Sábado, 7 de Outubro de 2017
“Desde o primeiro Capítulo Geral em que participei (1975) até aos dias de hoje, há um refrão que se repete continuamente: “evangelizar com meios pobres, cultivar um estilo de vida simples e austero, simplificar as estruturas demasiado grandes e onerosas, superar o individualismo, recorrer ao discernimento comunitário e provincial no uso dos bens” etc. Tanta insistência não estará a indicar que os bons desejos e propósitos não foram seguidos pelas decisões e atitudes mais adequadas?”, pergunta-se o padre Manuel Ferreira Horta, ecónomo da província comboniana de Portugal.

PROVIDÊNCIA – PREVIDÊNCIA
AUTOSSUSTENTAÇÃO

1. Providência de Deus na Sagrada Escritura

O Rosto de Deus na Bíblia é o rosto de um Pai que vela pelas suas criaturas e provê às suas necessidades. Na linguagem bíblica, ao falar da Providência de Deus entendemos fundamentalmente duas realidades.

A primeira é a existência de um Deus que é Criador e Senhor do universo, que tudo rege e governa com sabedoria infinita e tudo ordena para a consecução da finalidade última da criação: a manifestação e celebração da Sua glória. A segunda é a solicitude de Deus que provê às necessidades de cada um dos seres por Ele criados.

1.1 Os salmos, na sua grande beleza e variedade, são porventura o melhor e mais belo canto de louvor à Providência de Deus.

“Os Céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das Suas mãos; não há ditos nem discursos de que não se perceba a voz; por toda a terra caminha o seu eco e até aos confins do universo a Sua Palavra” (Sal 19, 2, 4-5). “Os olhos de todos em Vós esperam e a seu tempo lhes dais o seu sustento; abris a vossa mão e logo saciais com abundância todos os viventes” (Sal 145, 15,16). “O Senhor é eternamente fiel à sua palavra: salva os oprimidos, dá pão aos famintos, liberta os prisioneiros, dá vista aos cegos, levanta os caídos, ama o homem justo, protege o estrangeiro, sustenta o órfão e a viúva” (Sal 146, 7-9).

1.2 Na história da salvação, a solicitude de Deus é continuamente afirmada. “Deus ouve o clamor do seu povo, move-se de compaixão e decide libertá-lo (Ex 3,7-8); tira-o da escravidão do Egipto e faz que atravesse a pé enxuto o mar vermelho (Ex 14,22); providencia o pão, a água e a carne necessários à sobrevivência do seu povo e caminhando à sua frente conduzi-lo-á até à terra que prometeu a Abraão e à sua descendência (Ex 16,17).

1.3 Jesus, revelação do rosto paterno de Deus, ensinou os seus discípulos a rezar ao Pai para pedirem apenas o “pão quotidiano” (Mt 6,11); disse-lhes para não se preocuparem demasiado com o amanhã, pois o Pai sabe o que eles necessitam; “Ele cuida das aves do céu que não semeiam nem colhem nem têm celeiros e o Pai as sustenta; Ele cuida dos lírios do campo que não trabalham nem fiam e o Pai os reveste de um vestido esplendoroso que faz inveja à magnificência de Salomão (Mt 6, 25-34).

1.4 Preparando os discípulos para a primeira Missão, Jesus dá indicações muito precisas também para a nossa vivência evangélica e a nossa missão apostólica e missionária. “Não vos preocupeis muito com a vossa bagagem; não leveis ouro nem prata, nem cobre em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem cajado, pois o trabalhador merece o seu sustento. Preocupai-vos em anunciar o Reino de Deus…; recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 5-10).

2. Providência de Deus na vida do nosso Fundador

Na vida de São Daniel Comboni a confiança na Providência está presente na origem da sua vocação e na forma como vê a presença de Deus em todas as vicissitudes da sua vida. A Providência é conforto nas dificuldades; é Ela que o guia na elaboração do Plano para a Evangelização da África e na elaboração e apresentação do “Postulatum” no concílio Vaticano I.

A Providência de Deus aflora em quase todas as suas cartas e relatórios para a Propaganda Fide, na intensíssima actividade de animação missionária e nas suas actividades de evangelização, e aparece muitas vezes identificada com o desígnio, a vontade de Deus.

Em carta ao cardeal Simeoni (27/08/1880) diz Comboni: “Considerando que as obras de Deus nascem sempre aos pés do Calvário e devem ser sempre marcadas com o adorável selo da Cruz, pensei abandonar-me nos braços da Divina Providência, que é fonte de caridade para os desditosos e sempre protectora da inocência e da justiça…” (E 6085).

