Quarta-feira, 11 de Setembro de 2019
Ao viajar pela África Oriental, a parte do continente mais conhecida por quem escreve, fica-se literalmente envolvido pela natureza feita de paisagens paradisíacas, um impacto que contrasta com as grandes cidades onde a urbanização forçou as pessoas, especialmente as das classes menos favorecidas, a sacrifícios indizíveis. [...]

Tecnologia e relação ancestral com a terra

Ao viajar pela África Oriental, a parte do continente mais conhecida por quem escreve, fica-se literalmente envolvido pela natureza feita de paisagens paradisíacas, um impacto que contrasta com as grandes cidades onde a urbanização forçou as pessoas, especialmente as das classes menos favorecidas, a sacrifícios indizíveis. Acredito que quase todos na Europa ou nos Estados Unidos tenham visto na televisão, pelo menos uma vez, os documentários da BBC ou da National Geographic. Embora possam ser produções artísticas muito respeitáveis, essas imagens conseguem mostrar apenas um infinitésimo da realidade africana que parece estar a anos-luz de distância do imaginário ocidental.

As belezas estão espalhadas por toda parte, literalmente por toda parte, por exemplo, no norte do Quênia, onde há mais de cem anos, em 1883, o homem branco descobriu o lago Turkana, a que deram então o nome de Rodolfo, "um mar de jade", de cor verde intensa, cuja beleza ainda hoje enlouquece o viajante que a contempla. Vamos tentar ler juntos a narrativa dessa  descoberta  feita pelo explorador austríaco Ludwig Von Höhnel: «O vazio, quase por magia, encheu-se de montanhas pitorescas com ásperos alcantilados, um emaranhado de desfiladeiros e vales, que confluiam de todos os lados para formar uma moldura para um lago com uma superfície azul escura, que se estendia muito além dos nossos olhos. Por um bom tempo, emudecidos e encantados, ficámos a contemplá-lo... Cheios de entusiasmo e de gratidão pelo interesse demonstrado pelos nossos planos por Sua Alteza Real e Imperial, o príncipe Rudolph da Áustria, o conde Teleki batizou a extensão da água, incrustada como uma pérola de grande valor no maravilhoso cenário que tínhamos à frente, como lago Rodolfo» (Von Höhnel, A descoberta dos lagos Rudolf e Stefanie, 1894).

Lendo este relato, pode-se entender imediatamente o que poderia ser o "Paraíso terrestre", uma região que permaneceu fora do tempo, onde ainda é possível percorrer de novo o caminho da humanidade. Chegar lá significa partir de Nairóbi, capital do Quênia, acompanhando a grande fratura da crosta terrestre denominada "Rift Valley",  ou também chamada de ‘Great Rift Valley’, um sistema ativo de falhas tectônicas que se estende por milhares de quilômetros ao longo da fronteira leste da África, desde a depressão da região etíope de Danakil, até à África do Sul e que continua para o norte, através do Mar Vermelho até a Síria, ao longo de um eixo marcado pelo Golfo de Aqabah, pelo Mar Morto e pelo vale do rio Jordão.

A configuração atual do sistema Rift Valley é muito complexa e é determinada pela atividade magmática e pelos movimentos tectônicos que geraram vários segmentos cuja evolução parece ter sido condicionada por estruturas anteriores à era paleozóica, que, no entanto, foram reativadas durante ciclos subsequentes, e que teriam dado rigidez diferente a vários setores da crosta terrestre. Deve-se destacar que a área mais setentrional, entre o planalto etíope e o somali, assinalada pelos lagos Zuai, Abaya e Turkana, foi habitada, no Pleistoceno, desde os primeiros australopitecos até ao homo sapiens. A associação entre os achados paleo-antropológicos e a estrutura geológica do Vale do Rift não é casual, uma vez que a atividade vulcânica e tectônica responsável pela formação dessas depressões, e pela contemporânea cobertura sedimentar, criaram condições ideais para a proliferação da vida. Paralelamente, fluxos de lava, sedimentos vulcanoclásticos e cinzas vulcânicas cobriram rapidamente os restos de animais e plantas, permitindo a preservação de fósseis. O fato é que, percorrendo a estrada sempre em direção ao norte, em território queniano, multiplicam-se para qualquer viajante panoramas de todas as cores do arco-íris, uma natureza inesperada e fascinante: a "Samburu Game Riserve" [Reserva de Caça Samburu], com seus campos às margens do rio, a impérvia floresta de Marsabit, a atmosfera perfeita do Lago Paradise  e uma vida animal absolutamente imperturbada pelo homem. E por fim a magnífica vista do lago Turkana, superfície palpitante sobre um manto de lava.

E entende-se então a razão por que, diante dessa África tão sedutora, Karen Blixen escreveu no seu diário, durante seus inúmeros safaris: «A amplidão da paisagem era imensa. Tudo dava uma sensação de grandeza, de liberdade, de nobreza suprema... ». Também porque a verdadeira riqueza destas terras remotas do Chifre da África é constituída principalmente pelas populações nativas que sobrevivem em condições precárias e fazem parte desse pequeno número de grupos étnicos africanos que, favorecidos pelo isolamento, ainda conservam inalterada no tempo uma existência regulada por leis primordiais. O gado representa toda a sua riqueza e eles se alimentam de leite e sangue, extraídos das jugulares dos ovinos, e muito raramente da sua carne. Mas é precisamente neste desenraizamento do contexto global que uma espécie de destino inexorável torna o seu espaço físico-temporal circunscrito e paradoxalmente infinito, fazendo com que se sintam imortais, donos de sua existência.,

E, de fato, é exatamente a existência dessas populações que mantiveram sua identidade e liberdade,  que remete a um vínculo social, aparentemente muito frágil, mas, na realidade, extremamente enraizado, por ter-se  formado em condições   absolutamente adversas num território hostil. Eis então que, embora o progresso humano represente uma oportunidade de redenção para estas pessoas, elas merecem respeito, reivindicando uma dignidade que o homem tecnológico do terceiro milênio infelizmente perdeu.

Uma coisa é certa: a atividade de evangelização realizada entre eles nesses anos tem o mérito, em muitos casos, de ter compreendido, através da inculturação, da pregação da paz e da reconciliação, as instâncias de libertação de qualquer tipo de opressão .

Estas  etnias e todo o seu ecossistema, à prova dos fatos, para quem os conhece, são o esplendor e a magnificência do planeta África.
[Giulio Albanese – L’Osservatore Romano]