Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2020
Para celebrar os 150 anos da declaração do Esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica, o Papa Francisco convocou o “Ano de São José” (de 8 de Dezembro de 2020 a 8 de Dezembro de 2021) com a Carta apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”, anunciou, ontem,
Vatican News
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Pai amado, pai na ternura, na obediência e no acolhimento; pai com coragem criativa, trabalhador, sempre na sombra: com estas palavras, o Papa Francisco descreve São José. E o faz na Carta apostólica ““Patris corde – Com coração de Pai””, publicada hoje por ocasião dos 150 anos da declaração do Esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica. Com o decreto Quemadmodum Deus, assinado em 8 de dezembro de 1870, o Beato Pio IX quis dar este título a São José. Para celebrar esta data, o Pontífice convocou um “Ano” especial dedicado ao Pai putativo de Jesus a partir de hoje até 8 de dezembro de 2021.

Protagonismo sem paralelo

A Carta apostólica traz os sinais da pandemia da Covid-19, que – escreve Francisco – nos fez compreender a importância das pessoas comuns, aquelas que, distantes dos holofotes, exercitam todos os dias paciência e infundem esperança, semeando corresponsabilidade. Justamente como São José, “o homem que passa desapercebido, o homem da presença cotidiana discreta e escondida”.

E mesmo assim, o seu é “um protagonismo sem paralelo na história da salvação”. Com efeito, São José expressou concretamente a sua paternidade ao ter convertido a sua vocação humana “na oblação sobre-humana de si mesmo ao serviço do Messias”. E por isto ele “foi sempre muito amado pelo povo cristão” (1).

Nele, “Jesus viu a ternura de Deus”, que “nos faz aceitar a nossa fraqueza”, através da qual se realiza a maior parte dos desígnios divinos. Deus, de fato, “não nos condena, mas nos acolhe, nos abraça, nos ampara e nos perdoa” (2). José é pai também na obediência a Deus: com o seu ‘fiat’, salva Maria e Jesus e ensina a seu Filho a “fazer a vontade do Pai”, cooperando “ao grande mistério da Redenção” (3).

Exemplo para os homens de hoje

Ao mesmo tempo, José é “pai no acolhimento”, porque “acolhe Maria sem colocar condições prévias”, um gesto importante ainda hoje – afirma Francisco – “neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher”. Mas o Esposo de Maria é também aquele que, confiante no Senhor, acolhe na sua vida os acontecimentos que não compreende com um protagonismo “corajoso e forte”, que deriva “da fortaleza que nos vem do Espírito Santo”.

Através de São José, é como se Deus nos repetisse: “Não tenhais medo!”, porque “a fé dá significado a todos os acontecimentos, sejam eles felizes ou tristes”. O acolhimento praticado pelo pai de Jesus “convida-nos a receber os outros, sem exclusões, tal como são”, com “uma predileção especial pelos mais frágeis” (4).

“Patris corde” evidencia, ainda, “a coragem criativa” de São José, “o qual sabe transformar um problema numa oportunidade, antepondo sempre a sua confiança na Providência”. Ele enfrenta os “problemas concretos” da sua Família, exatamente como fazem as outras famílias do mundo, em especial aquelas migrantes. Protetor de Jesus e de Maria, José “não pode deixar de ser o Guardião da Igreja”, da sua maternidade e do Corpo de Cristo: todo necessitado é “o Menino” que José continua a guardar e de quem se pode aprender a “amar a Igreja e os pobres i” (5).

A dignidade do trabalho

Honesto carpinteiro, o Esposo de Maria nos ensina também “o valor, a dignidade e a alegria” de “comer o pão fruto do próprio trabalho”. Esta acepção do pai de Jesus oferece ao Papa a ocasião para lançar um apelo a favor do trabalho, que se tornou uma  “urgente questão social” até mesmo nos países com certo nível de bem-estar.

“É necessário tomar renovada consciência do significado do trabalho que dignifica”, escreve Francisco, que “torna-se participação na própria obra da salvação” e “oportunidade de realização” para si mesmos e para a própria família, “núcleo originário da sociedade”. Eis então a exortação que o Pontífice faz a todos para “redescobrir o valor, a importância e a necessidade do trabalho”, para “dar origem a uma nova «normalidade», em que ninguém seja excluído”. Em especial, diante do agravar-se do desemprego por causa da pandemia da Covid-19, o Papa pede a todos que se empenhem para que se possa dizer: ”Nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho!” (6).

“Não se nasce pai, torna-se tal”

“Não se nasce pai, torna-se tal”, afirma ainda Francisco, porque “se cuida responsavelmente” de um filho assumindo a responsabilidade pela sua vida. Infelizmente, na sociedade atual, “muitas vezes os filhos parecem ser órfãos de pai” que sejam capazes de “introduzir o filho na experiência da vida”, sem  prendê-lo “nem subjugá-lo”, mas tornando-o “capaz de opções, de liberdade, de partir”.

Neste sentido, José recebeu o apelativo de “castíssimo”, que é “o contrário da posse”: ele, com efeito, “soube amar de maneira extraordinariamente livre”, “soube descentralizar-se” para colocar no centro da sua vida Jesus e Maria. A sua felicidade está “dom de si mesmo”: nunca frustrado e sempre confiante, José permanece em silêncio, sem lamentações, mas realizando “gestos concretos de confiança”. A sua figura, portanto, é exemplar, evidencia o Papa, num mundo que “precisa de pais e rejeita os dominadores”, rejeita quem confunde “autoridade com autoritarismo, serviço com servilismo, confronto com opressão, caridade com assistencialismo, força com destruição”.