Em carta ao cónego João Mitterrutzner (18/09/1865) Comboni escrevia: “É preciso que as obras de Deus encontrem dificuldades; assim levam a adorável marca da providencia e, além disso, que grande prazer é sofrer pela África. Mas o Plano será levado a cabo…; não estamos sós nesta grande obra, contamos com Deus, com a Virgem e também com muitos poderosos mortais que desejam a sua realização” (E 1185).

3. Providência e Previdência

A confiança na Providência nada tem a ver com a passividade e menos ainda com a ociosidade.

Em diversas parábolas Jesus indica-nos claramente que a Providência é proporcional à nossa responsabilidade e capacidade de gerir os dons e bens que nos são concedidos.

Na parábola dos talentos Jesus elogia os servos que souberam fazer frutificar os talentos recebidos, segundo as capacidades de cada um, e recrimina o servo que escondeu o talento na terra para o restituir intacto ao seu senhor, não fosse ele correr o risco de se perder ou ser roubado (Mt 25, 14-27).

Quando Jesus multiplica os pães para saciar a multidão pede a colaboração dos discípulos; “dai-lhes vós mesmos de comer”. Como? “Temos apenas cinco pães e dois peixes mas que é isto para tanta gente?” O pouco que existia é a colaboração humana; o milagre fará o resto e todos comeram e ficaram saciados e ainda houve sobras (Mt 14, 16-20; Mt 15, 32-38).

4. Providência e Previdência em São Daniel Comboni

Daniel Comboni tinha uma confiança ilimitada na Providência de Deus mas não ficou à espera que os meios materiais necessários à Missão lhe caíssem do céu. Confiava na Providência e na especial intercessão de São José, mas trabalhou incansavelmente para angariar as ajudas de que necessitava; escreveu uma mole imensa de cartas a amigos e benfeitores, a pessoas simples, ricas ou poderosas; fundou os Anais do Bom Pastor como jornal de ligação entre a missão e os que a apoiavam; fundou a Obra do Redentor especialmente concebida para garantir a continuidade do apoio às necessidades da missão.

Em carta ao Cardeal Simeoni (24 de Abril de 1878) Comboni escrevia: ”Agora tenho que trabalhar intensamente nestas missões para promover o bem espiritual e, além disso, preciso de escrever muito aos meus benfeitores particulares da Europa, para arrancar das barbas de São José os recursos económicos necessários à Missão”.

A confiança ilimitada de Comboni na Providência e na especial intercessão de São José ficou proverbial e faz parte da espiritualidade comboniana transmitida até aos nossos dias.

5. Providência, Previdência e Regra de Vida

A Regra de Vida codificou os traços essenciais do carisma e da espiritualidade vividos pelo Fundador e pelos membros do Instituto por ele fundado, em todas as suas vertentes: carisma e espiritualidade, consagração para a Missão, serviço missionário, formação, animação missionária e evangelização, bem como a sua organização interna e a gestão dos bens económicos.

A vivência da pobreza evangélica é uma opção de vida. “O missionário escolhe voluntariamente a pobreza de Cristo; deixando tudo aceita a lei comum do trabalho, partilha os bens materiais, aceita a limitação e a dependência dos superiores no usar e dispor dos bens e segue um estilo de vida simples, para ser livre de levar a mensagem evangélica aos mais pobres e para viver em solidariedade com eles” (RV 27; 1ª Cor 9, 17-23).

Para se libertar do condicionamento das coisas materiais, o comboniano vive a sua pobreza confiando na providência do pai que conhece as suas necessidades e aceita com serenidade a escassez ou a falta das coisas necessárias (RV 27,1).

Os olhos do mundo de hoje estão voltados para a Igreja e para as Instituições religiosas e questionam fortemente “a abundância de bens” que a Igreja e as Instituições têm ou aparentam ter. A ostentação, o comodismo, as atitudes burguesas e, infelizmente, também os casos de gestão ruinosa e os escândalos financeiros e não só, fizeram com que os holofotes se voltassem para a Igreja e para as Instituições para escrutinar a credibilidade da nossa vida e a coerência com os valores que proclamamos.

Perante a multidão de prófugos e emigrantes que batem às nossas portas e perante o avanço da pobreza generalizada que aflige mais de dois terços da humanidade não podemos eximir-nos de uma severa análise e um sério discernimento da vivência da pobreza evangélica no nosso Instituto.

