Terça-feira, 13 de Outubro de 2020
Aceitei com o maior gosto escrever sobre a nova encíclica, porque sabia que o Papa Francisco iria superar-se, face a esta enorme crise com a qual a Humanidade se vê confrontada, e em que ficaram mais visíveis as desigualdades e as injustiças. [Na foto: Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro, em Março: o pensamento de Francisco surpreende “por ser mais luminoso ainda”. Foto da transmissão vídeo do Vatican Media].

Mas o pensamento do Papa Francisco consegue sempre surpreender-nos por ser mais luminoso ainda, pois sabe que é necessário um apelo forte que faça frente à escuridão mais densa que poderá chegar, se no caminho continuarmos a permitir a indiferença e os muros que separam, em vez de acolherem e integrarem.

Esta encíclica é um monumento à fraternidade e à amizade social, como o Papa chama ao que costumamos denominar solidariedade.

Estou, aliás, convencida que pela sua profundidade e pela multiplicidade de temas que trata, é o seu testamento espiritual, pois contém a exposição de um pensamento consolidado e claro, que vemos ser o resultado do estudo e da reflexão de toda uma vida que decidiu colocar ao serviço da Verdade e da Dignidade Humana. Optei, assim, por procurar dar a minha perspectiva sobre esta Magna Carta da Fraternidade Humana, em vez de me focar apenas em alguns aspectos, tal é a força que dela emerge.

Em oito capítulos que distribui por 285 parágrafos, Francisco fala-nos sobretudo dos Direitos Humanos:

Começa por salientar os nossos deveres de compaixão pelos migrantes, iguais em dignidade, da fraternidade e do amor sem fronteiras; mais adiante, volta a este tema, desenvolvendo-o, como faz com um conjunto de outros da maior relevância que aborda de forma multifacetada, procurando dar uma perspectiva dos diferentes ângulos.

Sobre os migrantes, nota também que a mentalidade xenófoba de clausura e retraimento prejudica a dignidade inalienável de toda a pessoa humana e a lei suprema do amor fraterno, afirmando ser inaceitável que os cristãos partilhem mentalidades e atitudes deste teor, fazendo às vezes prevalecer determinadas preferências políticas em vez dos princípios da sua própria fé, considerando ainda que as migrações constituirão pedra angular do futuro do mundo, na medida em que aí confluem ideais sobre o sentido de responsabilidade fraterna sobre o qual assenta toda a sociedade civil.

Quando fala nos direitos sem fronteiras, volta a mencionar o direito à igualdade e os nacionalismos fechados que manifestam uma incapacidade de gratuitidade, parecendo por vezes que “os pobres são perigosos ou inúteis e os poderosos, generosos benfeitores”.

E acerca da necessidade de nos constituirmos como um “nós” que habita uma casa comum, fala a propósito da importância da defesa do ambiente e refere que por vezes as vozes que se levantam nesse sentido são ridicularizadas, porque há gente manipuladora que através de “grandes palavras”, quer a destruição do outro.

Mais à frente regressa a este tema, referindo que a sujeição leva à auto-depreciação e que o desprezo da própria identidade cultural induz a copiar e a comprar, em vez de criar. Ora, a baixa auto-estima, que daí resulta, deixa terreno fácil para quem pretende dominar, roubando os sentimentos de pertença que nos são tão caros.

“Não há alienação pior do que experimentar que não se tem raízes”, diz.

O vírus mais difícil

Em diversas passagens, o Papa destaca a obsessão pelo lucro e por reduzir os custos laborais o que, em seu entender, tem conduzido a um aumento da pobreza; e observa que há regras que foram eficazes para o crescimento, mas não para o desenvolvimento humano integral, porque aumentou a riqueza, mas sem equidade.

“O individualismo radical é o vírus mais difícil de combater”, diz, a propósito do “amor universal”.

Voltará ao tema, preconizando a necessidade de lutar contra as causas estruturais da pobreza, salientando os efeitos destrutivos do império do dinheiro, com duras críticas ao neoliberalismo e a políticas que são concebidas “para” os pobres, mas sem a sua participação e sem o seu envolvimento, o que o leva a propor políticas “com” os pobres, pois só assim se alcançará dignidade no trabalho, com um Estado que assegure um mínimo de bem-estar, garantido pela divisão do trabalho, pelas trocas comerciais, pela justiça social e pela cidadania política.

Faz notar que, após 70 anos sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, verificamos que afinal esses direitos não são suficientemente universais, devido a um modelo económico fundado no lucro.

Persistem formas de injustiça e agora tem reaparecido o racismo, embora dissimulado, pelo que a organização das sociedades em todo o mundo está longe de reflectir a igualdade de direitos consagrada na Declaração.

Faz referências especiais à situação das mulheres, que nos textos legais internacionais têm exactamente a mesma dignidade e idênticos direitos que os homens e que são duplamente pobres porquanto, por via da exclusão, nem sequer conseguem fazer valer os seus direitos se forem vítimas de maus-tratos ou outras formas de violência. “As palavras dizem uma coisa, mas as decisões e a realidade, gritam outra.”

Outra das suas enormes preocupações é o tráfico de seres humanos, a proliferação das guerras, das perseguições por motivos raciais ou religiosos. Chega a falar de uma “III Guerra mundial em pedaços” e afirma que se formos por este caminho, pode ser destruído o “projecto de fraternidade inscrito na vocação da família humana”.

Os muros são algo que lamenta profundamente e afirma que quem os constrói “acabará escravo dentro dos muros que construiu”, por ausência de horizontes.

Analisa depois a globalização, que considera estar a levar uma direcção errada, pelo que haverá progresso, mas sem um rumo comum.

