Greta Thunberg: “Como é que se atrevem? Roubaram-me os sonhos. O crescimento económico eterno é um conto de fadas”

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Terça-feira, 24 de Setembro de 2019
“Como é que se atrevem? Vocês roubaram-me os sonhos e a infância com as vossas palavras vazias” e só se preocupam com o dinheiro e “os contos de fadas do crescimento económico eterno”, disse, ontem, Greta Thunberg, a jovem sueca que foi convidada pelo secretário-geral da ONU para falar no início da Cimeira de Ação Climática, em Nova Iorque. Foto: Greta durante o seu discurso na ONU (vídeo).

Há um ano, Greta estava sentada sozinha diante do Parlamento sueco numa greve às aulas, em protesto contra a inação dos políticos e em defesa do clima e do ambiente. Um ano depois, ela falou na assembleia mundial, convida por António Guterres. No seu curto discurso de quatro minutos e meio, afirmou: “Eu não devia estar aqui, eu devia estar na escola, do outro lado do oceano.”

Com base nas evidências científicas dos últimos 30 anos, Thunberg afirmou que teve sorte onde teve a sua infância, mas o mesmo não poderia ser dito de todas as pessoas que sofrem e morrem todos os dias, cujos ecossistemas se esvanecem, e que o planeta inteiro está a assistir a uma extinção em massa. De seguida criticou os líderes políticos que, apesar de todas as evidências, continuam a pensar nos “negócios, como de costume”.

Socorrendo-se de alguns números e das provas científicas dos últimos 30 anos, Thunberg afirmou que teve sorte por ter tido a infância que teve, mas que o mesmo não poderia ser dito sobre todas as pessoas que sofrem e morrem todos os dias, cujos ecossistemas desaparecem. E o planeta inteiro está no início de uma extinção em massa, acrescentou, criticando os líderes políticos: “Vocês deixaram-nos cair. Mas os jovens começam a compreender a vossa traição”, disse Greta Thunberg. “Se vocês decidiram deixar-nos cair, eu digo-vos: nós nunca vos iremos perdoar. E não deixaremos que vocês se vão embora assim”, afirmou na sua intervenção, que pode ser vista e ouvida em vídeos disponíveis no YouTube e vários outros média e redes sociais…

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, estava ao lado de Greta a escutá-la atentamente. No final, referiu que “ainda não é demasiado tarde” para atender à emergência climática mundial, mas advertiu que o tempo está a esgotar-se. “A emergência climática é uma corrida que estamos a perder mas que ainda podemos ganhar. A crise climática é provocada por nós e as soluções devem vir de nós. Temos as ferramentas: a tecnologia está do nosso lado”, afirmou, citado pelo Diário de Notícias.

Antes de discursar, Greta ainda viu o Presidente dos EUA, Donald Trump, a chegar ao edifício da ONU. Mas Trump não foi participar na Cimeira do Clima, antes quis estar presente num encontro sobre liberdade religiosa, que decorria também no edifício. De acordo com a TVI, o Presidente dos EUA terá saído da Trump Tower, onde tem a sede das suas empresas, para o edifício da ONU e terá estado com Guterres no encontro sobre liberdade religiosa, tendo também visto o discurso de Greta.
[Guilherme Lopes – 7Margens]

Combate às alterações climáticas será inútil
sem desenvolvimento dos pobres, alerta OCDE

A estátua da liberdade transformada em “estátua da poluição” pedindo “Fim do crime climático”: os pobres vão ficar para aumentar se não se pensar neles,
avisa a OCDE. Foto © Leonhard Lenz/Wikimedia Commons

“O combate às alterações climáticas será inútil sem investimento no desenvolvimento dos países mais pobres,” avisa a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), num relatório apresentado durante a Cimeira do Clima, que decorreu esta semana nas Nações Unidas.

No documento, a organização avisa ainda para a possibilidade de, em 2030, haver mais de 100 milhões de novos pobres em todo o mundo. Para se conseguir limitar a temperatura global a 1,5 graus (comparando com a da era pré-industrial), será necessário investir “sete mil milhões de dólares, dois terços dos quais são precisos para os países em desenvolvimento”, conforme afirmou Jorge Moreira da Silva, diretor-geral de Desenvolvimento e Cooperação da OCDE, em declarações à Lusa, citadas no Expresso.

Moreira da Silva acrescentou que “por maior que seja a ambição dos países mais ricos com as metas para a redução do aquecimento global, não será possível combater as alterações climáticas sem dar atenção aos países em desenvolvimento.”

O documento da OCDE foi apresentado terça-feira, 24, em Nova Iorque, e pretende colocar no mesmo patamar o desenvolvimento e ação climática na mesma frente. As duas áreas não podem continuar em “caixas separadas”, disse o ex-ministro português do Ambiente e Energia, que tutelou essas pastas no anterior Governo.

Há um desfasamento entre políticas públicas e ambição climática, acrescentou Moreira da Silva. Como exemplo disso, citou: “Só 20% dos 150 mil milhões de dólares de ajuda anual aos países em desenvolvimento é que têm uma avaliação do seu impacto nas alterações climáticas.”