5.1 Desde o primeiro Capítulo Geral em que participei (1975) até aos dias de hoje, há um refrão que se repete continuamente: “evangelizar com meios pobres, cultivar um estilo de vida simples e austero, simplificar as estruturas demasiado grandes e onerosas, superar o individualismo, recorrer ao discernimento comunitário e provincial no uso dos bens” etc.

Tanta insistência não estará a indicar que os bons desejos e propósitos não foram seguidos pelas decisões e atitudes mais adequadas?

5.2 A Regra de Vida diz ainda que “o comboniano vive a pobreza também através de um sério e empenhado trabalho quotidiano” (RV 27,2). O exemplo de Paulo e a recriminação dirigida à comunidade de Tessalónica deveriam ser para nós fonte de um severo exame de consciência. “Procurei não ser de peso para ninguém trabalhando com as minhas próprias mãos para prover ao meu sustento”; “Se alguém não quer trabalhar, também não coma….Aos que vivem na ociosidade ordenamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem em paz para comerem um pão que lhes pertença” (2Tes 3, 8-12).

5.3 Nos últimos Capítulos Gerais apontou-se o Fundo Comum Total primeiro como uma iniciativa válida; depois como uma iniciativa a promover e por fim como um caminho a ser implementado em todas as províncias para uma gestão mais evangélica dos meios económicos.

Muito caminho já foi feito mas muito mais há a fazer para superar resistências, motivar para o empenho na procura de meios e superar a passividade dos que esperam muito mas pouco fazem para o merecer. É bom recordar que o voto de pobreza implica a renúncia a usar e dispor dos bens adquiridos sem o discernimento da comunidade, da província, do Instituto e que, como dizia Paulo, “só temos direito a comer um pão que nos pertença” porque também é fruto do nosso trabalho (2Tes 3, 13).

6. Regra de Vida e auto-limitação

Sabiamente e em conformidade com o estilo de vida do Fundador, a Regra de Vida explicita claramente as orientações fundamentais para o uso dos bens e estabelece limites claros à tentação da acumulação dos mesmos.

“O Instituto, como comunidade de irmãos que dá testemunho de pobreza consagrada, vive a comunhão dos bens e deles se serve para alcançar a sua finalidade missionária. Evitando o lucro excessivo e a acumulação de bens, confia na Providência, reconhece a lei comum do trabalho e partilha de boa vontade os seus bens com a Igreja Local e com os pobres” (RV 162). Seguindo o exemplo do Fundador, confia na Providência, através da especial intercessão de São José” (RV 162. 2).

Ainda segundo a Regra de Vida, “as entradas do Instituto provêm das ofertas do povo de Deus e do trabalho dos missionários e das comunidades; podem ainda derivar de investimentos, salvo sempre o testemunho da pobreza evangélica” (RV 167); “os investimentos devem ser considerados complementares; são feitos para prover às necessidades do Instituto e não para aumentar o capital” (RV 167.1).

6.1 Perante a pobreza generalizada do mundo de hoje, não poucos combonianos se questionam sobre o volume do património mobiliário e imobiliário da Direcção Geral e de algumas províncias. Mais que os números em abstracto o que pode eventualmente ser questionado é a forma como os bens vão sendo acumulados e a transparência da finalidade e do uso que deles é feito.

Criar fundos para prover a todas as situações, imprevistos ou emergências possíveis ou imaginárias, pode ser um subterfúgio para diminuir ou fazer desaparecer o capital ou o saldo de exercício; ter fundos que muito raramente poderão ser usados é também uma forma de acumulação de capital.

Há regras bastante claras e exigentes nos nossos documentos (directórios) em relação à constituição, teto e uso dos fundos e normas para a fixação do teto do capital de exercício; a quem de dever a responsabilidade de as fazer respeitar e cumprir.

6.2 O que já não parece tão pacífico e admissível é que, afirmando a Regra de Vida a Unicidade do Património (RV 163), haja tanta divergência entre o património das várias províncias. Significa que os mecanismos criados para o funcionamento da solidariedade ainda não são suficientes para que haja uma distribuição mais equitativa do património do Instituto. Provavelmente, para além da solidariedade baseada na boa vontade, terá que existir uma “solidariedade institucional”, uma espécie de taxa fixa a determinar, sobre a riqueza criada (PIB) numa província ou sobre o património da mesma.

