Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2014
“O título completo desta reflexão seria: Porque tarda o “efeito Francisco” a chegar até nós os Institutos Missionários? O título implícito seria: porque tarda a chegar até nós combonianos?” Uma reflexão provocadora com algumas perguntas e respostas do P. Manuel Augusto Lopes Ferreira (foto), ex-superior geral dos Missionários Combonianos, tendo no horizonte o tema do próximo XVIII Capitulo Geral do seu Instituto, que se realizará em Setembro de 2015, em Roma.

 

Assembleia provincial 2014
dos Missionários Combonianos
que trabalham em Portugal.

 

Não sei se o leitor, à primeira, antecipa o objectivo da reflexão. A eleição do Papa Francisco, o papa vindo de longe, com uma visão e atitude missionárias, provocou de imediato um efeito na Igreja, que os observadores começaram a chamar “efeito Francisco”. As pessoas e a opinião pública ficaram positivamente surpreendidos com este papa. Na Itália e nalgum outro país europeu houve estudos sobre este efeito, a reacção e resposta das pessoas à eleição, ao estilo e aos ensinamentos do Papa Francisco.

Falou-se que aumentou o número das pessoas que, em paróquias e dioceses, voltaram à Igreja e aos sacramentos, a uma atitude positiva a respeito da Igreja, que saía de um período difícil de dificuldades e escândalos, para além de se observarem enchentes inesperadas na praça S. Pedro em Roma. As novas comunidades e movimentos experimentaram um florescer de iniciativas com um aumento do envolvimento de adultos e jovens: não apareceram estudos sobre isto, mas basta ter lido as notícias de agencias para registar este aumento.

A reflexão que me proponho fazer refere-se, obviamente, à situação dos institutos missionários nos países e nas igrejas do Norte, na Europa e nas Américas, de modo particular. É esta situação que se tem como pano de fundo e não tanto a situação na África ou na Ásia, por exemplo, cujos contornos aparecem como diferentes, tornando mais difícil avaliar o impacto do “efeito Francisco” nesses continentes (seria interessante que algum comboniano, nesses continentes, escrevesse alguma coisa sobre o assunto).

Mover as águas

Nos institutos missionários, o efeito Francisco tarda em notar-se, se olharmos para as iniciativas e, sobretudo, para a movimentação juvenil e vocacional. Nos institutos missionários, também entre nós combonianos, houve reacção aos documentos deste papa, no sentido de os ler e os citar, com maior ou menor fidelidade e oportunidade. Mas a nível das iniciativas e do poder de convocação de adultos e de jovens, nada de especial se verificou: nem se renovaram as iniciativas nem aumentaram os jovens em caminho de discernimento vocacional, “em saída,” na perspectiva de uma opção missionária como ela tem sido vivida nos institutos missionários.

Diríamos que o Papa Francisco move as águas, mas estas aparentemente vão mover outros moinhos. Porquê e como, se obviamente os institutos missionários deveriam ser os primeiros beneficiários deste “mover de águas” que significou esta primeira fase do pontificado deste papa?! Não seriam eles os melhores colocados para colherem os frutos desta lufada de ar fresco e desta renovada proposta missionária que está a ser o pontificado do papa Francisco?! Se isto não está a acontecer (seria interessante que as províncias combonianas da Europa reflectissem sobre isso e que essas reflexões fossem partilhadas e dadas a conhecer), então faz sentido, perguntar-se porquê.


Combonianos portugueses:
P. Filipe Miguel Oliveira Resende,
a trabalhar no Quénia;
e à direita,
P. José da Silva Vieira,
actual superior provincial de Portugal.

 

Agradável surpresa

Da leitura das primeiras intervenções do papa Francisco ficou-nos uma agradável surpresa: o facto de ele usar muitas vezes e com sentido renovado e original as palavras missão / missionário / missionária. Surpreendeu-nos e reacendeu dentro de nós um fogo que parecia ter ficado a arder debaixo de cinzas...

Esta impressão renovou-se, depois e mais profundamente, com a leitura e re-leitura da “Alegria do Evangelho” (AE): neste texto o papa usa os termos e propõe uma renovada visão missionária da Igreja, uma visão que volta ao essencial (ao encontro com Cristo, no Seu Evangelho) e sugere o perfil e as atitudes dos “evangelizadores com Espírito” para a Igreja e o mundo do nosso tempo.

Creio, sinceramente, que a leitura da AE mexeu connosco individualmente. A pergunta que nos fica sem resposta é: como é que, em termos de instituto e de comunidade provincial ou local, ela não provocou iniciativas renovadas. Poderemos responder a esta pergunta, dizendo que é preciso tempo para estas novas orientações entrarem na alma das pessoas e nos dinamismos das estruturas.

Neste sentido do tempo oportuno, a nossa proposta de procurar emparelhar a reflexão do instituto e do próximo capítulo geral com a reflexão do Papa Francisco (ao menos assim eu leio a escolha do tema do próximo XVIII Capitulo Geral), parece acertada e atempada. E, sempre neste sentido, o próximo capítulo teria portanto a responsabilidade única de dar resposta a esta expectativa, num momento de reforma eclesial, verdadeiramente epocal, como a que sugere o papa Francisco na AE.

