Sexta-feira, 4 de Outubro de 2019
O Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia tem lugar no Vaticano, de 6 a 27 deste mês de Outubro. O bispo D. Fernando Barbosa, desta prelazia de Tefé, onde sou missionário desde há uns sete anos, já chegou a Roma.

O padre Firmino Cachada [à esquerda], autor do texto e missionário espiritano, com o bispo José Altevir da Silva, amazonense e bispo de Cametá.

Um sínodo, como se sabe, é uma reunião de representantes dos bispos do mundo inteiro que o Papa convoca regularmente, para juntamente com ele refletir sobre problemáticas pastorais que vão aparecendo ao longo do tempo e para as quais a Igreja Católica procura soluções que sejam do acordo com o Evangelho de Jesus e com o bem das pessoas envolvidas nessas problemáticas. O último Sínodo teve lugar no ano passado e foi sobre a pastoral da juventude.

Como este Sínodo é sobre a Igreja na Amazónia e também sobre a ecologia, para além de representantes dos bispos do mundo inteiro, vão estar bispos sobretudo dos nove países da Pan-Amazónia. O maior grupo será o brasileiro, com nada menos que 58 bispos. Mas haverá também muitos outros convidados para participar, entre leigos, diáconos, padres e religiosos que trabalham nesta imensa região da Amazónia. É também motivo de satisfação para mim saber que estarão presentes três colegas meus espiritanos, que presidem a dioceses da região. São eles: D. Teodoro Mendes Tavares, cabo-verdiano, missionário aqui em Tefé antes de ser nomeado bispo de Ponta de Pedras, D. Francisco Merkel, alemão, bispo de Humaitá e D. José Altevir, brasileiro amazonense, bispo de Cametá.

Porquê um Sínodo sobre a Amazónia? Porque esta é uma região muito especial em dois sentidos e é sobre essas particularidades que os bispos, juntamente com o Papa, irão refletir.

A primeira realidade é que a Amazónia é uma região imensa, com distâncias enormes, com um clima muito próprio e poucos sacerdotes e religiosos missionários para atender às necessidades religiosas de tanta gente, sobretudo das comunidades ribeirinhas. Há poucas vocações e os missionários que vêm de fora às vezes não ficam sequer o tempo suficiente para conhecer e adaptar-se à cultura própria dos amazonenses, na maioria caboclos e indígenas, pelo menos nesta região central.

Por outro lado, é verdade e isso não deixa de ser um valor muito grande e mesmo um exemplo para o resto da Igreja, são sobretudo os leigos, nomeadamente os catequistas e animadores de setor que são os pilares da Igreja Católica na Amazónia. Sem eles e a sua dedicação apostólica, a Igreja não sobreviria. Nestes últimos 30 anos, a prelazia de Tefé tem feito um esforço muito grande para formar e acompanhar esses leigos. No momento em que escrevo, acontece aqui ao lado, em Tefé, o encontro anual de animadores de setor da Prelazia, reunindo dezenas deles durante quatro dias.

A segunda realidade tem a ver com a importância desta região de água e floresta, com a sua enorme biodiversidade, tanto para o presente como para o futuro da Terra. Daí, a necessidade de haver políticas sérias de proteção e preservação da natureza.

É esta segunda temática que, infelizmente, tem sido origem de uma politização exacerbada e de críticas primárias ao Sínodo, inclusivamente com bom número de pseudo-católicos não só criticando, mas mesmo insultando o Papa e os bispos, atitude verdadeiramente lamentável e sinal, ao mesmo tempo, não só de má educação como de ignorância. Infelizmente, desde o tempo de Jesus, sempre houve gente desse calibre. Modernamente, com as redes sociais, essa gente achou campo fecundo para vomitar as suas “besteiras”. Que Deus lhes perdoe. Desculpem o desabafo…

Amazónia. Foto © Firmino Cachada.