À partida, o Instituto, através da Direcção Geral, será sempre o canal mais adequado para servir de veículo à institucionalização da solidariedade.

7. Providência e Previdência na actual situação do Instituto

Se a principal fonte das nossas entradas deve ser o Povo de Deus e o trabalho das comunidades e dos missionários, nos passos do Fundador “o Instituto assume como sua missão a animação missionária do Povo de Deus, a fim de que este reconheça e assuma as suas responsabilidades missionárias e se empenhe no anúncio do Evangelho” (RV 72). Por isso, em todas as províncias, todas as comunidades são centros de animação missionária através das mais variadas iniciativas (RV 75, 75.1).

Ao longo da nossa história encontramos grandes figuras de animadores missionários que nos podem servir de inspiração ainda hoje. O testemunho dos missionários é fundamental para a sensibilização missionária do povo de Deus; por isso, as semanas, os tríduos ou os dias missionários, os retiros e encontros, a presença no terreno de numerosos benfeitores e colaboradores missionários foram tradicionalmente os meios mais usados para conseguir criar uma presença missionária capilar no seio do povo de Deus.

É verdade que algumas paróquias oferecem hoje alguma resistência às iniciativas dos missionários, sobretudo se vistas como meio de angariação de fundos; mas se há portas que se fecham há sempre outras que se abrem quando há persistência e ousadia.

É verdade que algumas iniciativas do passado aparecem hoje menos adequadas; a inovação e a criatividade ajudar-nos-ão a encontrar novas formas para poder assegurar o indispensável contacto com o povo de Deus.

É verdade que muitos dos nossos benfeitores são já de idade avançada e vão desaparecendo; neste campo é fundamental assegurar a continuidade e demonstrar o apreço, o carinho e o nosso agradecimento através da oração e de tantos pequenos gestos de atenção que os nossos antepassados souberam inventar.

É também verdade que as gerações mais jovens são mais arredias da Igreja Instituição, mas continuam a ser extremamente sensíveis à solidariedade e aos compromissos no campo da justiça, da paz, da integridade da criação.

Os areópagos onde podemos fazer soar o anúncio do Evangelho e apelar ao compromisso cristão e missionário são hoje muito numerosos e estão ao alcance da mão; neste elenco de novas possibilidades não podemos deixar de mencionar os novos meios de comunicação visual, digital e escrita, esta com longa tradição e abundantes frutos no campo da sensibilização e formação missionárias do povo de Deus.

8. Providência e Autossustentação

A confiança na Providência de Deus e nas diferentes formas em que ela se manifesta para connosco, não nos exime de procurar assegurar a autossustentação (pelo menos parcial) para a nossa vida e actividades missionárias.

Certamente para algumas províncias o problema ainda não se coloca com grande acuidade, mas para muitas é já uma grande fonte de preocupação.

Se olharmos apenas para o balanço da Direcção Geral do ano 2016, verificamos que para cobrir as despesas ordinárias da Direcção Geral, a contribuição que vem dos confrades é apenas de 29% sendo os 71% assegurados sobretudo pelos rendimentos financeiros, cada vez mais aleatórios, e outras pequenas receitas.

Verificamos também que a cobertura das despesas extraordinárias que incluem sobretudo o financiamento dos vários fundos (a formação de base, a formação permanente, os doentes, a solidariedade e os contributos extraordinários) é assegurada pelos contributos ordinários e extraordinários das províncias 71% e o resto por heranças e legados 29%.

Sem os rendimentos financeiros e os contributos extraordinários das províncias, a Direcção Geral não poderia prover às suas necessidades normais de funcionamento e às outras necessidades vitais que por ela são asseguradas (formação de base e permanente, doentes, etc.). Daí que neste momento a palavra chave que nos permite sobreviver tenha o nome de “solidariedade” e tem muito a ver com a actual situação económica e patrimonial das províncias do “mundo ocidental”. Em perspectivas de futuro, falar seriamente de autossustentação implica:

8.1 Um abaixamento substancial do nosso standard de vida (nível de vida simples e austero tantas vezes acenado na nossa Regra de Vida e outros documentos). Em Fátima o Papa Francisco falou de “uma Igreja pobre de meios e rica de amor e misericórdia” (Homilia 13/05/2017).

8.2 Uma adequação das nossas estruturas, demasiado grandes e onerosas, adaptando-as para actividades em linha com o nosso carisma ou a um serviço eclesial ou social, de modo a que se tornem rentáveis ou pelo menos auto-suficientes, ou, em última análise, procedendo à sua alienação desde que não seja ao desbarato (AC 2015, 83). A alienação sistemática, para além de difícil e redutiva do valor dos imóveis, não parece o caminho que está a ser seguido por instituições similares à nossa.

