Quarta-feira, 30 de Outubro de 2019
“Se houve uma redução da desigualdade de renda entre os países, também houve um aumento da desigualdade dentro dos países”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate.

Existem várias maneiras de medir a pobreza no mundo. Utilizar somente a renda como parâmetro é uma metodologia muito simples, embora seja muito utilizada. Outra alternativa é olhar para a pobreza multidimensional que considera variáveis como educação, moradia, esperança de vida, etc.

Um dos gráficos mais divulgados para demonstrar a redução da extrema pobreza no mundo – na ótica da renda – é este abaixo do site “Our World in Data”. Utilizando uma linha de pobreza de $ 1,9 (internacional dólar) por dia, nota-se que havia 965 milhões de pessoas na extrema pobreza em 1820 (representando 89% da população mundial) e este número passou 1,9 bilhão em 1990 (representando 35,8% da população mundial) e caiu para 734 milhões em 2015 (representando 10% da população mundial). Ou seja, o número de pessoas acima da linha de pobreza passou de 117,4 milhões em 1820 (11% do total) para 3,4 bilhões em 1990 (64,2%) e para 6,6 bilhões em 2015 (90% do total).

Estes números impressionantes deram vez e voz a uma série de pessoas definidas como “Novos Otimistas”, dentre elas Hans Rosling (Gapminder), Max Roser, Steven Pinker, Bill Gates, Nicholas Kristof, etc. Todas as personalidades enaltecem o processo de redução da pobreza e o aumento do número de pessoas acima da linha da extrema pobreza e também o crescimento da classe média global.

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Contudo, diversos outros autores questionam a utilização de uma linha de extrema pobreza tão baixa e consideram que $ 1,9 dólares internacionais por dia está muito aquém das necessidades mais elementares para a sobrevivência dos indivíduos.

Em artigo recente, Jason Hickel (New Internationalist, 07-08-2019) critica a idolatria da redução da pobreza dos “Novos Otimistas” e apresenta uma outra medição da pobreza a partir de uma linha de $ 7,4 dólares internacionais ao dia.

O primeiro gráfico abaixo mostra que o número de pessoas vivendo na pobreza – considerando $ 7,4 ao dia – estava pouco acima de 3 bilhões de pessoas em 1981, subiu para 4,5 bilhões no início dos anos 2000 e caiu ligeiramente para pouco mais de 4 bilhões em 2013.

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No segundo gráfico, mostra que o percentual de pobres (com a linha de $ 7,4 por dia) ficou em torno de 60% nas 4 últimas décadas e que a redução ocorrida nos anos 2000 foi muito pequena quando comparada com o gráfico do “Our World in Data”.

Como afirma Jason Hickel: “Os gráficos produzidos pela Gapminder e Our World In Data dão a impressão de que a lacuna da pobreza quase se encerrou nas últimas décadas, abolindo a antiga divisão colonial entre o norte e o sul. Esta é a ‘Grande Convergência’ propagada por Pinker. Max Roser proclama ‘Os países mais pobres alcançaram os ricos’. E de Bill Gates diz: ‘O mundo não está mais separado entre o Ocidente e o resto’.

Contudo, utilizando uma métrica mais realista para medir a pobreza os ganhos não foram assim tão significativos. Além do mais, se houve uma redução da desigualdade de renda entre os países, também houve um aumento da desigualdade dentro dos países.

Claro que o padrão de vida da humanidade melhorou como demonstram os números sobre a mortalidade infantil, a esperança de vida ao nascer, os níveis de escolaridade, as condições de moradia, etc.

Porém, os ganhos na redução da pobreza (que certamente ocorreram) dependem da régua que se utilize para se avaliar se uma pessoa é ou não é pobre. O grau de otimismo e de pessimismo varia conforme o padrão da régua utilizado.

Por fim, é preciso lembrar que se existem dúvidas sobre o avanço do bem-estar humano, o mesmo não acontece com o meio ambiente, pois há evidências irrefutáveis de que a natureza só perdeu nos últimos dois séculos e os ecossistemas estão cada vez mais pobres.
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