Sábado, 4 de Julho de 2020
No dia 4 de agosto de 2019, por ocasião do 160.º Aniversário da morte do Santo Cura d’Ars, o Papa Francisco enviou uma Carta endereçada a todos os Sacerdotes, para lhes agradecer pelo seu generoso serviço e encorajá-los a abraçar com amor a sua vocação (Papa Francisco, Carta aos Sacerdotes por ocasião do 160° Aniversário da morte do Santo Cura d’Ars, 4 de agosto de 2019). Neste precioso texto, o Santo Padre usa com frequência a palavra “coração”, a partir da qual se pode iniciar uma reflexão e uma meditação por ocasião do Dia de Santificação do Clero, que todos os anos se celebra na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. [Na foto, missionários combonianos: P. García Castillo Jorge Oscar e P. Goicochea Calderon Juan Armando]

Sacerdotes com o Coração de Cristo
Dia de Santificação do Clero, 19 de junho de 2020

Cinco breves tópicos de reflexão, do Magistério do Papa Francisco
proposta da Congregação para o Clero

1 – GRATIDÃO
“Muito obrigado pela alegria com que soubestes dar a vossa vida, mostrando um coração que ao longo dos anos combateu e lutou para não se tornar estreito nem amargurado e, pelo contrário, ser diariamente alargado pelo amor de Deus e do seu povo, um coração que, como o bom vinho, o tempo não azedou, mas deu-lhe uma qualidade cada vez mais fina; porque «é eterna a sua misericórdia»”.

Um coração agradecido. Ser Sacerdote segundo o Coração de Cristo significa revestir-se d’Ele até ao ponto de ter os seus mesmos sentimentos. Entre tantas virtudes, o Coração de Jesus está aberto à gratidão; Ele agradece ao Pai pelos prodígios que realiza aos olhos dos pequenos, escondendo-os a quem, ao invés, fechado na presunção da sabedoria humana, não consegue vê-los (cf. Mt 11,25). Por isso, a gratidão é uma qualidade especificamente cristã e deve pertencer ao modo de ser do pastor; com efeito, S. Paulo exorta-nos assim: “Estai sempre alegres, rezai incessantemente, em tudo dai graças” (1Ts 5,16). O termo que traduz “dai graças” é “eucaristia”. O Sacerdote é assimilado ao Coração de Cristo de modo especial na celebração eucarística, que une ao sacrifício de amor do Senhor pelo seu Povo. Ao mesmo tempo, o Papa Francisco deu com frequência voz ao sentimento de gratidão do Povo de Deus em relação aos presbíteros, pelo generoso serviço e pela oferta da sua existência.

2 – MISERICÓRDIA
“Através dos degraus da misericórdia podemos descer até ao ponto mais baixo da condição humana – fragilidade e pecado incluídos – e subir até ao ponto mais alto da perfeição divina: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso». E assim ser «capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e também de descer à sua noite, à sua escuridão sem se perder»”.

Um coração misericordioso. Quando Jesus atravessa as aldeias e as cidades, passa curando e fazendo bem a todos os que estão prisioneiros do mal (cf. At 10,38). Jesus não tem medo de se contaminar com a fragilidade humana, mas, antes, desce aos abismos da fragilidade humana e do pecado, para revelar o Coração misericordioso do Pai que levanta das quedas cada um dos seus filhos e os chama à alegria do perdão. O nome de Deus que Jesus revela é “misericórdia”. Na Homilia da Santa Missa do encerramento do Jubileu da Misericórdia, o Santo Padre afirmou que “a verdadeira porta da misericórdia é o Coração de Cristo”.

O Sacerdote, configurado com Cristo, é antes de mais o ministro da misericórdia e da reconciliação. Levando no seu coração a memória de ter sido olhado e chamado pelo Senhor não pelos méritos pessoais, e fazendo diariamente a experiência de ser tocado pela misericórdia de Deus em tudo aquilo que vive e realiza, deve tornar-se sinal acolhedor do amor de Deus que quer chegar a todos, em todas as situações da vida, para curar do mal. Temos necessidade de Sacerdotes de trato misericordioso, capazes de acolher, escutar e acompanhar os irmãos, de modo especial no Sacramento da Reconciliação.

