Emergência climática: milhões de jovens hoje na rua para “serem ouvidos”

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Sexta-feira, 24 de maio de 2019
“Já fui em Março e esta é uma boa oportunidade de os estudantes serem ouvidos”, diz ao 7MARGENS Violeta Guerreiro, jovem de 13 anos, que esta sexta-feira participa na manifestação da greve pelo clima que, um pouco por todo o mundo, levará milhões de jovens à rua para pedir medidas mais enérgicas na luta contra a emergência climática. Na foto: Jovens em São Francisco (EUA), em Março: o clima está a mudar, porque não mudamos nós?, pergunta o cartaz à esquerda; e à direita: “Um bom planeta é difícil de encontrar”. (Foto © Intothewoods7/Wikimedia Commons).

Em Portugal, há iniciativas previstas em 50 cidades e vilas, diz Matilde Alvim, 17 anos, estudante da área de Humanidades em Palmela, que integra o grupo que nos últimos dias tem estado a preparar a manifestação que, entre as 10h30 e as 14h, levará os jovens do Marquês de Pombal ao Largo de São Bento, frente ao Parlamento (continuando depois até final do dia, com várias outras actividades no mesmo local).

“A manifestação é um momento, com as crianças a faltar à escola”, diz Violeta, aluna do 7º ano no Conservatório. “Muitas pessoas não têm noção do que se está a passar com o ambiente, o aquecimento global e a poluição”, acrescenta. “As nossas vidas vão todas mudar em breve por causa deste problema e agora talvez já haja pessoas a perceber melhor o perigo”, acrescenta.

Violeta foi uma das pessoas que, estando já atenta ao que se passa, ficou mais sensibilizada também pelo gesto de Greta Thunberg, a jovem sueca de 16 anos que começou a faltar às aulas às sextas-feiras a pedir políticas mais enérgicas contra as alterações climáticas. “Sei que ela tem faltado às aulas todas as sextas-feiras e isso teve um grande impacto. Vários amigos começaram a juntar-se a ela e ficou famoso esse gesto que levou ainda mais gente a apoiá-la”, explica.

A jovem de Lisboa viu, depois, discursos de Greta “a explicar que o mundo está em perigo”, bem como fotos. Tudo isso a levou a mobilizar outros colegas e amigos – da sua turma de 15 alunos, sete estarão na manifestação de hoje em Lisboa. “Eu e uma amiga minha convencemos outros colegas a juntarem-se a nós e temos falado muito do assunto, não só com amigos, mas também com professores, devido a este movimento.”

A “estátua da poluição” pedindo “Fim do crime climático”. Foto © Leonhard Lenz/Wikimedia Commons.

“A iniciativa é dos estudantes e dos jovens, mas quanto mais solidários formos com eles, melhor, sem lhes tirar o protagonismo”, diz Francisco Ferreira, em declarações ao 7MARGENS, explicando o apoio da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável à iniciativa desta sexta-feira. Além da Zero, mais de 40 outras organizações também se declararam apoiantes da greve estudantil.

Matilde Alvim também se entusiasmou com o testemunho de Greta, mesmo se este era um assunto que já a interessava. “Nós só estamos a lutar por aquilo em que acreditamos, porque consideramos que é grave o que se passa. Todos os anos as emissões de gases aumentam, agravam-se os vários factores e, em termos de números, nada melhora”, diz, acerca das suas razões para se ter tornado uma militante da causa climática.

A manifestação continuará, depois das 14h, com várias actividades: uma assembleia para decidir próximas iniciativas, algumas acções da campanha Linha Vermelha, que através do tricô pretende chamar a atenção para a crise climática, e uma vigília final, que decorrerá até as pessoas dispersarem.

Estamos perante uma situação de efectiva “emergência”, acrescenta Francisco Ferreira. “Não somos só nós que o dizemos, também o secretário-geral das Nações Unidas tem dado voz a essa emergência, porque as acções dos políticos estão muito aquém do que é necessário e a mobilização dos cidadãos é crucial nesta altura em todas as frentes.”

“Não podemos ficar sentados a ver a crise a piorar”

Jovem em Tartu (Estonia), na manifestação de Março: “Lista vermelha – Homo Sapiens ameaçado de extinção”. Foto © Wanyi Jee/Wikimedia Commons.

