Terça-feira, 24 de Setembro de 2019
É com muita alegria que, hoje, estamos a escrever para vos lembrar de que já temos nove meses aqui no Brasil. Tem sido toda uma experiência de crescimento humano e espiritual. Todos os dias temos um encontro com o Senhor de maneiras tão inexplicáveis que sugerem um doce planeamento feito por Ele. Aos poucos, descobrimos aqueles mesmos desejos que tinha São Daniel Comboni e que Deus ia colocando no coração dele, descobrimos a Divina Providência em cada um de nossos dias e que o que hoje estamos vivendo não é mais do que a vontade de Deus.

Parte disso tem sido minha convivência com as mulheres, em diferentes grupos de artesanato. Na Casa Comboniana tenho conhecido cada uma delas, cada segunda-feira chegam entre 40 e 45 mulheres que estão aprendendo a fazer crochê, a pintar em pano, a fazer artesanato variado e agora estou ajudando a ensinar a desenhar à mão livre. Isto surgiu porque várias delas queriam fazer seus próprios desenhos para depois pintá-los nas telas. Ao início do ano não conseguia reconhecer a todas, agora eu identifico várias pelo nome e tenho conseguido fazer uma relação mais estreita com algumas delas. Foi muito interessante como no início só tinha 5 alunas, que com dedicação foram trabalhando. Depois de uns meses tive que deixar o curso porque na pintura precisavam apoio, mas ao finalizar o semestre se fez uma avaliação e muitas delas estavam mais interessadas em aprender a desenhar. Acho que foi uma grande conquista, porque agora tenho 24 mulheres que estão se esforçando para aprender a desenhar em liberdade, para mim é um sinal de confiança, o aprender a dar a cada uma seu lugar, cumprimentá-las segunda a segunda, estar atenta às necessidades delas, ir criando laços de confiança que são resumidos nessa vontade de estar juntas. Hoje eu me sinto muito feliz por este pequeno passo conseguido. Levou tempo e hoje compreendo mais o que dizem os missionários, que é preciso pelo menos um ano para conhecer a comunidade, em especial ganhar a confiança das pessoas. Também estou trabalhando com outro grupo de mulheres no Ipê Amarelo, que do mesmo jeito começamos 3 e agora somos 7. Temos feito velas, artesanato com jornal e agora começaremos com bordado em tecido. O que chamou muito minha atenção foi a resposta das mulheres da comunidade Santa Edwiges, um grupo que nasceu depois de uma missão de evangelização que fez nosso pároco, pe. Agostinho, para animar a comunidade. Agora já são 16 mulheres constantes que estão aprendendo a fazer crochê, depois vamos passar a fazer pintura e desenho.

O que impacta destas pequenas comunidades são as relações de amizade que vão se criando entre elas e o bem que faz para o desenvolvimento pessoal de cada uma, muitas delas com sofrimentos por problemas com os filhos, esposos e também no trabalho: o álcool e as drogas se fazem muito presentes nas vidas dessas famílias e o artesanato é o espaço que elas têm para se exprimir, para acalmar os impulsos e transformar as manias em arte. Esse artesanato também serve para elas como meio para ganhar um dinheiro extra, porque às vezes não é suficiente para viver o que recebem. Com certeza eu gostaria de ter um recurso extra para comprar materiais e ajudar mais, porque algumas têm a possibilidade de comprar, mas para outras é muito difícil dar uma pequena contribuição. Hoje eu me sinto mais perto delas, consigo compreender melhor a maneira de cada uma, das decisões delas, as alegrias e os sofrimentos, porque estamos vivendo no mesmo bairro, nas mesmas condições, com as mesmas influências e problemas sociais. Eu sei que no meio de tudo está a esperança, e ver que os rostos das mulheres se tornam alegres, animadas, saindo da depressão, encontrando dentro delas a criatividade e sentindo-se valorizadas e úteis, não tem comparação. Deus está presente sem dúvida, e me permite conhecê-lo desta maneira, em suas filhas escolhidas, as favoritas para quem Ele veio neste mundo.

São mulheres corajosas que nadam contra a maré, no meio de uma sociedade que marginaliza e julga, mas que O Senhor faz resplandecer nos rostos delas a Sua luz.

A missão muda a vida, está mudando a minha e me faz ser mais compassiva com aquele que sofre e entender que em cada decisão tomada, seja boa ou errada, existe um porquê. Apenas vale a pena arrancar a pele e colocar a pele do outro para ter os mesmos sentimentos, os sentimentos de Cristo.

Um abraço caloroso e continuem orando por nós, para que nossa vida de família possa cumprir a vontade de Deus
[Ana Cris – Leigos Missionários Combonianos]