3 – COMPAIXÃO
 “Muito obrigado por todas as vezes em que, deixando-vos comover até às entranhas, acolhestes os que tinham caído, curastes as suas feridas, oferecendo calor aos seus corações, mostrando ternura e compaixão como o Samaritano da parábola (cf. Lc 10,25-37). Nada é tão urgente como isto: proximidade, vizinhança, estar próximo da carne do irmão que sofre. Quanto bem faz o exemplo de um sacerdote que se aproxima e não se afasta das feridas dos seus irmãos. Reflexo do coração do pastor que aprendeu o gosto espiritual de se sentir um só com o seu povo”.

Um coração compassivo. Os Evangelhos narram com frequência que Jesus, à vista das multidões cansadas e oprimidas, sente profunda compaixão (cf. Mt 9,36). Com efeito, as suas “entranhas comovem-se”, especialmente quando se confronta com a dor e o sofrimento provocados pela doença, pela marginalização e por toda a forma de pobreza material e espiritual; como Bom Samaritano, cheio de compaixão, Ele para diante da carne ferida dos irmãos e cura-a, tornando-se manifestação viva do amor de Deus Pai. Aos Sacerdotes, ministros de Cristo, pede-se o mesmo coração compassivo, que se exprime na proximidade, na participação real e integral nos sofrimentos e nos trabalhos das pessoas, na capacidade de relações que reacendem a esperança, na cura das feridas do Povo, de modo especial através da mediação da graça sacramental.

4 – VIGILÂNCIA
“Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou connosco mesmos, podemos correr a tentação de nos agarrar a uma tristeza adocicada, a que os padres do Oriente chamavam acédia… Tristeza que torna estéreis todas as tentativas de transformação e de conversão, propagando ressentimento e animosidade… Irmãos, quando essa tristeza adocicada ameaça apoderar-se da nossa vida ou da nossa comunidade, sem nos assustarmos nem preocuparmos, mas com determinação, peçamos e façamos pedir ao Espírito que «venha despertar-nos, dar um abanão ao nosso torpor, libertar-nos da inércia! Desafiemos a rotina, abramos bem os olhos e os ouvidos, e sobretudo o coração, para nos deixarmos desligar daquilo que sucede ao nosso redor e pelo grito da palavra viva e eficaz do Ressuscitado”.

 Um coração vigilante. Muitas vezes Jesus recordou a importância da vigilância do coração que, que como servos fiéis, nos faz esperar com prontidão a vinda do dono da vinha; trata-se de dar espaço ao dom do Espírito Santo que, mesmo no meio dos compromissos diários e das obscuridades do tempo presente, nos faz discernir a presença do Senhor, nos torna atentos à sua Palavra, nos faz operosos na caridade de modo que não se esgote o azeite na lâmpada da nossa vida e, como as virgens prudentes, vamos ao encontro do Esposo que vem. O coração mantém-se vigilante, mas também através da luta espiritual; Jesus mesmo a enfrenta no deserto, vencendo as tentações do demônio e, no fim da sua vida, despertando os seus discípulos que, no Getsémani, adormeceram: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação” (Mt 26,41). Sucede também ao Sacerdote aperceber-se daquilo a que o Papa Francisco chamou “o cansaço da esperança”, aquela amargura interior que muitas vezes nasce da distância entre as expetativas pessoais e os frutos visíveis do apostolado, ou aquela aridez do coração que frequentemente leva a arrastar os compromissos pastorais e a mesma oração no hábito, na resignação e até na incúria. É necessário, ao invés, deixar-se “despertar” sempre pela Palavra do Senhor e pelo grito do Povo de Deus.

