Segunda-feira, 25 de Maio 2020
A Missão também se escreve, mostra-se, ‘posta-se’, partilha-se… mas, sobretudo, vive-se, testemunha-se com convicção. Quem tem horizontes curtos e não cultiva a memória também não pode ter convicções profundas nem mentalidade aberta. Isto tudo a propósito do Dia Mundial das Comunicações Sociais que a Igreja católica celebra em cada festa da Ascensão. A Igreja – na sua tradição multimilenar – aprendeu a comunicar os seus valores de geração em geração.

Quando o Concílio Vaticano II quis valorizar a comunicação social dentro da Igreja, o Papa Paulo VI avançou com a criação do Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado pela primeira vez em 1967. Daí para cá e até hoje, todos os anos, o Papa publica uma mensagem. A deste ano é muito forte, lá iremos.

‘Evangelho’, é uma palavra que vem do grego e significa ‘Boa Notícia’. Ora, a missão da Igreja é, desde a primeira festa da Ascensão (no dia mesmo em que Cristo subiu ao Céu…), anunciar boas notícias. Mas - todos o sabemos e sofremos - narrar maus acontecimentos dá mais audiência aos media hoje e suscita mais partilha e debate. E pior estamos quando – por opção deliberada de pessoas e organizações – se inventam notícias para atingir determinados objectivos. Dou exemplos: o jornal ‘Público’, a 6 de maio, divulgou que já foram difundidas mais de 2700 notícias falsas sobe o covid’. Por exemplo, circulou uma informação que dizia que lavar as mãos não tinha qualquer utilidade! Adianto uma outra que, de muito elaborada e tendenciosa, pode fazer muito mal: li um grande texto, aparentemente muito bem fundamentado, a dizer que o Papa Bento XVI resignou por pressão e ameaça do governo esquerdista de Obama. Este e seus aliados de esquerda nos EUA impuseram, depois, à Igreja, o Papa Francisco!!! Ora, quem conhece como funciona a Igreja, sabe que ninguém tem poder para ‘subornar’ 2/3 dos cardeais num conclave. Portanto, esta notícia só pode ser falsa! Enfim, as ‘fake news’ andam por aí à solta, a ‘comer’ incautos que as engolem e reproduzem acriticamente!

Voltemos às mensagens para o Dia Mundial das Comunicações Sociais. O Papa Paulo VI, em 1967, deu o título de ’Meios de Comunicação Social’ à primeira mensagem. No ano seguinte, apresentou a Imprensa, a Rádio, a Televisão e o Cinema como meios ao serviço do progresso dos povos.

João Paulo II assinou a Mensagem de 1979 sobre a relação entre os media e as crianças, em Ano Internacional da Criança e abordou os temas da opinião pública em 1986, da defesa da justiça e da paz em 1987, da promoção da solidariedade e fraternidade à escala do planeta em 1988. Em1990 falou, pela primeira vez, da cultura informática actual, regressando ao tema em 2001. Em 2002 já se reflecte sobre o impacto da internet.

O Papa Bento XVI voltou à rede em 2006 (Os Media: Rede de Comunicação, Comunhão e Cooperação) e em 2009, onde escreve que ‘a nova arena digital, o chamado ciberespaço, permite encontrar e conhecer os valores e as tradições alheias’.

O Papa Francisco quis, em 2014, colocar a Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro. Por ocasião do Jubileu da Misericórdia, em 2016, deu o mote à Mensagem: ‘Comunicação e Misericórdia: um encontro fecundo. Escreveu: ‘Também emails, SMS, redes sociais, chat podem ser formas de comunicação plenamente humanas (…) As redes sociais são capazes de favorecer as relações e de promover o bem da sociedade, mas podem também levar a uma maior polarização e divisão entre as pessoas e os grupos. O ambiente digital é uma praça, um lugar de encontro, onde é possível acariciar ou ferir, realizar uma discussão proveitosa ou um linchamento moral’. Em 2017, Francisco pediu boas notícias aos media e à Igreja: ’tudo depende do olhar com que enxergamos a realidade, dos ‘óculos’ que decidimos pôr para a ver: mudando as lentes, também a realidade aparece diversa’.

