Quinta-feira, 11 de junho de 2020
Esta sexta-feira assinala-se o Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil e o Papa Francisco alertou
para formas de “escravatura” e “reclusão” que afetam crianças de vários países. “As crianças são o futuro da família humana: todos temos a tarefa de promover o seu crescimento, saúde e serenidade”. Francisco pede proteção para crianças «privadas» da sua infância e ameaçadas pela pandemia. [Ecclesia]

Papa lança alerta contra o trabalho infantil,
uma forma de escravatura

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O Papa associou-se hoje à celebração do Dia Mundial contra o trabalho infantil (12 de junho) alertando para formas de “escravatura” e “reclusão” que afetam crianças de vários países. No final da audiência geral que decorreu na biblioteca do Palácio Apostólico do Vaticano, Francisco lançou um apelo às instituições internacionais, “para que façam todos os esforços para proteger os menores, colmatando as lacunas económicas e sociais que estão na base da dinâmica distorcida em que eles, infelizmente, estão envolvidos”. O pontífice denunciou a exploração do trabalho infantil, “fenómeno que priva meninos e meninas da sua infância e põe em risco o seu desenvolvimento integral”.

“Na atual situação de emergência sanitária, em vários países, muitas crianças e adolescentes são obrigados a trabalhar, em empregos desadequados para a sua idade, para ajudar as suas famílias em condições de extrema pobreza. Em muitos casos, estas são formas de escravatura e reclusão, resultando em sofrimentos físico e psicológico”.

Francisco afirmou que “todos” são responsáveis por esta situação. “As crianças são o futuro da família humana: todos temos a tarefa de promover o seu crescimento, saúde e serenidade”, concluiu.

Segundo a ONU, existem 152 milhões de crianças a trabalhar, em todo o mundo.

O portal de notícias do Vaticano destaca o caso de Zohra, menina paquistanesa de oito anos que trabalhava como empregada doméstica e foi espancada até à morte na casa onde se encontrava. A pobreza extrema leva muitos pais a enviar os seus filhos para trabalhar com famílias mais ricas, geralmente com a promessa de escolaridade e educação, que acaba por não se concretizar.
[
OC - Ecclesia]

Trabalho infantil em risco de aumentar
pela primeira vez em 20 anos

Segundo o relatório da UNICEF e da OIT, as crianças que já eram obrigadas a trabalhar correm agora o risco de trabalhar mais horas ou em piores condições.
Foto © UNICEF

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Internacional de Trabalho (OIT) divulgaram um relatório em que alertam para o elevado risco de aumento do trabalho infantil devido à crise provocada pela pandemia de covid-19. O documento surge a propósito do Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, assinalado esta sexta-feira, 12 de junho, e diz que o número de crianças exploradas através do trabalho infantil desceu de 246 milhões no ano 2000 para 152 milhões em 2016. Mas o objetivo de eliminar totalmente o trabalho infantil até ao final do próximo ano está agora fortemente comprometido.

“Muitos milhões de crianças correm o risco de serem empurradas para o trabalho infantil em resultado da crise da covid-19, que pode levar pela primeira vez a um aumento do trabalho infantil após 20 anos de progresso”, refere o documento conjunto.

Segundo a UNICEF e a OIT, as crianças que já eram obrigadas a trabalhar correm o risco de trabalhar mais horas ou em piores condições e “muitas delas” podem ser forçadas a piores formas de trabalho infantil, “o que provoca danos significativos para a saúde e segurança”. “Atualmente, o encerramento temporário de escolas está a afetar mais de mil milhões de alunos e alunas em mais de 130 países. Mesmo quando as aulas recomeçarem, algumas famílias podem já não ter condições económicas para que os seus filhos e filhas voltem à escola”, alertam as duas organizações internacionais.

Simultaneamente, as desigualdades de género poderão tornar-se mais agudas, com as raparigas particularmente vulneráveis à exploração na agricultura e no trabalho doméstico, sublinha o relatório. “À medida que a pobreza aumenta, as escolas fecham e diminui a disponibilidade de serviços sociais, mais crianças são empurradas para o trabalho. Ao repensar o mundo ‘pós-covid’, precisamos de garantir que as crianças e as suas famílias tenham as ferramentas necessárias para enfrentar tempestades semelhantes no futuro. Educação de qualidade, serviços de proteção social e melhores oportunidades económicas podem ser agentes de mudança”, sublinha a diretora executiva da UNICEF, Henrietta Fore.

Entre as medidas apresentadas para combater o aumento do trabalho infantil incluem-se o acesso mais facilitado ao crédito para famílias pobres, a promoção do trabalho digno para as pessoas adultas, e medidas para levar as crianças de volta à escola, incluindo a eliminação de taxas de matrícula. As Nações Unidas tinham declarado 2021 como o Ano Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil e estão a preparar algumas iniciativas que “podem oferecer uma oportunidade singular” para que todos os Estados-Membros das Nações Unidas e parceiros juntem esforços no combate ao trabalho infantil.

As palavras do Papa e o caso de Zohra

Papa Francisco associou-se à celebração do Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, tendo alertado na quarta-feira, 10 de junho, para a “atual situação de emergência sanitária de vários países, em que muitas crianças e adolescentes são obrigados a trabalhar, em empregos desadequados para a sua idade, para ajudar as suas famílias em condições de extrema pobreza”. E acrescentou: “Em muitos casos, estas são formas de escravatura e reclusão, resultando em sofrimentos físico e psicológico.”

No final da audiência geral que decorreu na biblioteca do Palácio Apostólico do Vaticano, Francisco lançou um apelo às instituições internacionais, “para que façam todos os esforços para proteger os menores, colmatando as lacunas económicas e sociais que estão na base da dinâmica distorcida em que eles, infelizmente, estão envolvidos”.

No portal Vatican News, recorda-se “o brutal assassinato de Zohra”, uma menina de oito anos oriunda de uma família pobre paquistanesa, que era “explorada como empregada doméstica” por um casal rico, na cidade de Rawalpindi. Zohra morreu no passado dia 31 de maio na sequência dos castigos físicos inflingidos pelos seus patrões, que a terão espancado depois de ter deixado fugir os dois papagaios de estimação da família, enquanto os alimentava. No Paquistão, apesar de o trabalho infantil ser ilegal, há cerca de 12 milhões de crianças que trabalham, segundo um relatório da Comissão de Direitos Humanos daquele país.
[Clara Raimundo - 7Margens]