Halík avisa contra nacionalistas: “Confundem Deus e nação, fé e xenofobia”

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Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
O padre e teólogo católico checo Tomáš Halík afirmou, numa conferência na Áustria, que os cristãos devem ser cautelosos com os políticos populistas que usam o cristianismo para impulsionar as suas agendas nacionalistas. “Testemunhamos mais uma vez o modo como Deus está a ser confundido com a nação e a fé cristã com a perigosa idolatria da xenofobia e do populismo”, afirma o vencedor do Prémio Templeton pelos seus contributos para a religião e a espiritualidade.

Citado pelo La Croix International, Tomáš Halík acrescentou, numa conferência no santuário de Mariazell, que muitos desses “discursos apaixonados sobre a necessidade de proteger os valores cristãos da Europa, sobretudo em relação ao medo dos imigrantes e dos muçulmanos, são apenas palavras vazias, bolhas de discurso que pretendem ocultar a reivindicação populista de poder, ao tentar substituir a democracia parlamentar por sistemas autocráticos”.

A intervenção do autor de Paciência Com Deus e vários outros títulos, que concedeu em Novembro uma entrevista ao 7MARGENS, ocorreu durante uma peregrinação europeia da Comunidade Ackermann, numa conferência sobre os desafios que o cristianismo enfrenta na Europa.

Vários desses políticos que falam do regresso à “Europa cristã” e a “valores cristãos” nunca leram o Novo Testamento, diz, referindo os casos de países como a Polónia e a Hungria. “Quando eu vi as hordas de partidários do Partido Lei e Justiça em Varsóvia marchando pelas ruas desfraldando bandeiras inscritas com as palavras ‘Nós queremos Deus’ e, ao mesmo tempo, gritando slogans antissemitas, perguntei-me inevitavelmente que tipo de Deus essas pessoas querem. Certamente não é o Deus que Jesus de Nazaré chama de Pai”.

Na intervenção, Halík falou também da crise na Igreja Católica, referindo a questão dos abusos sexuais sobre menores e freiras, bem como dos filhos de membros do clero. E sublinhou que o diagnóstico do Papa, que remete para o abuso de poder, autoridade e confiança, é semelhante ao que Jesus fazia aos fariseus, por imporem fardos da lei e proibições às outras pessoas, que eles próprios não observavam.
[António Marujo – 7Margens]

Bispos querem defender e desenvolver o projecto europeu

Não se pode entregar a Europa nas mãos das correntes nacionalistas e populistas nem sequer sacrificar o projecto europeu no altar dos interesses nacionais. Este é o apelo saído da conferência trilateral das conferências episcopais da Suíça, França e Alemanha, que terminou terça-feira, 26 de Março, depois de três dias de debates.

Perante o desencanto que se faz sentir em muitos países da Europa, “torna-se urgente alargar e completar os tradicionais valores europeus, como sejam a paz, os direitos humanos, a subsidiariedade e o direito, com o valor da unidade na diversidade”, afirmava o arcebispo Georges Pontier, presidente da Conferência Episcopal Francesa.

Segundo os participantes e oradores convidados, políticos e académicos dos três países, o sonho europeu só terá futuro se a Europa adquirir e investir numa autonomia estratégica perante os grandes blocos geopolíticos e, ao mesmo tempo desenvolver e apresentar ao mundo novos paradigmas de desenvolvimento. A professora Elena Lasida, do Instituto Católico de Paris, apontava três dimensões deste desenvolvimento a partir da Encíclica Laudato Si’: A Europa tem de aprofundar a interdependência (“tudo está interligado”), a reciprocidade e gratuidade (“tudo é dom”) assim como a criação e a geração em vez da produção (“tudo é frágil”).

“A Europa deve ser  um contributo para um mundo melhor”: esta intuição de Jean Monnet necessita de ser renovada, é mais actual que nunca. “Por aí nos devemos medir, também enquanto Igreja”, afirmava o Cardeal Marx.

De dois em dois anos, as conferências episcopais da Alemanha, França e Suiça promovem estas conferências trilaterais sobre temas de actualidade.
[Joaquim Nunes, em Offenbach (Alemanha)7Margens]