Estas ideias, todas cruzadas, aparecem na mensagem para este 2020. O Papa pede que tomemos a sério quatro valores fundamentais a comandar a nossa relação com os media hoje: sapiência, coragem, paciência e discernimento. Convida-nos a olhar a realidade com os óculos da verdade e do amor.

Temos a obrigação moral de afastar para bem longe de nós todos os fundamentalismos e integrismos que nos embaciam a visão e nos fazem míopes e agressivos. Estes dias, circulou nas redes sociais um cartoon com um crente a contar a sua forma de viver em tempo de covid. Começa: ‘Eu não preciso de máscara, de gel… Deus vai proteger-me!’. Depois, ele grita aos quatro ventos: ‘Oh meu Deus. Eu confio no Senhor! Proteja-me!’ Mais tarde, já numa cama de hospital, ele barafusta com o Altíssimo: ‘Oh Deus! Eu confiei em Vós! Mas o Senhor não me protegeu!’. E Deus, lá do alto, responde: ‘Filho, dei-te uma máscara, sabão desinfectante e gel e orientei-te para o isolamento social; pedi para ficares em casa e, assim, te manteres em segurança… Mas tu não me ouviste!!!!’.

Se ‘Ascensão’ rima com ‘Comunicação’, ousemos apostar nas boas notícias que ajudam a construir um mundo de justiça, paz, amor e alegria. Estes são os valores vividos e anunciados por Cristo. Vamos por aí!
Tony Neves, em Roma

Good News’ versus ‘Fake News’

Arrancar com um título em inglês e latim cria impacto…e esse é o objectivo dos meios de comunicação social! A Igreja gostaria de ter impacto, mas por outras razões e indo por outros caminhos que não o das simples provocações de palavras e imagens. Crescemos todos a escutar boas histórias, a veicular valores que constroem vidas voltadas para o futuro. Não interessa passar a vida a contar histórias ingénuas, sempre com ‘happy end’, do tipo ‘casaram, foram muito felizes e tiveram muitos filhinhos!’. Não. É urgente olhar para a realidade com os óculos desembaciados da verdade e do amor, com frontalidade. E nada de mentir, pois só a verdade liberta e constrói.

Ascensão rima com Comunicação pois, para os católicos, celebra-se nesta solenidade o Dia Mundial das Comunicações Sociais. E tudo isto porque no Evangelho que se lê nesse dia da subida de Jesus ao Céu, S. Marcos põe Cristo a dar esta ordem: ‘Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a todos os povos!’ (Mc 16,15). Foi o Concílio Vaticano II que o pediu e o Papa Paulo VI que o cumpriu em 1967 quando lançou o I Dia Mundial das Comunicações Sociais. Daí para cá, sempre o Papa escreveu, para esta Jornada, uma mensagem forte e interpelativa, mostrando os pontos fortes e os pontos fracos da utilização dos media.

A Paulus Editora, em 2016, publicou as 50 Mensagens que os Papas tinham escrito para este Dia. É fantástico lê-las de seguida e ver como foram evoluindo os media ao longo deste meio século. E também verificar o impacto que eles vão tendo nas mentalidades. Eles vieram para ficar, forjam uma nova cultura e lançam desafios enormes à Igreja que, melhor ou pior, também os vai utilizando na sua Missão de anunciar os valores gravados nas páginas dos Evangelhos. E é sempre bom recordar que a palavra ‘Evangelho’ foi tirada do dicionário grego e quer dizer ‘Boa Notícia’!

Não são fáceis nem pacíficas as relações entre a Igreja e os Media ao longo da história. As novidades metem sempre medo e levantam ondas de suspeição. Além do mais, as más notícias (que colhem mais audiência, regra geral, que as boas notícias!) entram facilmente em rota de colisão com a ‘Boa Notícia’ que é o ‘Evangelho’.

Na Mensagem para este 2020, o Papa Francisco aponta valores de fundo: sapiência, coragem, paciência e discernimento. Está a pedir muito, como também a Boa Notícia dos Evangelhos é exigente e radical.

