Onze mil cientistas alertam para a ameaça “clara e inequívoca” das alterações climáticas

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Quinta-feira, 7 de Novembro de 2019
Onze mil cientistas, incluindo biólogos e ambientalistas, divulgaram um novo estudo sobre o estado do clima, alertando para a “ameaça às sociedades humanas, ao bem-estar humano e à biodiversidade” que as alterações climáticas constituem e para a ineficácia dos planos existentes para combater a subida da temperatura na Terra.

Na foto: Inundações em Lagos (Nigéria): os povos e populações mais pobres são os primeiros a sofrer as consequências das alterações climáticas. Foto © ISeeAfrica/Wikimedia Commons.

Num relatório publicado na terça-feira, 5 de novembro, na revista científica norte-americana Bioscience, o “Alerta dos cientistas mundiais para uma emergência climática” descreve que o planeta enfrenta “clara e inequivocamente” uma crise climática sem precedentes.

“Este documento estabelece um registo claro do consenso alargado entre os cientistas ativos neste momento da história, de que a crise climática é real e é maior, chegando a ser uma ameaça às sociedades humanas, ao bem-estar humano e à biodiversidade”, afirma Jesse Bellemare, professor associado de biologia no Smith College (Northampton, Massachusetts, EUA), um dos signatários da declaração de emergência deste estudo, citado pelo Washington Post e pelo Expresso.

O que separa este relatório de outros semelhantes que têm sido publicados ao longo dos anos é que não apresenta os dados como possibilidades, mas antes como certezas, ao mesmo tempo prescrevendo receitas para combater os efeitos esperados. Também é a primeira vez que um grupo de cientistas classifica as alterações climáticas como uma emergência a combater, uma vez que a atividade humana dos últimos anos causou um aumento dos gases com efeito de estufa.

“Apesar de 40 anos de negociações sobre clima global, com poucas exceções, continuámos a comportar-nos na mesma e falhámos o combate a esta condição”, lê-se no estudo.

Também se acrescentam outras consequências que podem advir do que se passa, como o aumento global da temperatura e o aquecimento dos oceanos.

A publicação deste relatório coincidiu com os quarenta anos da primeira Conferência Climática Mundial, que decorreu em Genebra (Suíça), em 1979, e reuniu cientistas de 50 nações. Nessa conferência alertava-se já para as tendências alarmantes de eventuais alterações climáticas e da necessidade urgente de as combater. Desde então, alertas semelhantes foram feitos em todas as cimeiras do clima, incluindo as realizadas no Rio de Janeiro (1992), Quioto (1997) e Paris (2015). Nesta última, o Acordo de Paris culminou os esforços e alertas dos últimos 40 anos, com os cientistas a manifestar a esperança de que os governos, cidadãos e outros representantes tomem as medidas necessárias para reverter ou, pelo menos, evitar alterações potencialmente catastróficas.
[Guilherme Lopes – 7Margens]

Um novo alarme preocupante
O mais rápido aumento das temperaturas nos últimos dois mil anos

É o mais rápido e generalizado aquecimento global que aconteceu nos últimos dois mil anos. As temperaturas aumentam a uma taxa que nunca ocorreu antes e de maneira homogênea em todo o planeta. Este dado assombroso, que afeta cerca de 98% do território terrestre, é o resultado de duas pesquisas realizadas pela Universidade Suíça de Berna e publicadas nas conhecidas revistas científicas «Nature» e «Nature Geoscience». Ambos os estudos são baseados em dados relativos à tendência do clima, detectados ou extrapolados, durante o período que vai desde a época do Império Romano até os últimos anos do século XX.

 

Para reconstruir a evolução que ocorreu em cerca de dois mil anos de história climática, os pesquisadores usaram cerca de 700 indicadores diferentes, como por exemplo os anéis de crescimento das árvores ou os dados relativos à análise das calotas de gelo ou sedimentos marinhos e lacustres. “O que emerge mais fortemente dos dados desses estudos é o tema da aceleração das mudanças climáticas, de sua velocidade”. Quem afirma isso é Fábio Trincardi, diretor do Departamento de Terras e Meio Ambiente do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália (CNR) que, sobre a situação atual relativas às mudanças climáticas, acrescenta: “O impacto do homem sobre o clima é tão forte que domina tudo e o planeta responde simultaneamente em nível global”. Trincardi explica essa aceleração do aquecimento climático tomando como exemplo o mecanismo que atualmente governa o Ártico. Na região em torno do Polo Norte as temperaturas aumentaram entre 2 e 4 graus e a razão está na “superfície branca do gelo marinho ártico”, que, explica o geólogo, “reflete a radiação infravermelha e a envia de volta ao espaço, mas quando o gelo é reduzido, devido ao aumento das temperaturas, a radiação encontra o oceano escuro a absorve até o 90%, amplificando o aquecimento”.

Na “Pequena era glacial“, ocorrida entre os séculos XVI e XIX, o aquecimento afetou apenas 12% do planeta, com picos distintos nas diversas regiões. Entre 950 e 1250, uma anomalia climática levou as temperaturas a se elevarem em 40% do planeta.