Na verdade, apesar dos avanços na ciência, na tecnologia, na medicina, na indústria, que sobretudo nos países desenvolvidos se traduziu em riqueza e bem-estar, não houve distribuição equitativa dos recursos naturais, o que gerou injustiça e conduziu a graves crise políticas e teve como consequência a deterioração da ética e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade colectiva.

Assinala que por causa dos míopes interesses económicos, morreram milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos, devido à fome e pobreza extrema.

Deplora o silêncio e a indiferença perante estas tragédias, e lamenta a obsessão pelo bem-estar próprio, que conduz a uma cada vez mais distante felicidade partilhada, visto que, ao aumento das inovações, não está a corresponder a equidade e a inclusão social.

Para combater a indiferença, ao mesmo tempo que elogia a compaixão e o amor ao próximo, por diversas vezes invoca a parábola do “Bom Samaritano”, de uma forma comovente e que se reconduz à caridade e à fraternidade.

O sonho universalista, a educação e a formação

Sobre a pandemia, refere que ela veio despertar a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, mas que a tempestade veio desmascarar a nossa vulnerabilidade e deixou a descoberto as falsas e supérfluas seguranças.

Aproveita ainda para lembrar o sonho universalista, para bendizer o apego ao bem e a busca de valores como a amizade social e a dignidade, sem o que a fraternidade não passará de uma palavra romântica, que cada vez irá ficando mais longe da realidade.

Nesta encíclica, o Papa volta a reconhecer a enorme importância da educação e da formação, dizendo que a solidariedade exige empenho por parte de quem tem responsabilidades “na difícil tarefa de educar as crianças e jovens”. Os valores da liberdade, respeito mútuo e solidariedade podem ser transmitidos desde a mais tenra idade, considerando que o desenvolvimento de hábitos solidários promove a capacidade de pensar a vida humana de forma mais integral.

Um dos temas que também merece desenvolvimento especial diz respeito ao poder internacional, pois, não obstante observe que no século XXI se esteja a assistir a uma perda progressiva do poder dos Estados nacionais, o certo é que,  embora não se tenha conseguido dar resposta adequada na crise de 2008 e 2009, visto que não houve uma reacção que fizesse repensar os “critérios obsoletos que continuam a governar o mundo”, as Organizações Internacionais têm potencialidades que poderão desencadear mecanismos inovadores e virtuosos que conduzam à erradicação da miséria e à justa defesa dos Direitos Humanos fundamentais.

Para tanto, preconiza a reforma da ONU, dotando o mundo de organizações supranacionais fortes e com autoridade e meios, instituições eficazes, com missões humanitárias bem definidas e com soluções concretas para a inclusão social e económica.

Mais uma vez, propõe um combate sem tréguas contra o tráfico de seres humanos, a exploração sexual de meninos e meninas e o trabalho escravo.

Destaca também a especulação financeira que condiciona o preço dos alimentos, conduzindo à fome, enquanto escandalosamente se descartam toneladas de bens alimentares.

O bem que todos juntos somos capazes de fazer

Todavia, não obstante reconheça todas estas dificuldades, propõe o diálogo social para uma nova cultura, capaz de uma comunicação interdisciplinar, acreditando no bem que todos juntos somos capazes de fazer.

Há um título cheio de significado e que é muito caro ao Instituto de Apoio à Criança, pois é justamente igual ao que demos à Rede de mais de uma centena de ONG [organizações não-governamentais] que há mais de vinte anos integramos: “Construir Juntos”. Trata-se de uma expressão feliz, que apela ao consenso e ao encontro de culturas, à promoção da amizade e à aproximação entre grupos sociais distintos.

Outro dos temas que me é grato mencionar é a Justiça, porquanto, a propósito dela, refere a importância da memória, para dizer que sem ela nunca se avança.

Distingue magistralmente o perdão e o esquecimento, dizendo que não se poderá exigir qualquer espécie de perdão a quem sofreu muito de maneira injusta e cruel.

E aborda ainda a questão da impunidade: “A Justiça procura-se de modo adequado, só por amor à própria Justiça, por respeito às vítimas, para evitar novos crimes e visando preservar o bem comum”.

O Papa revela em todos estes temas um conhecimento superior e uma reflexão profunda, que o leva a condenar firmemente a pena de morte e a prisão perpétua, defendendo que a Igreja se deve comprometer a propor que aquela seja abolida em todo o mundo e defendendo uma maior dignidade para os presos.

Também afirma que é muito difícil hoje considerar que não há outro meio de evitar a guerra. Daí que, face ao sofrimento que sabemos que é infligido a milhares ou milhões de inocentes, à destruição que causa, lhe é difícil aceitar o conceito de guerra justa, devendo ser encontradas alternativas negociadas sempre preferíveis à injustiça da guerra.

Mas ao longo de toda a encíclica está presente a ideia de Esperança.

“A Esperança que nos fala de uma sede, de uma aspiração, de um anseio de plenitude, que eleva o espírito para coisas grandes, como a verdade, a bondade e a beleza, a justiça e o amor”.

Por isso, quando termina com o apelo à Paz, à Justiça e à Fraternidade, tudo parece compor-se com a esperança na harmonia futura.

Creio que, neste momento, o mais adequado é terminar, pois o melhor mesmo é convidar-vos a lerem integralmente a Encíclica.

Apenas gostaria de reafirmar que foi imenso o gosto que tive em responder a este desafio e dizer também que me lembrei muitas vezes do nosso saudoso bispo D. Manuel Martins, que procurava falar dos grandes temas com elevação e firmeza, mas sobretudo com amizade e fraternidade.
[Dulce Rocha - 7Margens]