Ao dar a volta a jornais, revistas e páginas de internet, fico confuso com notícias de sentido contrário: o covid surgiu naturalmente e foi fabricado em laboratório; a fortuna foi ganha licitamente e foi fruto de corrupção e roubo; o árbitro assinalou bem a grande penalidade e foi um roubo de Igreja que qualquer cego viu; os cientistas dizem que é fundamental ficar em casa e que se pode fazer a vida normal sem parar a economia; o Papa Francisco é um dom do Espírito à Igreja e foram os americanos de Obama que obrigaram Bento XVI a resignar e puseram no seu lugar um esquerdista; as alterações climáticas vão destruir o planeta em breve e é tudo invenção dos senhores da agenda verde; não se devem fazer ajuntamentos em Igrejas e devemos ir todos para a Igreja, juntinhos, pedir a Deus que nos livre do vírus; o Papa Bento XVI está muito idoso, cansado e recolhido como convém e ele está óptimo, com ideias novas e fantásticas e querem calar a sua profecia; o covid só se mata com álcool a mais de 60º e distanciamento social e usem alho e uma série de mezinhas que isso passa…. Ora, quis apenas dar alguns dos exemplos que mostram que anda por aí muita falsidade à solta, certamente a cumprir agendas precisas e bem estudadas. Não podemos alinhar em ‘fake news’, essas notícias falsas e maldosas que podem deitar tudo a perder. Como cristãos, cruzaremos sempre as verdades gravadas nas páginas dos Evangelhos com os resultados da ciência que é fruto dos talentos que Deus distribui pelos humanos para eles os porem a render.

Nesta era da internet, com as suas tecnologias de ponta, aplicações de todas as qualidades e feitios, redes sociais que nos transportam a todo o mundo em segundos, há que estar de olhos bem abertos para discernir o que aproxima corações e o que destrói relações e vidas. Há que gerar mais justiça social, pois o mundo começa a dividir-se entre os info-ricos e os info-pobres, ou seja, entre os que acedem às tecnologias da comunicação e os que dela são excluídos.

Estes tempos de distanciamento social mostraram à Igreja que os media são uma porta aberta ao mundo. E precisamos de os conhecer, saber utilizar, perceber as enormes potencialidades e bens, mas também é fundamental ganhar a sabedoria suficiente para nos precavermos dos seus eventuais malefícios. Multiplicamos transmissões televisivas e por internet, disponibilizamos textos, orações, cânticos, reflexões nas plataformas digitais. Mas também fizemos circular muito ‘lixo’, ‘fake news’ com roupagens religiosas que enganaram muita gente mais desprevenida.

Não quero ser profeta da desgraça e oxalá me engane, mas o próximo vírus a atacar vai ser informático planetário. Em poucos anos, o mundo informatizou-se quase completamente. Tudo funciona comandado por computadores e sistemas em rede. Aquilo que começou em bancos e em máquinas de guerra e passou para a força aérea…invadiu todos os âmbitos da vida das pessoas, instituições e empresas. Agora, os carros e aviões são controlados, em terra e no ar, por computadores. Os registos de identidade, de crimes…estão informatizados e circulam a à escala do planeta. O mesmo se diga de todas as contabilidades, gestões e administrações. Os dinheiros são contabilizados e movimentados informaticamente. Quase todas as máquinas são telecomandadas. O mundo da comunicação já não sobrevive sem a informática…como o prova a nossa total dependência da internet. O mesmo se diga de todo o mundo empresarial. E mesmo as máquinas que, nos hospitais, tentam combater doenças e manter vidas, são controladas por computadores. Acho que a única coisa que ainda funciona directamente é a relação dos humanos com Deus! Para parar e destruir o mundo, basta inventar e pôr a circular um vírus informático que entre em todos os sistemas os baralhe, paralise, destrua… e o mundo não sabe mais o que fazer! Quero crer que ninguém tenha nunca este poder…

Amanhã, como hoje, o importante e decisivo continuará a ser o anúncio de Boas Notícias. Elas darão esperança e rasgarão novos caminhos ao futuro.
Tony Neves CSSp & Artur Teixeira CMF, dois tugas na diáspora