No entanto, o que estamos assistindo agora representa um alcance tão extraordinário que é impossível encontrar uma situação análoga na história, pelo menos após o ano zero. Hoje, de fato, o aumento das temperaturas afeta 98% da esfera terrestre e os dados sugerem um aumento progressivo que continuará até o final do século XXI, a última data levada em consideração pelos pesquisadores suíços. Última, mas não definitiva. Assim se espera.
26 Julho 2019
http://www.ihu.unisinos.br

Como quatro dioceses dos EUA
procuram dar o exemplo no combate às alterações climáticas

Foto retirada do guião com propostas de oração elaborada pela Catholic Agency for Overseas Development (Agência Católica para o Desenvolvimento de Além-Mar)
e usadas pela Comissão Cuidado da Criação, da arquidiocese de Indianapolis: as quatro dioceses dos EUA entenderam que não basta rezar a pedir que chova…

Várias dioceses nos Estados Unidos da América têm manifestado preocupação e cuidado acerca do impacto das mudanças climáticas, especialmente na forma como afeta a experiência católica. Tendo como base a mensagem do Papa Francisco na encíclica Laudato Sí, quatro dioceses de Atlanta, Nova Iorque, Indianápolis e San Bernardino decidiram dar o seu exemplo de como concretizaram ações para combater as alterações climáticas.

Em dezembro de 2015, a arquidiocese de Atlanta apresentou o seu plano de ação da Laudato Si, um documento com 52 páginas que pretende transformar as palavras do Papa em ações. Desde que foi posto em prática, refere o National Catholic Reporter, o plano de ação foi integrado no currículo científico e religioso de todas as escolas católicas da diocese. Também passou a ser organizada uma Missa Verde, em que se glorifica a beleza da criação de Deus e os participantes rezam pela memória daqueles que trabalham diligentemente pela proteção do planeta.

Muitas paróquias têm também formado equipas dedicadas ao cuidado com a criação, com o propósito de aplicar um plano de ação em cada comunidade. Outras dioceses têm tomado partes do plano de ação nos seus próprios esforços pela sustentabilidade. Um outro exemplo dado por Atlanta é o edifício da Chancelaria Diocesana, que foi certificado pela Energy Star como utilizador de energia numa forma eficiente.

Reduzir a fatura energética

Outro exemplo é o caso de Nova Iorque. Nos últimos cinco anos, Martin Susz tem feito uma alteração profunda na forma como uma das maiores dioceses do país usa, conserva e canaliza a energia que alimenta 296 paróquias, 200 escolas e muitos mais edifícios que se estendem a dez condados (equivalente a concelhos). Susz foi contratado pela arquidiocese de Nova Iorque com o objetivo de formar o primeiro departamento de manutenção de energia, estabelecendo a redução em 10% dos custos energéticos totais num ano (cerca de 37 milhões de euros).

Até ao início deste mês de novembro, 84 paróquias de Nova Iorque instalaram iluminação LED, substituíram caldeiras e radiadores, melhoraram o isolamento térmico, calafetaram janelas, cobriram a tubagem de água quente e colocaram em prática outras medidas com o propósito de impedir que o ar escape de dentro do “envelope do edifício”. “A nossa atitude tem sido: caminha antes de correres”, diz Susz, no NCR. “Por isso começamos devagar, obtendo algumas vitórias. Vamos descobrindo a melhor forma de melhorar o sistema e depois tentamos replicar em outros sítios. É desta forma que estamos a operar.”

Fomentar o interesse e a aprendizagem pela ecologia

A arquidiocese de Indianápolis, neste verão passado, completou a primeira fase do seu plano piloto de sustentabilidade. Quatro paróquias na cidade, em conjunto com a escola Scecina Memorial, participaram na fase inicial de dez semanas, que consistiu no início da iniciativa da comissão arquidiocesana do “Cuidado da criação”. Esta comissão alcançou, em setembro deste ano, a plantação de mais de 200 árvores em treze paróquias na diocese.

“Demora um bocado até ganharmos gás e decidirmos o que vamos fazer e como vamos fazer”, afirma John Mundell, um membro da comissão e presidente da firma de consultoria ambiental Mundell & Associates, citado ainda no NCR. A comissão do “Cuidado da criação” também criou uma página digital, repleta de ligações e endereços da administração ambiental e ensino católico, canções e orações com temas ambientais e conhecimentos básicos para o combate às alterações climáticas e práticas sustentáveis.

Por fim, San Bernardino (uma cidade no estado da Califórnia), no seu Dia Anual para o Cuidado da Criação (assinalado no dia 5 de outubro), homenageou 11 paróquias que se converteram à energia solar. Os prémios recebidos durante a sessão servem como um incentivo em relação aos passos necessários a tomar na diocese do sul da Califórnia. Pouco depois do lançamento da encíclica do Papa, a comissão Laudato Sí da cidade criou uma página digital institucional, na qual se fornecem estudos, recursos educacionais e espirituais e uma carta do bispo, referindo a importância dos temas ecológicos na formação de bispos, padres e catequistas.
[Guilherme Lopes - 7Margens]