Mas, mesmo depois do que fica dito, (deixando para o futuro mais ou menos imediato o impacto do “efeito Francisco” no nosso instituto), fica-nos uma outra pergunta que é necessário fazer e à qual é necessário procurar também dar resposta: como é que as pessoas e, sobretudo, os jovens a quem o papa Francisco, com as suas palavras e atitudes, coloca em saída, em atitude missionária, não desaguam, não procuram nos institutos missionários o caminho para viverem esse novo impulso?! Até agora, nenhum instituto regista uma “onda de procura” fruto do “efeito Francisco”, como o registam algumas comunidades e movimentos. O que a meu ver nos deve levar a perguntar porquê.

Inovar carismaticamente

Eu não penso que os institutos missionários, na sua configuração actual, estejam ultrapassados, e que o futuro missionário esteja nas novas comunidades e movimentos, a favor dos quais o papa Francisco teria facilitado a passagem de testemunho, ajudando a “roubar-nos a bandeira missionária para a passar para eles”. Não. Digo isto, apesar de pessoalmente ter ficado surpreendido pelo facto de o papa Francisco na AE ter usado com tanta originalidade os nomes missão e missionário/a, como acima referi, mas não ter feito nenhuma menção dos institutos missionários, que foram fulcrais nas iniciativas missionárias dos séculos XIX e XX, especialmente na África e na Ásia (enquanto menciona comunidades e congregações religiosas, movimentos...).

Os Institutos missionários têm futuro, mas têm que dar corpo a novas iniciativas, na fidelidade ao seu carisma mas emparelhadas com o espírito e as perspectivas que o Papa Francisco propõe.

Isto é, não basta (como no passado) passar a citar as palavras do magistério, deste papa em concreto e dos textos da AE. É preciso mudar muito, a começar por sensibilidades e metodologias encrostadas na vida dos institutos missionários durante as últimas décadas.

A linguagem, sensibilidade, visão e propostas do papa Francisco captaram as expectativas de mudança na Igreja e poderão ajudar a nos sintonizarmos melhor com o tempo eclesial que vivemos. Mas não nos pouparão o esforço de aprofundar a identidade do carisma missionário comboniano e o expressar em novas iniciativas, capazes de atrair e captar os dinamismos espirituais que o Papa Francisco está a despertar nas pessoas, a começar pelos jovens.

Digamos, então para resumir, que não basta repetir e papaguear as palavras bonitas do papa: é preciso, para os institutos missionários, concretizá-las em novas iniciativas (a nível de animação missionária, promoção vocacional e formação, evangelização); é preciso “inovar” carismaticamente (que significa mostrar a novidade e actualidade do próprio carisma em acção), para polarizar os dinamismos eclesiais que o papa Francisco está a provocar.

Digamos, então, que não basta uma concretização de estereótipos (do género “vamos fazer missionárias todas as coisas!”), auspiciando uma mudança (de linguagem) para deixar as coisas como estão (o que se passou na nossa assembleia provincial deste ano – em Portugal – foi certamente ilustrativo desta situação: os dois dias de formação permanente e a reflexão sobre o tema (que pessoalmente muito apreciei) deleitaram-nos espiritualmente mas não nos fizeram aterrar em nenhuma opção concreta, ou moção que polarizasse a procura da novidade). É preciso uma concretização que se materialize em iniciativas comunitárias e em metodologias missionárias novas, sintonizadas com as orientações que o papa Francisco faz e que tantas ressonâncias provocam (uso a palavra orientações, porque o próprio papa tem consciência que não pode oferecer propostas e soluções concretas, deixando que cada igreja e cada comunidade, segundo o seu carisma, as encontrem, como ele observa na AE 16-17).


P. Joaquim José Moreira da Silva,
comboniano português,
a trabalhar na paróquia de Gilgel Beles,
diocese de Adis-Abeba,
na Etiópia.

 

Dinamismos eclesiais

Acentuamos os “dinamismos eclesiais”. O “efeito” Francisco é um facto de igreja, para além de resultar de um dom pessoal deste papa. Quer dizer que será compreensível a partir da igreja, que beneficia a Igreja como tal, antes de beneficiar este ou aquele instituto ou movimento. Para entrar e ter parte nele será, por isso, necessário estar sintonizado com os dinamismos eclesiais do momento, sincronizados com as sensibilidades e os valores a que este papa faz apelo.

Ora, os Institutos missionários, nas últimas décadas procuraram afirmar-se pelo seu (pretenso) profetismo, demarcando-se das sensibilidades das igrejas locais, tanto da Igreja local de sua origem, como das igrejas locais do seu envio. Para eventualmente termos parte nos novos dinamismo criados pelo “efeito Francisco” será necessário rever esta situação e sincronizar-se mais com as igrejas locais, as suas vivências espirituais, as suas iniciativas evangelizadoras.

