Arcebispo maronita da Síria, a guerra e os refugiados: “Violências indizíveis, medo, destruição do futuro”

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Sábado, 7 de Março de 2020
“Dias, meses, anos agitados por violências indizíveis, pelo medo, pela destruição do futuro: tudo isso gerou um sentido de prostração que acaba com a esperança e aflige os ânimos.” É desta forma que o arcebispo dos maronitas de Damasco, Samir Nassar, descreve o êxodo dos sírios e a situação de guerra no seu país, que dura há nove anos e o leva a dizer que os cristãos sírios vivem em Quaresma permanente. [Na foto: refugiados a serem salvos pelo navio “Juventa”, em Julho de 2019. © Rita Gaspar]

“Dias, meses, anos agitados por violências indizíveis, pelo medo, pela destruição do futuro: tudo isso gerou um sentido de prostração que acaba com a esperança e aflige os ânimos.” É desta forma que o arcebispo dos maronitas de Damasco, Samir Nassar, descreve o êxodo dos sírios e a situação de guerra no seu país, que dura há nove anos e o leva a dizer que os cristãos sírios vivem em Quaresma permanente.

Este tempo litúrgico que prepara a Páscoa, marcado pela oração, jejum e caridade tornou-se o “tempo comum” na Síria, diz o arcebispo, num texto publicado pelo jornal da Santa Sé e resumido no Vatican News. Há anos, explica, que os sírios vivem marcados pela pobreza, são forçados a jejuns permanentes por causa da falta de comida e sustentados pela caridade de pessoas, comunidades e organizações que não abandonam o “impulso solidário”.

Por causa da guerra, a Síria acabou por se tornar um país de refugiados, escreve. E as sanções internacionais, primeiro, e a recente crise dos bancos libaneses provocaram uma situação que “atinge sobretudo as pessoas mais frágeis”, acrescenta.

“A guerra concluiu-se nas grandes cidades, mas permanecem pequenas bolsas de conflito, inúmeras barreiras de controle militares nas estradas. O barulho dos aviões e algumas explosões que ecoam de longe continuam coexistindo em Damasco com os milhares de cartuchos e resíduos bélicos presentes no que resta dos prédios bombardeados.”

O arcebispo descreve também o que sucedeu com a economia familiar: “O salário das famílias diminuiu, em média, pelo menos 50% em três meses”, os preços aumentaram e quem já vivia em condições de precariedade acabou a experimentar “a miséria”.

A falta de combustíveis, gás e electricidade “deixou as casas na escuridão e no gelo”, o que provoca efeitos acentuados entre as pessoas mais frágeis e vulneráveis como os anciãos e os doentes” – ainda há duas semanas a UNICEF denunciou que mais de meio milhão de crianças deslocadas na Síria estão a sobreviver em condições extremas.

A derrota dos grupos jihadistas e o anunciado fim da guerra não levaram qualquer “normalidade” à Síria, acrescenta.

A réstia de esperança que existe é que, para os cristãos, a ideia da ressurreição faz bem – sobretudo aos jovens, diz o arcebispo Nassar. Eles continuam a interrogar-se “sobre os caminhos a seguir para confessar o nome de Cristo e testemunhar seu amor na Síria devastada pela guerra”. Os jovens que não fugiram do país, acrescenta, definem a sua pátria como “amada e martirizada”. “São muitos os que, mesmo feridos no coração e desiludidos, continuam vivendo na Síria com a esperança de encontrar uma solução pacífica e de poder refazer a vida.”

Refugiados afugentados aos tiros

Nas fronteiras marítimas e terrestres da Turquia com a Grécia e a Bulgária e no Mediterrâneo, a situação de milhares de refugiados continua, entretanto, dramática. De acordo com o DN, mais de 130 mil refugiados saíram de Edirne, no noroeste da Turquia, para a fronteira com a Grécia. Muitas das pessoas que chegam aos postos fronteiriços têm autocarros colocados à disposição pelo governo turco.

Ao mesmo tempo, numa visita à Grécia e a algumas das zonas fronteiriças, acompanhada de outros líderes europeus, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que a União contribuirá com uma ajuda financeira imediata de 350 milhões de euros, para que a Grécia possa responder à chegada dos refugiados. Mas, ainda de acordo com o DN, esse valor pode ser duplicado, se a Grécia assim o solicitar.

A medida faz lembrar o acordo da vergonha, estabelecido com a Turquia há quatro anos, que previa que este país deveria manter os refugiados no seu território, em troca de um cheque de seis mil milhões de euros. Agora, em poucos dias, por causa do que está a acontecer na Síria, Erdogan rasgou o acordo, com a sua decisão de deixar os refugiados chegar às fronteiras europeias.

O dinheiro para a Grécia, de acordo com von der Leyen, será destinado à “criação e gestão das infraestruturas necessárias” para “assegurar que a ordem é mantida na fronteira externa grega”. E a Frontex – Agência Europeia de Fronteiras e Guarda Costeira irá contar com mais 100 guardas (além dos 530 que já tem), além de um navio patrulha marítimo, seis outros de patrulha costeira, dois helicópteros, um avião e três veículos equipados com visão térmica, resume ainda o DN.

Enquanto isso, vários jornalistas testemunharam cenas da guarda costeira grega a disparar para o mar – imagens que a BBC captou –, como forma de afugentar barcos de refugiados, ou a empurrar as embarcações pneumáticas com paus ou lanchas militares. Quer a BBC quer a AFP relataram ainda – e mostraram em vídeos – que soldados e polícias gregos levavam muitos refugiados em veículos militares ou carrinhas sem identificação. E um grupo de refugiados foi recebido, como também se pode ver no filme da BBC antes citado, com os gritos de “vão embora”.

O primeiro-ministro grego, Kyriákos Mitsotakis, que sucedeu a Alexis Tsipras na chefia do Governo, acusou a Turquia de se ter convertido em “traficante oficial de migrantes” e acrescentou: “A Europa não será chantageada pela Turquia por causa da questão dos refugiados. Estamos prontos para apoiar a Turquia a lidar com o seu problema de refugiados e encontrar uma solução para o quebra-cabeças da Síria, mas não nesta conjuntura. O meu dever é proteger a soberania do meu país.”
[António Marujo - 7Margens]