A falta de testemunhas
José Antonio Pagola


Este é sempre o verdadeiro problema da Igreja:
a falta de testemunhas

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 24,34-48 que corresponde ao 3º Domingo da Páscoa, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com seus discípulos como uma experiência fundante. O desejo de Jesus é claro. Sua tarefa não acabou na cruz. Ressuscitado por Deus depois de sua execução, ele toma contacto com os seus para pôr em funcionamento um movimento de “testemunhas” capaz de contagiar a  todos os povos com a Boa Notícia. Vocês são minhas testemunhas. Não é fácil converter em testemunhas esses homens afundados no desconcerto e no medo. Ao longo de toda a cena os discípulos permanecem calados, num silêncio total. O narrador só descreve seu mundo interior: eles estão cheios de terror, só sentem turbação e incredulidade, tudo aquilo lhes parece demasiado formoso para que seja verdadeiro.

É Jesus quem vai regenerar sua fé. O mais importante é que eles não se sintam sozinhos. Eles o sentiram cheio de vida no meio deles. Estas são as primeiras palavras que escutam do Ressuscitado: “Paz para vocês… Por que o coração de vocês esta cheio de dúvidas?”

Quando esquecemos a presença viva de Jesus no meio de nós, quando o fazemos opaco e invisível com os nossos protagonismos e conflitos, quando a tristeza impede-nos sentir de tudo menos sua paz, quando nos contagiamos uns aos outros, o pessimismo e a incredulidade… aí então estamos pecando contra o Ressuscitado. Não é possível uma igreja de testemunhas.

Para despertar sua fé, Jesus não lhes pede que olhem seu rosto senão suas mãos e seus pés. Que vejam as feridas da crucificação. Que tenham sempre ante seus olhos seu amor entregado até o fim. Ele não é um fantasma: “Sou eu mesmo”. O mesmo que conheceram pelos caminhos da Galileia.

Cada vez que tentamos fundamentar a fé no Ressuscitado com nossas elucubrações, convertemos-lhe num fantasma. Para nos encontrarmos com ele, temos que percorrer o relato dos evangelhos: descobrir essas mãos que bendiziam os enfermos e acariciavam as crianças, esses pés cansados de caminhar ao encontro com os mais esquecidos, descobrir suas feridas e sua paixão. Esse Jesus é o mesmo que agora vive Ressuscitado junto ao Pai.

A pesar de vê-los cheios de medo e dúvidas, Jesus confia em seus discípulos. Ele mesmo lhes enviara o Espírito que os sustentara. Por isso encomenda-lhes que prolonguem sua presença no mundo: “Vocês são testemunhas disso”. Eles não hão de ensinar doutrinas sublimes, mas contagiar sua experiência. Eles não têm que predicar grandes teorias sobre o Cristo, mas irradiar o seu Espírito. Eles devem fazê-lo crível com sua vida, não somente com as palavras. Este é sempre o verdadeiro problema da Igreja: a falta de testemunhas.