O papa Francisco faz apelo a uma religiosidade (popular), a uma atitude de abertura (acento sobre a compreensão e compaixão), a uma espiritualidade pessoal integrada (com acento na vida sacramental e na oração pessoal) ... a coisas que muitos, nos institutos missionários, deram há muito por superadas e com as quais dificilmente estarão agora em sintonia. Não me alongo mais nisto, mas é evidente que entre nós Eucaristia diária, adoração eucarística, terço, meditação pessoal, leitura espiritual... como dimensões cardeais de uma espiritualidade missionária foram há muito postas em causa, deixando-nos numa situação longínqua da proposta pelo papa na AE.

Novas sínteses

Um outro aspecto surpreendente do “efeito” Francisco resulta do modo pessoal e originário como este papa conjuga e integra aquilo que costumamos chamar “as várias dimensões da missão”, nomeadamente o “anúncio do Evangelho” e a “dimensão social da evangelização” (partes terceira e quarta da AE, respectivamente).

A recepção, entre nós, desta síntese tem sido desvirtuada e parcial: identificamo-nos, de boa mente, com o que o papa diz e faz, na AE e noutras suas intervenções e gestos, em relação à “dimensão social”; mas silenciamos o que ele diz sobre o anúncio (nomeadamente sobre o serviço à Palavra de Deus na homilia) ou sobre o que ele diz a respeito dos “evangelizadores com Espírito” e sobre o perfil de evangelizador que ele propõe para a Igreja de hoje.

Para termos parte no “efeito Francisco” será, por isso, necessário rever as nossas sínteses, os acentos e exclusivismos que damos a esta ou àquela dimensão, para tentarmos novas sínteses e visões, a nível de espiritualidade, de itinerários formativos, de visão e de metodologia missionárias. Será necessário, para concluir, pôr alguma ordem na nossa casa e nas nossas sínteses, com a determinação e a clareza que o papa Francisco está a mostrar (com a mesma clareza com que fala de misericórdia, ele indica “tolerância zero” para os abusos e aberrações no ministério: uma atitude que pode ajudar-nos a enfrentar e ultrapassar os “abusos” de carisma e irresponsabilidades que se verificam também entre nós em vários âmbitos da vida e missão do instituto).

Só assim, depois deste trabalho de casa, poderemos eventualmente estar em sintonia, não só com o que o papa Francisco propõe, mas sobretudo aparecer como resposta correspondente àquilo que as pessoas procuram, de modo a poderem encontrar em nós resposta às expectativas que o Espírito nelas faz nascer.

As pessoas em geral, e os jovens em particular, respondem ao que o papa Francisco propõe porque as suas palavras e propostas ecoam nelas e são resposta ao que sentem e procuram. Ter parte no “efeito Francisco” exigirá, por isso, mais coerência evangélica e atenção ao sentimento e às expectativas das pessoas e mais distanciamento dos clichés ideológicos que herdámos de um passado recente.


P. Filipe Miguel Oliveira Resende,
comboniano português,
a trabalhar na paróquia de
Kariobangi,
diocese de Nairobi,
no Quénia.

 

Alegria e beleza

Na AE e noutras suas intervenções, o papa Francisco usa duas categorias que (quase) tinham desaparecido do nosso vocabulário, alegria e beleza, e que é importante recuperar se queremos ter parte no efeito renovador do seu pontificado. A AE abre com esta sinfonia da alegria (números 1-11) e acaba com uma apologia do encontro com Cristo “cuja beleza nos deslumbra e volta a cativar-nos vezes sem conta” (número 264). A alegria e a beleza, porém, não são cosméticos que nos podemos colocar no rosto segundo a moda do momento: resultam, como também nos recorda o papa, de uma vida pessoal integrada e realizada, em termos humanos, cristãos e missionários. Neste sentido, o “efeito Francisco” desafia-nos a uma vida mais integrada e autêntica, que tenha como frutos a alegria e a beleza.

O nosso fundador falava da beleza espiritual desta contemplação do Coração de Cristo que conforta o missionário no meio das provações da sua missão (RV 3). A nossa Regra de Vida chama a este encontro com Cristo, o momento “focalizante “ e “decisivo” (RV 46 e 21.1) do nosso ser e fazer missionário.

Na mística e visão missionária comboniana tradicional demos ênfase ao sofrimento dos povos e às dificuldades da vida missionária, sempre a rondar e exigir heroísmo. O “efeito Francisco” desperta-nos para uma mística e uma praxis missionária que integrem e testemunhem a alegria e a beleza de uma vida transformada por Cristo e, por isso, transformante das situações sociais que encontramos e vivemos na vida missionária: uma alegria que será humilde, como já a chamava Bento XVI e que brotará certamente aos pés da Cruz, como nos lembrará S. Daniel Comboni hoje na sua festa; uma beleza descoberta no rosto de todos os homens e mulheres, dos excluídos em especial, como nos recordará ainda S. Daniel Comboni, e que Deus quer fazer resplandecer na face da Igreja e no rosto do instituto comboniano do nosso tempo.
P. Manuel Augusto Lopes Ferreira
10 de Outubro de 2014