No comunicado com que assinala o apoio à iniciativa estudantil, a Zero diz: “À medida que os impactos das alterações climáticas aceleram em todo omundo, não podemos ficar sentados a observar a crise a piorar. Pelo contrário, é fundamental levantarmo-nos e lutar pelo nosso futuro, exigindo uma ação urgente. Graças às ações persistentes e inspiradoras dos jovens ativistas climáticos, as manifestações climáticas tornaram-se o novo normal. Os jovens estão a trazer a sua frustração e esperança para as ruas e estão a desafiar os políticos para a sua falta de ação. Os protestos ganham imensa visibilidade e espalham-se por todo o mundo na maior mobilização climática de todos os tempos.”

Deste movimento, Francisco Ferreira espera que haja resultados e não apenas um comprometimento incoerente que não seja sério”. E dá um exemplo: “Não podemos querer reduzir emissões através de um conjunto de medidas e ver depois o transporte aéreo a crescer de forma avassaladora em toda a Europa, sem qualquer controlo”. O turismo é importante, diz, mas a política “ou é séria ou não terá as consequências positivas e necessárias que se pretende”.

O papel dos cidadãos, sendo importante, “não é suficiente”. É crucial “fazer campanhas”, acrescenta, exemplificando com o plástico, em que as medidas tomadas levaram as pessoas “a reagir de forma mais consciente e rápida”. O que significa “que as pessoas precisam de ter orientações políticas claras – nomeadamente do ponto de vista fiscal”.

Horas antes, o próprio testemunhara outro exemplo, numa visita a uma unidade em que se faz reciclagem de pilhas: “Porque há-de ser necessário ter todo o processo de reciclagem, quando poderíamos usar pilhas recarregáveis? Arranjamos sempre subterfúgios para adoptar soluções boas, quando podíamos ir para as soluções óptimas”. E conclui: “Não estamos em tempo de reticências, cada dia que passa já é um bocadinho mais tarde, são mais dias que vamos precisar de recuperar.”

 “O acordar da sociedade”

Os sapatos do Papa Francisco, em 2015, em Paris, na manifestação pelo clima. Foto reproduzida da página do Global Catholic Climate Movement (https://catholicclimatemovement.global/pope-francis-joins-climate-march/).

Marcial Felgueiras,responsável da Cruzinha, centro de interpretação e investigação da associação A Rocha, no Algarve, também se declara solidário com a iniciativa estudantil. Organização ambientalista de inspiração cristã nascida em Portugal, A Rocha tem projectos na área do desenvolvimento sustentável, reflorestação, pesquisa científica, conservação e biodiversidade, educação ambiental, formação cristã ambiental e acção climática.

“Apoiamos a iniciativa, não tanto por causa da greve, mas porque ela traduz o acordar da sociedade. E está a começar por aqueles que não são ainda decisores, mas que são a geração que irá sofrer pela falta de coragem dos actuais governantes”, justifica. “É uma iniciativa corajosa, audaz, de louvar, e um sinal de esperança de uma juventude que parecia alheada e começa a acordar para a realidade.”

Sobre o papel dos cristãos, Marcial Felgueiras dá alguns exemplos: “Muitas vezes temos projectos globais e megalómanos sobre o que podemos fazer, mas lembro-me sempre das palavras de Jesus, sobre quem é o meu próximo. A resposta que ele dá é precisamente sobre aquilo que nos é próximo, por exemplo nas compras diárias: será que precisamos de todo o plástico que trazemos? Ou o que fazemos com gastos de água de torneiras, gastos de electricidade, carregadores que deixamos ligados, equipamentos que não desligamos…”

Essas são pequenas acções, acrescenta, “que não nos custam nada e até nos trarão benefícios: quanto menos energia consumirmos, mais dizemos à rede eléctrica que não é necessário produzir tanta e ficaremos cada vez mais autossuficientes com energia de fontes renováveis, o que se torna bom para nós, para o país e para o planeta”.

Referindo também a importância da alteração de políticas, o dirigente de A Rocha resume, sobre a responsabilidade individual: “Uma pequena acção multiplicada por milhões será benéfica; somos responsáveis pelas nossas decisões. E os cristãos, enquanto tal, podem fazer a diferença, com conhecimento, informação, sendo responsáveis por aquilo que podemos mudar. Há muito que já podemos fazer, sem precisar que os decisores nos venham dizer.”
[António Marujo – 7Margens]

Emergência climática, prioridade absoluta, transição energética:
as propostas dos candidatos para o clima

O cardeal Claudio Hummes e dois responsáveis do Movimento Católico Global pelo Clima (GCCM), em Paris, na altura da Cimeira sobre o Clima,
em 2015: o grito da terra e o grito dos pobres pedem mais acção.
Foto reproduzida da página do GCCM (https://catholicclimatemovement.global/pope-francis-joins-climate-march/).