A Igreja na defesa dos povos da Amazónia

Digo mais. Esse tipo de críticas é de gente que ignora que, se há alguém que defende a soberania e os direitos dos povos é a Igreja Católica. Só que soberano absoluto é só Deus, que tudo criou e nos entregou a natureza que nos cerca para nos servirmos com responsabilidade, pensando nos que vivem à volta de nós e nos que vêm depois de nós. O que diz respeito à Amazónia ou ao Brasil diz também respeito a todas as outras soberanias e nomeadamente a todas as outras florestas e biomas do mundo, como é o caso dos oceanos, os responsáveis por 60% do oxigénio do mundo, segundo os entendidos.

É a ideia da Casa Comum – Nossa responsabilidade que a Igreja Católica no Brasil, na sequência da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, tem desenvolvido através de várias iniciativas, como foi o caso da Campanha da Fraternidade de 2016 com esse mesmo tema. Não estamos sozinhos no mundo e dependemos uns dos outros.

Se há alguém, também, pelo menos nesta região, que tem defendido, desde há muito, o respeito pelas culturas indígenas e seus direitos (sem negar que no passado possa ter havido pecados dos quais a Igreja deve continuar batendo com a mão no peito…), mas também as culturas caboclas ou outras de menor expressão que aqui vivem desde há muito, têm sido os missionários que com eles convivem.

O mesmo se diga no que respeita à defesa do meio ambiente. Nesse domínio, deixem que enalteça o trabalho dos Missionários Espiritanos que me precederam, entre os quais sobressai o nome do ir. Falco, holandês. Pode mesmo dizer-se que foi desse trabalho de conscientização que surgiram as chamadas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e as Reservas Extrativistas (Resex) criadas pelo poder público. Sou conselheiro de duas elas (Amanã e Catuá-Ipixuna) em nome da prelazia de Tefé.

O papel da Igreja Católica neste domínio é reconhecido por essas instituições e, na apresentação histórica da Resex Catuá-Ipixuna, por exemplo, pode ler-se: “Em todas as falas de lideranças e moradores da RESEX aparece a Prelazia de Tefé como formadora de opinião e apoiadora das comunidades na luta pela preservação, em especial de lagos, igarapés e rios, devido às invasões de barcos, geleiras e pescadores que provocavam escassez de recursos pesqueiros. O personagem que se destacou nessa luta foi o Irmão Falco, que chegou à região por volta de 1964. Seu trabalho, fundamentado na Teologia da Libertação, focava a defesa da terra, a preservação da natureza e o apoio às organizações e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).”

De resto, eu, que frequento as comunidades ribeirinhas desde que para aqui vim, só ouço dizer bem dessa política de preservação e manejo que desde há uns anos foi implantada e que tem produzido frutos visíveis. Nesta região, felizmente e até porque a maioria das terras fica inundada anualmente durante alguns meses, não há aquelas explorações agropecuárias intensivas, nem explorações madeireiras ou garimpos de minerais de que tanto se tem falado ultimamente, pelas razões que se sabe. O que não quer dizer que não seja preciso estar atento a violações das regras, já que não falta gente que pensa só em si, ignorando o interesse dos demais.

Estou convencido de que a recente polémica envolvendo a Amazónia, para além de toda a conflitualidade verbal a que deu origem, mesmo entre líderes internacionais, que deveriam ser mais cuidadosos e construtivos nos seus discursos, não deixará de trazer os seus frutos a longo prazo para uma reflexão séria, tanto ao nível dos responsáveis políticos como do povo no seu conjunto, não só aqui como no resto do planeta.

Sem pensar que o Sínodo vai resolver milagrosamente todos os problemas aqui na Amazónia, não deixo de rezar para que dê alguns frutos, não só para o bem da Igreja como do povo amazonense. Repetindo o que já num outro artigo escrevi: “Aquilo que é bom para a Amazónia não deixará de ser bom para o resto do mundo e vice-versa.”

Firmino Cachada é padre dos Missionários Espiritanos em Tefé, Amazónia

[Firmino Cachada, missionário espiritano – 7Margens]