5 – CORAGEM
“Para manter o coração corajoso é necessário não descurar estes dois vínculos constitutivos da nossa identidade: o primeiro, com Jesus. Sempre que nos desligamos de Jesus ou descuramos a nossa relação com Ele, pouco a pouco o nosso compromisso torna-se árido e  as nossas lâmpadas ficam sem azeite e sem condições de iluminar a vida (cf. Mt 25, 1-13)… Neste sentido, queria encorajar-vos a não descurar o acompanhamento espiritual, tendo um irmão com quem falar, confrontar-se, discutir e discernir em plena confiança e transparência o próprio caminho… O outro vínculo constitutivo: reforçai e alimentai o vínculo com o vosso povo. Não vos isoleis da vossa gente nem dos presbíteros ou das comunidades. Menos ainda, não vos entrincheireis em grupos fechados ou elitistas. Isto acaba por sufocar e envenenar o espírito. Um ministro corajoso é um ministro sempre em saída”.

Um coração corajoso. Contemplando o Coração de Jesus, podemos captar os dois vínculos fundamentais, a partir dos quais Ele vive a sua missão: o Pai Celeste e o povo. Os Evangelhos mostram-nos como, na jornada-tipo de Jesus, se alternam e se entrelaçam, num sábio equilíbrio, o cuidado da relação com Deus e a solidariedade ativa com os irmãos. A caridade dos seus gestos nunca é separada do silêncio e da oração, e a fadiga de um ministério, que nem tempo Lhe deixa para comer, nunca é separada da firme vontade de se retirar, para cultivar o íntimo colóquio de amor com Deus Pai. Do mesmo modo, o Sacerdote segundo o Coração de Cristo é aquele que “habita” entre o Senhor a quem consagrou a vida e o Povo que foi chamado a servir; ele poderá viver uma frutuosa caridade pastoral, na medida em que nele não se apagar a vida interior, a oração pessoal e comunitária e o deixar-se guiar no acompanhamento espiritual.

As cinco palavras propostas para o Dia de Santificação do Clero, tiradas da Carta que o Papa Francisco dirigiu aos Sacerdotes em agosto passado, referem-se a um coração sacerdotal realmente “consagrado” ao de Cristo, ou seja, radicado na relação pessoal com Ele e por isso configurado aos seus mesmos sentimentos.

Como foi revelado no âmbito psiquiátrico e psicoterapêutico acerca de alguns problemas de natureza moral e afetiva da vida dos padres, a vitalidade e o cuidado desta relação espiritual com Deus, juntamente com o desenvolvimento de uma boa maturidade humana e de sãs relações interpessoais, constitui o melhor ambiente para o cuidado do celibato sacerdotal e da espiritualidade presbiteral.

O que, ao invés, representa um alto potencial de risco na vida do padre é aquilo a que se chamou “deficit de intimidade”. Todo o estado de vida, para ser integralmente abraçado e protegido de incursões ameaçadoras, deve cultivar uma especial “relação íntima” que lhe valorize as possibilidades e lhe diminua os riscos: para um sacerdote, trata-se da amizade pessoal e quotidiana com o Senhor.

O pressuposto humano, psicológico e espiritual para o sucesso de uma vida sacerdotal é a relação íntima com Deus. O deficit de intimidade não é senão a aridez da vida espiritual e, por consequência, a falta daquela amizade profunda, interior e vital com o Senhor, que constitui a base da fecundidade pessoal e pastoral. O padre que já não reza com fidelidade e que descura os elementos estruturantes da sua relação de intimidade com o Senhor acumula um “deficit” perigoso, que pode gerar sentimento de vazio, percepção de frustração e insatisfação, dificuldade na gestão da solidão, das necessidades e dos afetos, até ao risco de exposição em amizades e ligações “externas” que, naquele ponto, poderiam fazer desmoronar um edifício humano-espiritual já marcado por diversas fendas.

Para que o sacerdote seja configurado ao Coração de Cristo, é necessário que o ponto firme da sua vida quotidiana e o fundamento da sua estrutura humana e espiritual sejam constituídos pelo húmus interior da profunda amizade pessoal com o Senhor, a partir da qual a gestão da própria vida, o celibato e a missão apostólica possam ser psicologicamente aceitáveis e espiritualmente fecundos.