E vós, quem dizeis que eu sou?” Eis a questão decisiva que marca o final da primeira parte do evangelho de Mateus… Esta mesma questão segue sendo posta hoje e pede a cada um de nós respondê-la.

Mateus 16, 13-20

Referências bíblicas
1ª leitura: “Eu o farei levar aos ombros a chave da casa de Davi” (Isaías 22,19-23)
Salmo: Sl. 137(138) – R/ Ó Senhor, vossa bondade é para sempre! Completai em mim a obra começada!
2ª leitura: “Na verdade, tudo é dele, por ele e para ele” (Romanos 11,33-36)
Evangelho: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus” (Mateus 16,13-20)

Quem é ele? Para onde ele vai?

O evangelho de hoje e o que leremos no próximo domingo formam um todo, porque desenham o círculo das duas passagens obrigatórias constitutivas da fé plena, total.

A primeira é toda feita de acolhimento: diante de Jesus, ouvindo as suas palavras e admirando os seus atos, temos de dar uma resposta à questão da identidade que percorre todos os evangelhos: Quem é este homem?

E que tem uma variante, sobretudo em João: De onde vem ele? Dá vontade de traduzir: De onde ele saiu? Este primeiro tempo da fé corresponde ao movimento do próprio Cristo; ele veio do Pai e «desceu» até nós.

Pregado na cruz e sepultado no túmulo, desceu ao ponto mais baixo. E, então, veio o salto: o semicírculo ascendente de retorno do Cristo ao seu Pai: a fé deve segui-lo até este ponto.

No evangelho de hoje, permanecemos no primeiro semicírculo: o da questão da identidade. Pedro, em sua resposta, antecipa o que somente se descobrirá à luz da Páscoa: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.»

As pessoas, no entanto, o listavam entre os personagens do passado: João Batista, Elias, Jeremias. Já os nossos contemporâneos o colocariam em série junto com Buda, Maomé etc. Mas, para nós, quem é ele?

Ainda hoje, podemos ouvir Jesus nos perguntar: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Claro que faríamos nossa a resposta de Simão, mas o que colocaríamos sob estas palavras?

“Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo.”

Simão é “filho de Jonas” (enquanto Jesus é «filho do Deus vivo»), mas não foi esta herança «carnal» que falou nele, e sim a hereditariedade de Jesus mesmo: «não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.»

O que, em certo sentido, faz de Simão um filho de Deus. Pois, de fato, quem quer que reconheça ser Jesus o Filho de Deus entra em sua herança e participa da sua divindade.

Isto porque só podemos acreditar em sua filiação divina, se a voz do Pai falar dentro de nós. Por este motivo Jesus poderá dizer a Maria Madalena, em João 20,17: «Subo a meu Pai e vosso Pai.»

O que lembra João 6,44: «Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrair.» Falei em antecipação da fé pascal, a propósito da profissão de fé de Pedro.

É que foi preciso que ele tomasse consciência de que Cristo havia «subido» (ressurreição) para poder compreender que antes havia «descido».

Assim fecha-se o círculo descrito por Filipenses 2, 6-11 e somente no final é que «todo joelho pode se dobrar» e que podemos reconhecer que Jesus Cristo é o Senhor. Mas o que colocaremos sob o nome «Filho de Deus»?

Sabemos que aí há um obstáculo que o Islã não pode superar. Está claro que a palavra «filho», quando se trata do Cristo, não tem o mesmo sentido que em nossa linguagem corrente.

É por isso, exatamente, que a Bíblia, a propósito do filho, usa os sinônimos «Verbo» ou «Sabedoria». Jesus é tudo isto. Ele é mais do que Filho.

“Eu te digo que tu és Pedro.”

Vamos destacar a admirável simetria deste texto: «Tu és o Cristo» «Tu és Pedro». A identidade eterna de Jesus e a nova identidade de Simão filho de Jonas.

Da mesma forma Abrão, «pai muito elevado», tornou-se Abraão, «pai de multidões.» Tornou-se outro homem: mudança de nome, mudança de destino.

Não esqueçamos que, ao longo de toda a Bíblia, o próprio Deus é a pedra fundamental sobre a qual se pode construir ou se apoiar; é Ele o rochedo ao abrigo do qual se pode ter refúgio (cf. Salmo 18,3).

Entre os profetas, o Messias que há de vir é que com frequência é qualificado de pedra (ver particularmente Daniel 2,31-35). Jesus transmite assim a Simão um dos seus próprios títulos messiânicos.

Simão será outro Cristo. Seria anacrônico pretender deduzir desta transmissão de função e da tomada do «poder das chaves» uma teoria do poder pontifício, sobretudo sob a forma que a história lhe deu – história que ainda nem terminou.

Aliás, no capítulo 18, versículo 18 do mesmo evangelho, ouvimos Jesus confiar a todos os discípulos, e não mais só a Pedro, o poder de ligar e desligar. Desligar é libertar, ligar é unir.

Guardemos esta afirmação surpreendente: as decisões que os homens irão tomar na face da terra farão mudar alguma coisa nos céus, isto é, em Deus ou, se quisermos, serão endossadas por Ele. É sempre a lógica da Aliança.

Uma última observação: a palavra Igreja, aqui absolutamente anacrônica, encontra-se somente duas vezes no conjunto dos evangelhos; aqui e em 18,17.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 21º Domingo do Tempo Comum, do Ciclo A. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara. http://www.ihu.unisinos.br