Menos glaciares

Um outro relatório divulgado na quarta-feira, 25 de setembro, do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, prevê um cenário de consequências dramáticas para o planeta: mais inundações costeiras, mais tempestades tropicais, menos biodiversidade, menos glaciares e milhões de pessoas que vivem em regiões costeiras a ficar em risco.

Este é o primeiro documento do IPCC dedicado apenas aos oceanos e às partes geladas do planeta. Os mares ficarão doentes, afetando toda a vida na Terra, conclui o relatório, que prevê ainda “eventos extremos de subida do mar que são historicamente raros”, pois acontecem uma vez por século no passado recente. Estes começarão a acontecer cada vez com mais regularidade, “pelo menos uma vez por ano” a partir de 2050, afetando mais as regiões tropicais, de acordo com o documento, resumido pelo jornal Público.

De acordo com estas previsões, Portugal está também entre as regiões potencialmente afetadas, sobretudo quando se registam marés altas e tempestades intensas.

Não se ficando pelo diagnóstico, o IPCC alerta que as respostas a estas previsões parecem simples: reduzir de vez as emissões de dióxido de carbono e adaptar as regiões à profecia que se vai cumprindo dia após dia; ou lidar com algumas consequências irreversíveis.
[Guilherme lopes - 7Margens]

As muitas manifestações pelo clima,
em Portugal, nesta sexta, 27 de Setembro de 2019

Jovens em São Francisco (EUA), em Março: o clima está a mudar, porque não mudamos nós?, pergunta o cartaz à esquerda;
e à direita: “Um bom planeta é difícil de encontrar”. Foto © Intothewoods7/Wikimedia Commons.

Nesta sexta-feira, milhões de pessoas em todo o mundo voltarão a fazer greve pelo clima. Em Portugal, estão previstas concentrações e marchas em várias localidades.

Em Lisboa, a marcha ligará o Cais do Sodré ao Rossio a partir das 15h; no Porto, duas horas mais tarde, os manifestantes desfilam entre a Praça da República e a Avenida dos Aliados. Também para as 17horas estão marcadas concentrações em Guimarães (Plataforma das Artes), Braga (Pç. da República), Vila Real (Câmara Municipal), Chaves (Lg. General Silveira), Aveiro (Escola Homem Cristo), Viseu (Rossio), Coimbra (Largo D. Dinis), Setúbal (Largo Zeca Afonso), Évora (Pç. do Giraldo), Sines (Jardim das Descobertas), Faro (Rotunda do Hospital), Lagos (Mercado Municipal), Portimão (Aqua Portimão) e Tavira (Escola Secundária).

Mais cedo, será a vez de Leiria (9h, Estádio Magalhães Pessoa), Guarda (10h30, Pç. da Sé) e Portalegre (16h, Rossio). Haverá ainda concentrações em Castro VerdeLousadaMoimenta da BeiraPenafielPombal e Vila Pouca de Aguiar.

A nível mundial, está a crescer também a participação de grupos de base religiosa nas manifestações pelo clima. Christina Leaño, directora do Movimento Católico Global pelo Clima (MCGC) disse ao jornal digital Crux que a envolvência de católicos nestes movimentos vem na sequência da Laudato Si’, a encíclica histórica que o Papa Francisco escreveu em 2015, chamando a atenção para o tema.

“Estamos no meio de uma emergência climática, e as pessoas de fé necessitam de respeitar toda a vida, incluindo as gerações que ainda irão nascer, todas as espécies vivas no planeta, e as crianças que vivem neste momento,” afirma Leaño.

A presidente da organização alemã Pão Para o Mundo, Cornelia Füllkrug-Weitzel, afirmou entretanto que a renovação espiritual pessoal e colectiva é a chave para fazer a diferença na luta contra as alterações climáticas. Mas isso deve levar a fazer uma pergunta: “Quais são as partes da nossa espiritualidade que pertencem no mercado económico?”

Citada no serviço noticioso do Conselho Mundial de Igrejas, Füllkrug-Weitzel acrescenta: “Nós precisamos de fazer um exame crítico individual para renovar as nossas raízes espirituais. Podemos e devemos fazer isso.”

As “Reflexões Islâmicas” da revista muçulmana de Lisboa, Al Furqán, publicará nesta sexta-feira também um texto sobre “A Ecologia e os Valores Islâmicos”. Entre vários conselhos, lê-se na revista, publicada por Mohamed Youssuf, da Comunidade Islâmica de Lisboa: “Para sermos fiéis à nossa religião, devemos mudar os nossos costumes e fazer um esforço para conservar, educar e criar instituições alternativas, para mitigar e ajudar a lidar com a crise económica e ambiental iminente, preservar e fortalecer as nossas comunidades e instituições islâmicas, e pensar em como podem ser úteis na luta para ajudar a humanidade a exercer um governo responsável.”
[António Marujo - 7Margens]