8.3 Uma adequação do nosso estilo de organização e de governo que seja mais simples, menos onerosa e mais ajustada à actual situação do Instituto (menos assembleias, menos encontros, menos viagens…). Hoje, com um simples clique podem evitar-se reuniões desnecessárias e conseguir praticamente os mesmos objectivos e resultados.

8.4 A aposta numa animação missionária de qualidade por parte de todas as províncias. Para algumas inovando e renovando iniciativas já existentes; para outras começando a criar as bases para uma animação missionária que a médio prazo possa produzir alguns frutos. Nalguns contextos já há condições para suscitar apoios sistemáticos através de News Letters e até para lançar a Obra do Redentor que tão bons resultados continua a dar em muitas províncias.

8.5 Nas províncias onde já existe um bom grupo de combonianos locais, será boa prática estabilizar a nossa presença mantendo algumas paróquias chave que se tornem pólos de animação missionária, invertendo a praxis da entrega sistemática das paróquias já consolidadas, seguindo aliás o exemplo de outros Institutos.

Assegurar também que a casa provincial e as casas de formação estejam construídas em terrenos pertencentes ao Instituto e que a respectiva propriedade esteja registada em nome do Instituto ou, se não é possível, em nome da diocese com contrato vitalício reconhecido pelas instâncias eclesiais.

8.6 Dotar progressivamente as províncias mais carenciadas com alguns bens imóveis (apartamentos…) que possam ser alugados e gerar uma receita estável para as províncias. Esta iniciativa terá que ser gerida com responsabilidade e competência e seria também uma forma de diminuir o capital monetário, hoje cada vez mais instável e difícil de gerir, investindo em capital imobiliário mais estável e, neste momento, mais rentável.

8.7 Quase todas as províncias possuem algum capital monetário e financeiro. A volatilidade e complexidade dos mercados financeiros e as apertadas normas de controlo nacional e internacional exigem experiência e conhecimentos técnicos que nem todos os ecónomos provinciais podem ter. Até agora o Economato Geral e algumas províncias e procuradorias (Itália, DSP, NAP…) têm funcionado como canais para a gestão do património de várias províncias.

As novas normas internacionais sobre a transparência, quer da propriedade do capital quer das várias movimentações do mesmo, já nos obrigaram a alguns ajustamentos para a adequação da gestão económica à nova normativa. A escolha de instituições de confiança, a diversificação de produtos e também de instituições, a dimensão ética, a clareza e a transparência dos investimentos, a prudência e o aconselhamento são critérios a ter sempre presentes para que o risco, sempre presente neste sector, seja reduzido ao mínimo.

A exigência de levar adiante a revisão das contas por parte de auditores externos obrigar-nos-á a uma gestão mais técnica, rigorosa e responsável dos bens que a providência continua a confiar-nos com muita bondade e generosidade.

8.8 Já há algum tempo que vem sendo estudada a possibilidade da constituição de um Fundo de Previdência interno ao Instituto, pensado sobretudo para as províncias onde não existe nenhuma forma de apoio e segurança social.

Do estudo já feito e de consultas efectuadas, a iniciativa parece viável; os dois obstáculos maiores são a constituição do capital inicial que, em linha de princípio, poderá ter que ser assegurado pelo Instituto, e a quota mensal a pagar pelas províncias que poderá ter de ser bastante alta, dada a tendência para uma acentuada redução dos juros em investimentos com um nível de risco baixo ou moderado. O tema continuará a ser debatido até haver uma proposta que ofereça garantias de sucesso.
P. Manuel Ferreira Horta

Perguntas para a reflexão

1. Estamos seriamente convencidos de que temos que mudar o nosso estilo de vida, redimensionar estruturas e adequar a nossa organização e governo, para podermos viver e testemunhar a pobreza evangélica?

2. Aceitamos o Fundo Comum Total como a melhor forma para superarmos o individualismo, sujeitando ao discernimento comunitário os nossos orçamentos e dando prioridade ao que é essencial na nossa evangelização?

3. A solidariedade é a chave para a superação das desigualdades no Instituto e para podermos ir ao encontro dos mais pobres. A nossa confiança na Providência é de tal maneira grande que nos mova a partilhar não apenas o “supérfluo” mas até o que nos pode um dia fazer falta?