Domingo, 26 de Abril de 2020
Guerras, clima e pandemia aceleram a fome. “Estamos perto de uma catástrofe alimentar humana: Fome de proporções bíblicas”. As Nações Unidas recorrem a cenários apocalípticos para descrever o que a pandemia de Coronavírus provavelmente desencadeará em termos de escassez de alimentos para um grande número de pessoas na Terra.

Um alarme que exige ação imediata para garantir a continuação ou retomada das trocas consideradas essenciais e o acesso aos financiamentos necessário para apoiar algumas atividades básicas de produção.

David Beasley, diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, proferiu na terça-feira um testemunho dramático ao Conselho de Segurança da ONU no prédio de vidro de Nova York, entrando em detalhes sobre os riscos colaterais da epidemia de Covid-19. “Estamos a um passo de uma pandemia de fome”, alerta o número um da agência da ONU, segundo o qual há pouco tempo disponível para intervir antes que milhões de pessoas morram de fome.

A intervenção do diretor ocorre após a publicação do relatório compilado pela ONU e outras organizações parceiras, segundo as quais pode passar de 135 milhões para mais de 250 milhões o número de pessoas que correm o risco de passar fome devido à crise, o dobro do valor estimado antes do início da pandemia. “Devo adverti-los – afirma o chefe do PAM – de que se não nos prepararmos e agirmos agora para garantir o acesso, evitar escassez de financiamento e interrupções nas trocas, poderemos ter que enfrentar fome de proporções bíblicas dentro de poucos meses”.

Atualmente, mais de trinta países estão em risco de fome e, em dez deles, mais de um milhão de pessoas já estão a um passo da fome. “Não estamos falando de pessoas que vão dormir com fome – explicou Beasley em uma entrevista posterior ao jornal inglês Guardian – estamos falando de condições extremas, estado de emergência, pessoas estão literalmente passando fome. Se não fornecermos alimento para as pessoas, elas morrerão. É mais que uma simples pandemia: está se criando uma pandemia de fome. Essa é uma catástrofe humanitária e alimentar”.

Evidentemente, o problema da fome no mundo não é imputável apenas à nova praga pandêmica, mas é ele próprio uma praga com raízes profundas e que tem sido frequentemente discutido principalmente no âmbito da ONU. A questão é que a Covid-19 e sua disseminação em escala planetária está causando uma aceleração perigosa. Em sua teleconferência no Palácio de Vidro, o número um do PMA ressaltou como, mesmo antes do início da pandemia de Covid-19, ele já afirmava que “2020 teria registrado a pior crise humanitária desde os tempos da Segunda Guerra Mundial por várias razões”. O diretor Beasley lembrou “as guerras na Síria e no Iêmen”,”as crises no Sudão do Sul, Burkina Faso e na região central do Sahel”, a invasão de gafanhotos na África e “os desastres naturais cada vez mais frequentes”, sem esquecer “a crise econômica no Líbano que afeta milhões de refugiados sírios”, e ainda “a República Democrática do Congo, o Sudão, a Etiópia e a lista continua”.

A esses fatores então se somou essa nova guerra, mais assimétrica e híbrida que todas as outras e, portanto, ainda mais sorrateira e letal. “Já estamos lutando contra a tempestade perfeita”, alertou, pedindo a alocação dos cerca de dois bilhões de dólares já prometidos. “Se recebermos o dinheiro e mantivermos as cadeias de suprimentos abertas, poderemos evitar a fome – concluiu Beasley -, mas somente se agirmos agora poderemos parar tudo isso”.
A reportagem é de Francesco Semprini, publicada por La Stampa, 23-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.
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