Sábado, 3 de Agosto de 2019
“Respeite os povos indígenas, presidente Bolsonaro”, apela o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para as questões indígenas. A mensagem surge na sequência do assassinato de um líder indígena do povo wajãpi, em Mariry (estado de Amapá, Amazónia brasileira), quando um grupo de mineiros armados e acompanhados de cães perigosos assassinaram Emyra Wajãpi, 68 anos. [Nella foto, © Rede de Cooperação Amazónica: Indígenas wajãpi, em 2016, comemorando os 20 anos da demarcação da sua Terra Indígena].

Perante a declaração do Presidente brasileiro de que não há “indício forte” de que o líder wajãpi tenha sido assassinado – e que provocou medo entre os indígenas – o Cimi escreve que “os discursos de ódio e agressão do presidente Bolsonaro e demais representantes de seu governo servem de combustível e estimulam a invasão, o esbulho territorial e ações violentas contra os povos indígenas” do Brasil.

O Cimi apela ainda à tomada de “medidas urgentes, estruturantes e isentas politicamente para identificar e punir, na forma da lei, os responsáveis pelo ataque aos Wajãpi”, bem como para “combate à invasão e esbulho possessório das terras indígenas” e exige que o Presidente “respeite a Constituição Brasileira e pare imediatamente de fazer discursos preconceituosos, racistas e atentatórios contra os povos originários e seus direitos em nosso país”.

Também a presidência da CNBB publicou uma nota na qual afirma: “Há-de se encontrar caminhos para superar os processos que ameaçam a vida, pela destruição e exploração que depredam a Casa Comum e violam direitos humanos elementares da população. É preciso, assim, enfrentar a exploração desenfreada e construir um novo tempo, tempo de Deus, humanizado, na Amazónia.”
[António Marujo – 7Margens]

Os mártires que morreram pelo meio ambiente

Cacique indio Wajãpi assassinado cruelmente por um grupo de garimpeiros
a 23 de Julho 2019 em Amapá, no norte do Brasil.

“Eles vivenciam um papel profético que nos desafia e nos pede para nos unirmos com ações concretas e, em um nível espiritual, com uma união de corações e mentes na oração, para viver uma solidariedade profética em nossa casa comum, no nosso Planeta”, escreve Andrea Vicini, jesuíta, professor de teologia moral na Pontifícia Universidade de San Luigi, em Nápoles, e no Boston College, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 01-08-2019. O artigo é publicado na última edição da revista La Civiltà cattolica. A tradução é de Luisa Rabolini.

Discípulos – De Ken Saro-Wiwa, a José Cláudio Ribeiro da Silva e a Chut Wutty, da Nigéria ao Brasil e a Honduras. Exemplos preciosos de uma solidariedade profética em nossa casa comum, em nosso Planeta. Muitos indivíduos e comunidades inteiras querem proteger o meio ambiente de qualquer tipo de exploração sem limites e da destruição injustificada. Seu empenho não é apreciado por todos, e muitas vezes enfrentam resistências fortes e violentas.

Na África, um exemplo trágico é o de Ken Saro-Wiwa (1941-95), escritor nigeriano, produtor de TV, ativista ambiental e membro do povo Ogoni no delta do Níger. Naquela área, a partir da década de 1950, a extração de petróleo pela empresa Shell causou danos ambientais gravíssimos.

Porta-voz e presidente do Movimento pela sobrevivência do povo ogoni (Mosop), Saro-Wiwa liderou uma campanha não-violenta contra a degradação ambiental da terra e das águas. Crítico do governo nigeriano, foi processado por um tribunal militar e enforcado em 1995. A indignação internacional pela sua execução fez com que a Nigéria fosse suspensa da Comunidade das Nações por mais de três anos.

No Brasil, outro exemplo é o de Dorothy Stang (1931-2005), freira e ativista ambiental norte-americana, pertencente à Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur. Em Anapu, no estado do Pará, onde vivia e trabalhava, ajudou a fundar o projeto de desenvolvimento sustentável chamado Esperança. Por causa de sua dedicação em servir os pobres e proteger o meio ambiente, depois de receber numerosas ameaças de morte de empresas de desmatamento e proprietários de terras, em 2005 foi assassinada por matadores contratados por aqueles cujos interesses financeiros eram ameaçados por seu engajamento ambientalista.

