Seis mil crianças podem vir a morrer por dia devido ao impacto da pandemia

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Sábado, 16 de Maio de 2020
Soro Sali, 39 anos, no hospital regional de Korhogo (Costa do Marfim). A cunhada de Soro morreu ao dar à luz tri-gémeos; Soro e as suas três irmãs estão a cuidar dos bebés: os serviços pré e pós-parto estão entre os serviços mais afetados pela pandemia, alerta a Unicef. Foto © Frank Dejong/UNICEF.

Os números baseiam-se num estudo da universidade norte-americana Johns Hopkins, e são citados num comunicado da Unicef, divulgado quarta-feira, 13 de maio. Mas não ficam por aqui: no mesmo período, a pandemia poderá também provocar indiretamente a morte de 56.700 mulheres, devido à falta de acompanhamento antes e depois do parto, além das 144.000 vítimas já contabilizadas, em média, por semestre.

Este balanço, a confirmar-se, aniquilaria “décadas de progresso na redução das mortes evitáveis de mães e crianças”, lamentou a diretora da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), Henrietta Fore. “Não podemos deixar as mães e crianças serem vítimas colaterais do combate ao vírus”, apelou a responsável.

De acordo com o estudo da Universidade Johns Hopkins, publicado na revista The Lancet Global Health, a necessidade de dar resposta aos doentes de covid-19 está a perturbar as cadeias de aprovisionamento de medicamentos e o acesso a alimentos nos países com sistemas de saúde mais frágeis.

Além disso, as medidas de combate à disseminação do novo coronavírus, como o confinamento ou as restrições nas deslocações, e o receio de contágio das populações, reduzem as visitas aos centros de saúde e fazem diminuir o recurso a procedimentos médicos essenciais.

Entre os serviços afetados estão o planeamento familiar, os cuidados pré e pós-natais, os partos, a vacinação e os serviços de prevenção e cuidados de saúde, indica a Unicef.

Na nota, a organização sublinha ainda que mais de 117 milhões de crianças em 37 países poderão não ter sido vacinadas contra o sarampo, até meados de abril, por causa da interrupção nas campanhas de vacinação, provocada pela pandemia.

As regiões mais afetadas são o sul da Ásia, a África subsariana e a América do Sul, com falhas particularmente graves no Bangladesh, Índia, Brasil, República Democrática do Congo e Etiópia.

A análise, que equaciona três cenários possíveis, revelou que mesmo no mais otimista, em que os serviços de saúde sofrem uma redução de apenas 15%, pode haver um aumento de 9,8% das mortes em crianças com menos de cinco anos, o que corresponde a um número estimado de 1.400 por dia, e um crescimento de 8,3% na morte de mães.

Uma “corrida contra o tempo”

Perante este cenário, a Unicef lançou uma campanha para angariar cerca de 1,49 mil milhões de euros, com o objetivo de combater as “consequências económicas devastadoras” da covid-19 junto das crianças.

Em finais de março, a organização tinha já pedido donativos na ordem dos 602 milhões de euros, um valor agora aumentado para quase o triplo, por causa da “subida dramática dos preços” dos bens necessários, segundo a organização.

Até ao momento, a Unicef recebeu cerca de 231 milhões de euros para financiar as ações de resposta ao novo coronavírus. Esse montante foi aplicado em campanhas com mensagens de prevenção, que terão chegado a 1,67 mil milhões de pessoas, apontou a organização.

Além disso, o Fundo ajudou 12 milhões de pessoas no acesso a serviços básicos de água, saneamento e higiene, tendo ainda distribuído mais de 6,6 milhões de luvas, 1,3 milhões de máscaras cirúrgicas e 34.500 testes de covid-19, entre outros equipamentos e material de proteção.

Cerca de 80 milhões de crianças beneficiaram ainda de ensino à distância graças à organização internacional, enquanto 11 milhões de crianças e mulheres receberam cuidados de saúde em clínicas apoiadas pela mesma, de acordo com a nota.

Há no entanto, muito ainda a fazer: “Esta é uma corrida contra o tempo”, alerta Henrietta Fore. “Precisamos das ideias, recursos, criatividade e coração de todos.”
[Clara Raimundo - 7Margens]

Governos agravam condições de vida dos refugiados,
sob pretexto de combate à pandemia

“Em muitos campos, a morte por fome é agora relatada como uma ameaça maior do que o próprio vírus”, denuncia o responsável da Amnistia.
Na foto, campo de refugiados de Samos (Grécia). Foto © Valentin Herdeg, cedida pelo autor

Diversos bloqueios e restrições de movimento impostos com a justificação de conter a disseminação da pandemia de covid-19 têm estado a “agravar as péssimas condições de vida” de refugiados e migrantes um pouco por todo o mundo, “deixando milhões de pessoas em risco de fome e doenças”, alerta a Amnistia Internacional (AI).

Num momento em que precisamos mais de compaixão e cooperação, alguns governos aumentaram a discriminação e o abuso, impedindo entregas de comida e água, prendendo pessoas ou enviando-as de volta à guerra e perseguição”, denunciou esta quarta-feira Iain Byrne, responsável da Amnistia para os Refugiados e Direitos dos Migrantes, em declarações citadas na página da organização.

“Em muitos campos, a morte por fome é agora relatada como uma ameaça maior do que o próprio vírus”, sublinhou o responsável, dando o exemplo dos campos improvisados de Calais, em França. Durante o mês de abril, as pessoas que ali estão “deixaram de receber as entregas adequadas de comida e água devido a bloqueios e as restrições de movimento impossibilitavam que as pessoas comprassem sozinhas, mesmo que tivessem dinheiro para isso”.

Iain Byrne referiu ainda que “muitos governos continuaram a deter desnecessariamente as pessoas que procuram asilo, colocando-as em risco de contrair o vírus” e “outros governos violaram o direito internacional ao forçar as pessoas a voltarem a situações de perigo sob o pretexto de conter a covid-19”.

Segundo a Amnistia Internacional, entre 20 de março e 8 de abril, os Estados Unidos da América terão obrigado dez mil pessoas a regressar aos seus países de origem. “Forçar as pessoas a voltarem para países onde é esperado que enfrentem perseguição, tortura ou outro tratamento cruel ou degradante é considerado repulsão, a qual é ilegal de acordo com o direito internacional. Não existem circunstâncias em que o princípio da não repulsão não se aplique”, salienta a organização.

A organização apelou a uma “ação global concertada”, pedindo a todos os países que tomem “medidas urgentes”, por forma a garantir que os refugiados e migrantes “tenham acesso adequado a alimentos, água, saneamento e assistência médica”.

Entre as medidas propostas pela AI estão, além da disponibilização de água e comida nos campos de refugiados e centros de detenção, o descongestionamento daqueles que se encontram sobrelotados e a reorganização da distribuição de refugiados, migrantes e requerentes de asilo. A Amnistia propõe ainda que os migrantes em situação irregular sejam regularizados, ainda que apenas temporariamente, e que os pacotes e medidas de estímulo económico se apliquem também a estas pessoas.

“Os governos continuam a afirmar que estamos juntos nisto. Isso não significa nada, a menos que protejam os milhões de pessoas em todo o mundo que estão a enfrentar esta pandemia longe das suas casas e entes queridos”, concluiu Iain Byrne. “Qualquer governo que permita que os refugiados morram de fome ou sede durante o confinamento fracassou tristemente a enfrentar esta crise.”

[Clara Raimundo - 7Margens]