Sudão do Sul, 9 de julho: dez anos de independência muito complicados

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Quinta-feira, 8 de julho de 2021
O Sudão do Sul celebrou a sua independência do Sudão a nove de julho de 2011. Um acontecimento que vivi em primeira pessoa e trago tatuado na memória. Reli o registo no meu diário desse dia histórico: «Eram 13h19 quando o presidente da Assembleia do Sudão do Sul começou a ler a declaração de independência. O texto de nove pontos tinha sido aprovado na quinta-feira pela assembleia e levou doze minutos a ler.

Quando James Wani Igga, usando uma veste branca africana, pronunciou as palavras mágicas «Declaro o Sudão do Sul independente» a multidão que apinhava o recinto junto ao túmulo do Dr. John Garang desde as oito da manhã a aturar um sol inclemente, irrompeu numa exclamação de júbilo misturando gritos de alegria com lágrimas, palmas e tambores. Depois, o São Pedro também quis participar com chuva e trovoada no final do programa. A celebração, essa tinha começado depois das nove da noite do dia 8 com milhares de pessoas nas ruas a pé, de carro ou de motorizada a buzinar, cantar, dançar, bater bombos e chapas e a atirar água e fogo de artifício. À meia-noite ouviu-se um grito de regozijo por toda a cidade e perto da minha casa alguém pôs a tocar o hino nacional. As festas passarem sem incidentes de maior e as pessoas viveram estes dois dias de uma forma impressionante de euforia incontida. Perguntei a muita gente como se sentiam. As respostas eram as mesmas: Não tenho palavras; Estou imensamente feliz; Estou muito alegre; Conseguimos.»

Dez anos depois, as memórias da festa que varreu o país de lés a lés foram apagadas pelo  pesadelo da guerra que se colou ao país em 1955. As expectativas de um futuro abençoado foram defraudadas por uma elite cleptocrata de senhores da guerra que sequestrou a nação.

VOLTA A GUERRA

Dois anos e meio depois da independência, a 15 de dezembro de 2013, o país  voltou à guerra civil depois de oito anos de alguma paz. A razão? Uma luta intestina pelo controle do poder e o ajuste de agravos antigos entre o presidente Salva Kiir Mayardit (dinca) e o vice-presidente Riek Machar Teny (nuer). A guerra brutal começou por opor dincas a nueres, mas alastrou-se a todo o país abatendo-se sobretudo sobre civis indefesos.

Em cinco anos, mais de 400 mil pessoas foram mortas, 2,2 milhões procuraram refúgio nos países vizinhos e 1,6 milhões foram deslocados. O relatório da União Africana sobre o conflito é um rol de horrores chocantes.

ACORDO DE PAZ

Os dois arcerrivais assinaram um acordo de paz em 2018 e formaram um governo de unidade nacional em fevereiro de 2020. Os elementos da oposição que ficaram de fora da partilha de poder continuam em negociações através da Comunidade romana de Santo Egídio. A Assembleia Constituinte — que vai escrever a constituição que substitui a carta transicional em vigor desde o dia de independência e que centra o poder na presidência — já foi constituída.

O país deve ir a votos em 2023. Será bom que Kiir e Machar aceitem retirar-se da contenda para abrir caminho a candidatos novos… O Tribunal Híbrido União Africana-Sudão do Sul para julgar os crimes de guerra e contra a humanidade cometidos no conflito também já está aprovado. Falta a peça mais importante: a formação de umas forças armadas independentes das milícias que apoiam os respetivos líderes e que formam o atual exército.

CRISE HUMANITÁRIA

O país mais jovem da África celebra uma década de independência numa crise humanitária sem precedentes: sete em cada dez dos habitantes vivem em insegurança alimentar aguda. A guerra civil, os conflitos locais e as grandes inundações afetaram a produção agrícola. O país encontra-se na cauda do índice de desenvolvimento humano.

A infância, o futuro do país, está hipotecada: 70 por cento das crianças em idade escolar está fora da escola; 4,5 milhões das 6,8 milhões de crianças têm necessidade urgente de ajuda humanitária para sobreviver; 1,4 milhões sofre de malnutrição agravada. A economia do Sudão do Sul depende sobretudo da produção de petróleo que caiu dos mais de 350 mil barris diários de há uma década para os 150 mil de agora. O petróleo é explorado sobretudo pela China, Índia e Malásia. Uma grande parte da produção está hipotecada à China para pagar empréstimos que acabaram nas contas da elite que se assenhoreou dos parcos recursos do país. O Sudão do Sul partilha com a Somália a glória dúbia de país mais corrupto do planeta.

FUTURO

O Presidente Kiir — que está em poder desde 2005 — anunciou que as celebrações da primeira década de independência vão ser muito contidas, porque os recursos são poucos para ajudar os cidadãos em necessidade. Mas o P. Louis Okot, provincial dos Combonianos no Sudão do Sul, mantém viva a esperança.

«A independência do Sudão do Sul tem sido um presente e uma bênção para todos os sul-sudaneses e continua a sê-lo», assinala. E continua: «É lamentável que tenha tomado uma via diferente que tornou o futuro incerto à medida que a instabilidade política e económica persistem. No entanto, no meio de toda esta estagnação, com os olhos da fé vejo grandes possibilidades de progresso e desenvolvimento. Só precisamos de um esforço colectivo e individual para deitar fora a nossa falta de vontade e desconfiança mútua».

O hino nacional termina com uma oração: «Ó Deus, abençoa o Sudão do Sul». Que assim seja.
P. José da Silva Vieira
Missionário comboniano