Em 2011, no mesmo estado do Pará, José Cláudio Ribeiro da Silva e sua esposa, Maria do Espírito Santo da Silva, foram mortos em uma emboscada na cidade de Nova Ipixuna. Da Silva foi um dos líderes de sua comunidade e criticava intensamente o crescente aumento do desmatamento da Amazônia.

Em 2015, no estado do Maranhão, o ambientalista Raimundo Santos Rodrigues foi morto por seu engajamento em proteger a floresta amazônica oriental de empresas do desmatamento, de latifundiários que se apropriaram da áreas desmatadas para promover cultivos agrícolas industriais e intensivos, e pelos donos da mineradoras que extraíam recursos do subsolo e poluíam.

A associação Global Witness relata que pelo menos 448 ambientalistas foram mortos no Brasil entre 2002 e 2013. Em outros países, a resistência à exploração desenfreada do planeta é marcada pelo sangue derramado pelos mártires ambientais.

Nas Filipinas, em 2012, o líder indígena Jimmy Liguyon foi morto diante de sua família porque se recusou a vender sua terra para as mineradoras. No mesmo ano, no Camboja, Heng Chantha, de 14 anos, foi morta pela polícia porque se opôs à expulsão de cidadãos e à destruição da aldeia para iniciar uma plantação de seringueiras.

No Camboja, Chut Wutty (1972-2012) fundou e dirigiu o Natural Resource Protection Group, uma organização cujo propósito era proteger os recursos naturais da nação. Ele criticava abertamente o desmatamento operado por empresas que obtiveram concessões de terras em florestas protegidas graças à corrupção militar e governamental. Em 26 de abril de 2012, foi morto a tiros enquanto acompanhava dois jornalistas do jornal The Cambodia Daily, perto de uma floresta protegida, sobre a qual repetidamente tentou divulgar a extração ilegal permitida por funcionários militares.

Em outubro de 2014, a Collaborative Partnership on Forests, um consórcio internacional de 14 organizações, secretarias e instituições envolvidas na proteção florestal internacional conferiu um reconhecimento póstumo a Chut Wutty em honra à sua dedicação pela proteção da floresta local. O prêmio, inaugurado em 2012, é um reconhecimento dado àqueles que fornecem contribuições excepcionais para preservar, recuperar e gerenciar de maneira sustentável as florestas. No documentário I Am Chut Wutty, lançado alguns meses antes de sua morte e disponível desde 2015, Chut explica as razões de seu ativismo em apoio à população local. Após seu assassinato, sua atividade continuou. Toda a comunidade se tornou “Chut Wutty”. Aqueles que pensaram que fosse suficiente eliminar uma pessoa para interromper o trabalho estavam errados: Chut continua a viver em cada membro de sua comunidade: “a eliminação de Chut multiplicou Chut”.

Em 2015, a hondurenha Berta Cáceres (1973-2016), em uma nação marcada por crescentes disparidades socioeconômicas e violações de direitos humanos, ganhou o prestigioso prêmio Goldman para os defensores do meio ambiente por causa de sua preocupação em proteger uma importante fonte de água doce, o rio Gualcarque, ameaçado pelo projeto de construção da barragem de Agua Zarca. Berta reuniu a população indígena lenca e pressionou para bloquear a construção da barragem. O projeto ameaçava drenar o rio, com sérias consequências para as terras agrícolas ao redor. O rio é um recurso importante para a vida da população – da agricultura à natação, à pesca – e pelo seu valor cultural e espiritual. Devido à iniciativa de Berta, o projeto foi transferido para o lado oposto do rio. A barragem não seria construída em terras agrícolas, mas isso não impediria danos à agricultura.

Em outubro de 2015, a construção da barragem começou, apesar dos protestos de Berta e da população indígena. Em 2 de março de 2016, dois dias antes de completar 45 anos, Berta foi morta a tiros. Após seu assassinato, a população indígena continuou sua obra, em seu nome. No início de 2016, após outros episódios de violência contra a população, o financiamento do projeto foi suspenso e cessou definitivamente em 2017.

Infelizmente, para muitos, ser discípulos não os poupa de se tornarem mártires do meio ambiente. Eles vivenciam um papel profético que nos desafia e nos pede para nos unirmos com ações concretas e, em um nível espiritual, com uma união de corações e mentes na oração, para viver uma solidariedade profética em nossa casa comum, no nosso Planeta.