Os partidos concorrentes às eleições ao Parlamento Europeu (PE) defendem que as decisões respeitantes à emergência climática que se vive no mundo sejam uma prioridade para o próximo mandato do PE e das políticas europeias nos anos próximos. A grave crise climática é a razão para manifestações, nesta sexta-feira, dia 24, em cerca de duas mil cidades em todo o mundo – em Portugal, há iniciativas previstas em 50 cidades e vilas.

Estas ideias surgem das respostas ao inquérito que o 7MARGENS tem vindo a publicar nesta semana, a partir de algumas afirmações da carta pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa “Um olhar sobre Portugal e a Europa à luz da doutrina social da Igreja”, publicada dia 2 de Maio.

Francisco Guerreiro, do PAN, defende que se decrete “o estado de Emergência Climática na Europa” e se acelere “a transição para um sistema energético com base nas energias 100% limpas e renováveis”, já que este é “o maior desafio” do século. Paulo Rangel (PSD) diz que a crise climática é “prioridade absoluta” e propõe “a redução para metade das emissões de carbono até 2050” e a revisão do Acordo de Paris para “objectivos mais ambiciosos”. Marisa Matias (Bloco de Esquerda) quer financiar um programa europeu de empregos públicos climáticos, um “sistema de garantia obrigatória de 10 anos” para os produtos electrónicos e um “plano internacional de acolhimento para refugiados ambientais”.

Nuno Melo (CDS-PP) aponta para a execução do Acordo de Paris, acelerando a transição para “uma economia menos dependente de carbono” e a utilização dos fundos comunitários prioritariamente para as novas realidades climáticas dos países do sul da Europa”. João Ferreira (CDU) aponta também para a promoção de tecnologias hipo-carbónicas, eficiência energética, energias renováveis, racionalização de consumos e redução da produção de resíduos ou da reciclagem, entre outras medidas. Finalmente, Rui Tavares (Livre) aposta no Novo Pacto Verde com o objectivo de fazer uma “rapidíssima transição energética para as renováveis, investir nos milhões de empregos que é possível criar na economia verde e apoiar localmente o trabalho em infra-estruturas”, por exemplo no isolamento e aquecimento eficiente de casas e locais de trabalho.

As perguntas anteriores deste inquérito abordaram o crescimento dos nacionalismos, o Pacto das Migrações e o acolhimento dos migrantes e refugiados. Os critérios utilizados para convidar os partidos estão explicados no primeiro texto.

Por ter chegado mais tarde, a resposta do CDS apenas foi tida em conta nos dois últimos temas. Ficam a seguir a última pergunta do inquérito do 7Margens e as respostas completas de cada um dos cabeças-de-lista.

Foto © PAN.

7MARGENS – Quais são os combates europeus mais urgentes relativamente à ecologia? Que políticas defende para combater as mudanças climáticas e preservar a biodiversidade?

Francisco Guerreiro, PAN: Uma das primeiras medidas do PAN será decretar o estado de Emergência Climática na Europa. As Alterações Climáticas representam o maior desafio sociopolítico, socioecológico e sociotecnológico do nosso século. Ainda é possível travar o aquecimento global e impedir um cenário com consequências desastrosas para a biodiversidade e para a  vida no Planeta. O PAN quer acelerar a transição para um sistema energético com base nas energias 100% limpas e renováveis até 2050, com metas mais ambiciosas para 2030. Queremos também garantir um sistema energético mais inclusivo, assente na ação comunitária e centrado nos cidadãos e empresas, promovendo a democracia e a independência energética. Nesta matéria, importa também repensar modelos de consumo, produção e distribuição de alimentos. Continuar a financiar uma atividade altamente poluente como a pecuária intensiva é simplesmente impensável. O PAN quer encaminhar estes fundos comunitários para a implementação de uma Estratégia Europeia para a Agricultura Biológica.

Foto © PSD.

Paulo Rangel, PSD: A ecologia e, em especial, o combate às alterações climáticas são para nós, PSD, uma prioridade absoluta! Defendemos uma redução para metade das emissões de carbono até 2050 (o que implica um esforço de 80 por cento de redução nos países ocidentais). Defendemos que os acordos de Paris são já um patamar do mínimo exigível, que deve ser aliás revisto para objectivos mais ambiciosos. Defender um oceano limpo de plásticos, fomentar a transição para energias limpas e renováveis, incentivar a economia circular (que combate o desperdício) são instrumentos fundamentais das políticas europeias de ambiente.