Na décima nota, “Patris corde” revela também um hábito da vida de Francisco: todos os dias, o Pontífice reza uma oração ao Esposo de Maria “tirada dum livro francês de devoções, do século XIX, da Congregação das Religiosas de Jesus e Maria”. Trata-se de uma oração que “expressa devoção e confiança” a São José, mas também “certo desafio”, explica o Papa, porque se conclui com estas palavras: “Que não se diga que eu Vos invoquei em vão, e dado que tudo podeis junto de Jesus e Maria, mostrai-me que a vossa bondade é tão grande como o vosso poder”. A Carta apostólica “Patris corde” é acompanhada da publicação do Decreto da Penitenciaria Apostólica, que anuncia o “Ano de São José” especial convocado pelo Papa e a relativa concessão do “dom de Indulgências especiais”.

S. José, Pai e Operário

S. José na Capela da Casa Geral dos Espiritanos, em Roma.

José e Maria tiveram a difícil, mas feliz, Missão de criar e educar Jesus. Nascidos em famílias simples, lutaram como todos os pobres, para que o Filho crescesse em sabedoria e saúde. Há 150 anos, S. José, ‘humilde carpinteiro, esposo de Maria, homem justo’, foi declarado Padroeiro Universal da Igreja o que, em palavras simples, quer dizer que ele é uma das nossas grandes referências, é um pai, um modelo, um intercessor junto de Deus.

O Papa Francisco não quis deixar passar despercebida esta data e propôs à Igreja um Ano Especial dedicado a S. José. Escreveu uma Carta Apostólica para ajudar a Igreja e o mundo a perceber melhor a importância e a actualidade da vida e da missão deste grande Santo.

José é um ‘Pai amado’ pelo povo cristão que se identifica com a sua simplicidade, o seu trabalho comprometido, a sua dedicação total à família que Deus lhe confiou.

José é ‘Pai na ternura’. Pela sua vida, ‘ensina-nos que ter fé em Deus inclui também acreditar que Ele pode intervir inclusive através dos nossos medos, das nossas fragilidades. E ensina-nos que, no meio das tempestades da vida, não devemos ter medo de deixar a Deus o leme da nossa barca’.

José é ‘Pai na obediência’. A Bíblia fala-nos de quatro sonhos. José ouve e obedece. No primeiro sonho, o anjo convida-o a aceitar a gravidez de Maria; no segundo, é-lhe pedido que fuja com Maria e o Menino para o Egipto; no terceiro, Deus pede-lhe que regresse à terra natal; no quarto, é-lhe proposto um desvio de rota, e acabam por ir até Nazaré. José é um homem de Fé sempre à escuta de Deus cujas Palavras se tornavam ordens a cumprir com alegria e sucesso.

José é ‘Pai no acolhimento’. Ele acolhe Maria sem colocar condições prévias. A ‘vida espiritual que José nos mostra não é um caminho que explica, mas um caminho que acolhe’. A ele, como a nós, a Fé dá significado a todos os acontecimentos, tristes ou felizes.

José é ‘Pai com coragem criativa’. Esta vem ao de cima quando há dificuldades. Em Belém arranjou um estábulo para Maria dar à luz; mais tarde, organizou a fuga para o Egipto. Ali teve de enfrentar problemas semelhantes aos dos refugiados e migrantes de hoje. Por isso, José é um ‘padroeiro especial para quantos têm que deixar a sua terra por causa das guerras, do ódio, da perseguição e de miséria’. Ele, que protegeu e guardou Maria e o Menino, também protege hoje a Igreja. Merece ser invocado ‘como protector dos miseráveis, necessitados, exilados, aflitos, pobres, moribundos’.

José é um ‘Pai trabalhador’. Foi um carpinteiro honesto. Sustentou a família e ensinou ao Filho a dignidade e o valor do trabalho para ganhar o pão de cada dia. Este Santo ajuda-nos a compreender melhor que ‘uma família onde falte o trabalho está mais exposta a dificuldades, tensões, fraturas e até mesmo à desesperada e desesperadora tentação da dissolução’. Celebrar S. José implica questionar: ‘a perda de trabalho que afecta tantos irmãos e irmãs e tem aumentado nos últimos meses devido à pandemia da covid19, deve ser um apelo a revermos as nossas prioridades’. É tempo para pedir a intercessão de S. José para se conseguir atingir este grande objetivo: ‘nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho!’.

José é um ‘Pai na sombra’. Não se nasce pai, é o nascimento de um filho que gera o pai. Depois, para ser pai a sério, é preciso cuidar responsavelmente dos filhos. Sem oprimir, sem os obrigar a ser aquilo que os pais querem e sonham: ‘a lógica do amor é sempre uma lógica de liberdade e José soube amar de maneira extraordinariamente livre’. Muitos pensam que a felicidade assenta na lógica do sofrimento, mas a verdade que José nos ensina é que a felicidade se situa na lógica do dom de si mesmo.

A vida dos santos são a ‘prova concreta de que é possível viver o Evangelho’. Podemos seguir a sua inspiração, as suas atitudes, palavras e silêncios.

Este Ano de S. José começou a 8 de dezembro e vai ser concluído solenemente daqui a um ano, na Solenidade da Imaculada Conceição. Com razão ele é ‘Pai Amado’, ‘Pai na Ternura’, ‘Pai na Obediência’, ‘Pai no Acolhimento’, ‘Pai com coragem criativa’, ‘Pai Trabalhador’, ‘Pai na Sombra’, membro da Sagrada Família, Padroeiro da Igreja Universal.

Como diz a Oração Final: ‘Guiai-nos no caminho da vida, alcançai-nos graça, misericórdia e coragem’.
Tony Neves, em Roma