas palavras, deseja-nos um Bom Natal de 2017 o padre Alberto Modonesi [à esquerda, na foto], 75 anos, comboniano italiano de Brescia que viveu entre Egipto, Sudão e Sudão do Sul cerca de 45 anos. O missionário foi mordido pela víbora do deserto há muitos anos. Mas sobreviveu, apesar dos problemas de saúde, sobretudo no fígado. Mais tarde, teve de deixar Juba devido a um ataque forte de malária. No ano passado, foi-lhe diagnosticado um cancro no pâncreas, já com metástase no fígado. Aqui, deixamos o seu testemunho.

ADVENTO e NATAL 2017

Caríssimos,
Passou-se cerca de um ano, desde o Natal de 2016, quando recebi o relatório médico de ter estado atacado por um cancro no pâncreas, com metástase no fígado.

Então qualifiquei-o como um dom especial, porque na minha ingenuidade e talvez na minha excessiva presunção e orgulho acreditei que me fosse fácil aceitar este caminho ao lado de Jesus e dos meus irmãos que sofrem. Em vez disso, dei-me conta de que foram os meus irmãos e as minhas irmãs mais débeis que me deram a coragem para continuar a subida até ao Cume, juntamente com Jesus e na sua companhia. Este foi um ano em que contemplei flores jamais por mim vistas, cujo perfume me circunda e penetra no mais fundo das minhas células cancerígenas transportando alento, vida e desejo de continuar a lutar.

A primeira flor foi o encontro, depois da minha primeira sessão de quimioterapia, com uma senhora com os seus trinta anos. Estava sentada ao meu lado e, no fim da sessão e de improviso, começou a chorar. Antes que eu pudesse dizer uma palavra, explicou-se, enxugando as lágrimas: «Não choro por mim, mas pela minha menina de doze meses». E, lançando-se sobre mim, abraçou-me. Foi um abraço que jamais esquecerei.

A segunda flor foi um rapaz de dezoito anos, Gabriel, que estava a acabar o ensino secundário, um rapaz enamorado pelo alpinismo e escaladas em altas montanhas. Partilhei com ele a mesma enfermaria, em oncologia, e partilhamos as nossas experiências de vida que nos enriqueceram mutuamente. Ele tinha uns nódulos tumorais nos pulmões que, depois de poucos meses, o levaram rapidamente a escalar a última montanha, o Paraíso. Um bom número de jovens ficou sensibilizado com o seu testemunho silencioso e a sua constante preocupação em ajudar aqueles que sofriam mais do que ele. A fragrância e a frescura da sua presença foi um dom incomparável que guardo no coração.

A terceira oferta foi um ramo de flores dos mais variados perfumes e cores que me fizeram saborear a grandeza e a beleza da vocação missionária que se manifestou na presença de uma trintena de confrades combonianos que vieram aqui a Brescia para vários exames médicos. Todos manifestavam um desejo imenso de continuar a lutar, para retomar forças, de modo a poderem regressar o mais depressa possível à missão. As experiências missionárias, alegres e ao mesmo tempo dolorosas, com toda uma série de insucessos e desilusões, ajudam-me a viver a vocação missionária na minha condição de missionário frágil.

A mais pequena flor, mas não menos esplêndida, é o meu irmãozito Padre Renato, que no dia 17 de Outubro de 2017 me entregou estas palavras (que tinha escrito em 2009), palavras quase proféticas: «Obrigado Alberto por tudo… Os sofrimentos preparam-nos para um Paraíso Eterno. Os nossos pais e o Senhor esperam por nós. Acompanho-te com afecto. Tudo posso na minha fraqueza, com a Sua ajuda.»

Os médicos disseram-me que o encontro final com o PAI deverá ocorrer antes do Natal de 2018. Tenho uma grande vontade em dar este salto nos SEUS braços.

Por enquanto, ELE sustém o meu andamento um pouco instável, procurando colocar as minhas mãos nas dos meus irmãos e das minhas irmãs que sofrem mais do que eu. Por vezes, e é a maioria das vezes, não podem fazer mais do que abraçar-me e enxugar-me as inevitáveis lágrimas.

Caloroso abraço. Bom Natal.
Alberto Modonesi