Foto © Paula Nunes.

Marisa Matias, Bloco de Esquerda: O desafio ambiental deve ser encarado como o foco de uma estratégia de criação de emprego de qualidade, indústrias inovadoras e melhoria da qualidade de vida. Para isso é precisoreafectar recursos comunitários necessários para financiar um programa europeu de empregos públicos climáticos, com quatro finalidades: 1) substituir fontes fósseis por fontes renováveis, criando uma indústria pública europeia de energia solar e eólica; 2) promover a eletrificação total do sistema de transportes, sobretudo através de um projeto europeu de ferrovias; 3) reconverter a agricultura, pecuária e floresta, reduzindo os inputs energéticos e químicos com emissões de gases com efeito de estufa; 4) garantir a adaptação das zonas litorais para o aumento da frequência e intensidade de fenómenos climáticos extremos.

O Bloco defende que todas as políticas europeias sejam sujeitas a uma avaliação de impacto climático, uma taxa de carbono sobre os setores que participam no comércio europeu de licenças de emissões e um sistema de garantia obrigatória de 10 anos para todos os produtos eletrónicos. Defendemos ainda que sejam cancelados todos os financiamentos a combustíveis fósseis pelo Banco Europeu de Investimento.

E não esquecemos a urgência de um plano internacional de acolhimento para refugiados ambientais.

Foto © CDS-PP.

Nuno Melo, CDS: Numa altura em que ainda é possível limitar o aumento do aquecimento médio global a 1,5 graus, é preciso dirigir o melhor do nosso esforço para a proteção do sistema climático da Terra através da implementação do Acordo de Paris, acelerando a redução das emissões de gases com efeito de estufa e a transição de uma economia menos dependente de carbono, objetivos que não se coadunam com medidas ou condutas unilaterais.

Os fundos comunitários têm que ser direccionados com prioridade para as novas realidades climáticas dos países do sul da Europa. O CDS-PP bater-se-á, no Parlamento Europeu, pela majoração de fundos para a recuperação, renovação e construção de equipamentos de transporte de água e regadio com sistemas de poupança de água, fundos para a preservação dos recursos aquíferos, bem como de consolidação de solos e escarpas.

A UE deve também consolidar o processo de liberalização do mercado da energia, através da criação de esquemas tarifários dinâmicos, oferecendo ao consumidor a possibilidade de gerir a procura e, dessa forma, ajustar o seu comportamento em função do preço da energia. Estes tarifários dinâmicos deverão ter em conta a sazonalidade de terminados consumos energéticos (industriais, agrícolas e residenciais), devendo ser analisado, para o efeito, o regime de pré-pagamento de energia (eletricidade e gás).

Foto © PCP.

João Ferreira, CDU: A promoção da qualidade de vida, garantindo o usufruto da natureza, exige a defesa do carácter soberano e público das políticas de preservação do ambiente e dos recursos naturais.

Um dos importantes desafios que está colocado é o da rejeição da mercantilização do ambiente – particularmente no que toca ao direito à água, assegurando a defesa da sua propriedade e gestão públicas.

Para a defesa do ambiente devem ser implementadas medidas que visem a promoção daredução das emissões de gases de efeito de estufa e a progressiva transição para tecnologias hipocarbónicas, respeitando o direito ao desenvolvimento; que visem a promoção da eficiência energética, de energias renováveis, da racionalização de consumos, da redução da produção de resíduos ou da reciclagem; que visem o reforço da investigação e do desenvolvimento tecnológico, promovendo uma indústria cada vez menos poluente; assim como o reforço dos programas de conservação da natureza ou o respeito pelo princípio da precaução, nomeadamente face aos Organismos Geneticamente Modificados, entre outros exemplos.

Foto © André Góis.

Rui Tavares, Livre: No LIVRE defendemos a aposta num Novo Pacto Verde – Green New Deal, em inglês – de cerca de 500 mil milhões de euros anuais nos próximos cinco anos, com capital inicial do Fundo Europeu de Investimentos e com três objetivos: fazer uma rapidíssima transição energética para as renováveis, investir nos milhões de empregos que é possível criar na economia verde e apoiar localmente o trabalho em infra-estruturas, nomeadamente no isolamento e aquecimento eficiente de edifícios – as nossas casas e os nossos locais de trabalho – com evidentes benefícios para a produtividade, para a saúde e em particular para os nossos cidadãos sénior. Com um Novo Pacto Verde relança-se a economia europeia salvando o planeta para a vida humana sustentável e para a biodiversidade.

[António Marujo – 7Margens]