COMBONI THAT DAY

Carta de Páscoa do Brasil

Sábado, 15 de abril de 2017
“Para preparar a nossa Páscoa – escreve o P. Dario Bossi, missionário comboniano italiano, há muitos anos no Brasil –, gostaria de fazer dialogar entre si duas mulheres, Nancy e Neide, que não se conhecem uma à outra, mas que se inspiram reciprocamente e nos ajudam a compreender melhor o sentido destes próximos dias.” Para Nancy, com toda o cenário de violência que se vive, hoje, no Brasil “este ano não haverá ressurreição”. Neide acompanhou a doença terrível do seu marido durante uns longos 17 anos. “Oferece sinais de ressurreição quem, como Nancy, continua a indignar-se. E quem, como Neide, continua a cuidar da vida, apesar do grande silêncio”, conclui o missionário.

Caros irmãos e irmãs amigos,
para preparar a nossa Páscoa, gostaria de fazer dialogar entre si duas mulheres que não se conhecem, mas que se inspiram reciprocamente e que nos ajudam a compreender melhor o sentido destes próximos dias.

Nancy é teóloga metodista, mãe de dois filhos, muito comprometida junto à Comissão Pastoral da Terra. Durante esta longa Quaresma, no cenário preocupante do Brasil de hoje, ela escreveu um texto forte e provocador: “Este ano não haverá ressurreição”. Nunca antes de hoje o cristianismo no Brasil foi tão aparecido, celebrado, massificado... mas toda essa pompa não vale nada! Não melhora de um centímetro a nossa vida em sociedade. O fascismo e a barbárie convivem com cultos, missas e louvores. O cristianismo precisa descer do salto alto, largar a tribuna e o palco. Num país tão violento e profundamente injusto, o fervor religioso é fator anestésico, ou até mesmo vetor de intolerância. “Fé de mais! Vida de menos”.

Em 2016, 61 camponeses e 138 indígenas foram mortos porque tentavam defender suas terras.
Trinta mil jovens matados, 76% deles eram negros. Nos últimos 10 anos, os assassinatos de mulheres negras cresceram do 54%. Somos o quinto país no mundo pelo número de feminicídios. A cada 25 horas é morta uma pessoa LGBT (nisso o Brasil é o primeiro país no mundo). Com toda essa violência nos ombros, não haverá ressurreição – desabafa Nancy. “Somos o túmulo, a falência da fé. Não é preguiça na busca de Deus: é vergonha, profunda vergonha”.

Como negar essa invectiva? Por que silenciar esse grito de raiva?

Passei dias inteiros perguntando-me como celebrar a Páscoa, até que reencontrei a senhora Neide. Catequista, formou-se à escola da religiosidade familiar e depois iniciou a saciar sua sede, gota a gota, bebendo à teologia da libertação traduzida na prática de vida das pequenas comunidades cristãs, no tempo da ditadura militar.

Precisava inventar uma nova igreja, naqueles anos ‘70 em que à repressão do exército somava-se uma urbanização desenfreada e excludente nas periferias. Ela fez isso por anos, junto às mulheres de um dos mil bairros excluídos da megalópole de São Paulo e ao lado do homem com que depois se casaria.
A equipe pastoral era composta principalmente por leigos e leigas; naquela época, mais que hoje, a visão de Igreja era horizontal e a comunidade era um espaço de partilha, crescimento humano e formação civil, a partir da leitura popular da Bíblia e da situação social.

Quando seu marido adoeceu, a vida inteira de Neide tornou-se uma catequese. Por 17 longos anos ficou ao seu lado, ele perdendo pouco a pouco antes a visão, depois a palavra, finalmente o movimento. Neide falava e cantava com ele, mesmo sem receber respostas.

Entre o silêncio desse homem e o espanto de Nancy existe uma ligação misteriosa, que tem a ver com a dor do mundo. A ressurreição não é uma resposta banal a esse mistério, um final feliz de conto de fadas, um prêmio de consolação. Oferece sinais de ressurreição quem, como Nancy, continua a indignar-se. E quem, como Neide, continua a cuidar da vida, apesar do grande silêncio.
P. Dario Bossi, mccj