Sábado, 10 de Agosto de 2019
“Piquiá confirma isso: há 14 anos vem resistindo em uma luta contra gigantes. A comunidade não se resignou à alternativa diabólica entre o direito ao trabalho ou à saúde. Disse não, infiltrou-se como um grãozinho na engrenagem dessa economia que mata”, escreve o padre Dário Bossi, Provincial dos Missionários Combonianos no Brasil, membro da Rede de Igrejas e Mineração e Assessor da REPAM-Brasil. Na foto: Street art dos nativos projetada na floresta amazônica.

“Para nós, os nomes são importantes. Nossa cidade é chamada Açailândia, terra do açaí, a fruta amazônica mais cheia de vida. A Mãe Terra, como todas as mães, nos deu um nome. Nosso bairro é chamado Piquiá: uma das árvores majestosas da floresta, que não existe mais”.

São trechos de longos diálogos com dona Tida, líder da comunidade de Piquiá de Baixo, vítima dos impactos socioambientais da mineradora Vale e das siderúrgicas, instaladas há mais de trinta anos na Amazônia oriental brasileira.

“Essas empresas destruíram nossa história. Elas trituram nossa memória junto com as escórias de minério, a contaminam com a fumaça de sua poluição”, ecoa Joselma, que já esteve na ONU, em Genebra, para denunciar essas violações.

As mulheres de Piquiá têm escrita em sua pele uma história que se encontra, bem semelhante, em várias outras partes da Amazônia. É o conflito entre dois modelos: aquele do saque, extrativismo predatório de empresas e poder público, imposto de fora às comunidades, e aquele da convivência com o bioma, em defesa do território, que é o espaço das raízes de uma comunidade.

Os trens da Vale, que extraem minério de ferro das entranhas da floresta e o exportam para a China e a Europa, arrancam também a história do povo, um grão de cada vez, 200 milhões de toneladas por ano.

Pouco a pouco, tudo se torna igual, nessas intrusões do “progresso” no bioma amazônico: grandes fazendas, monocultura, gado, mineração, imensos corredores de exportação…

O ciclo da natureza é marcado pela semeadura, a espera, a colheita, o agradecimento e a partilha. O caminho da vida é fecundar, gerar, educar, criar, curar e morrer.

Mas o esquema capitalista é fixo, sempre igual, nos domina e nos prende: saquear, produzir, consumir, descartar.

Mesmo assim, Papa Francisco não está desanimado: “Muito! Podem fazer muito. Vocês, os mais humildes, os explorados, os pobres e os excluídos, podem e já fazem muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos, em sua capacidade de se organizarem e promoverem alternativas criativas (…) e em sua participação como protagonistas nos grandes processos de mudança”.

No 2º encontro mundial com os movimentos populares, o Papa ressaltou que a história é feita pelos pequenos. São os únicos que conseguem escrever nas entrelinhas, falar outras línguas, imaginar novas gramáticas, preservar a diversidade criativa.

Piquiá confirma isso: há 14 anos vem resistindo em uma luta contra gigantes. A comunidade não se resignou à alternativa diabólica entre o direito ao trabalho ou à saúde. Disse não, infiltrou-se como um grãozinho na engrenagem dessa economia que mata. Está denunciando essa violência em nível nacional e internacional, exige reparação integral. Ganhou o direito a um novo bairro, para todos, em uma região livre da poluição. Está construindo uma nova história, sem cortar suas raízes.

Papa Francisco olha para a Amazônia não apenas para preservá-la, como um dos últimos bastiões de resistência ao extermínio da biodiversidade e ao aquecimento global.

Acima de tudo, ele sente que o novo está em gestação na Amazônia, escondido nas percepções dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, na relação integral de suas sociedades com a Mãe Terra. Talvez o Sínodo nos ajude a compreender isso melhor.
[ihu.unisinos]