Sexta-feira, 19 de junho de 2026
Açailândia, um município do estado do Maranhão, no Brasil, surgiu como um acampamento dos trabalhadores que construíram a rodovia Belém–Brasília. Com o passar dos anos, foi sendo povoado, ao mesmo tempo em que se intensificavam as consequências negativas na região decorrentes dos monocultivos de eucalipto e soja, do desmatamento e da existência da Estrada de Ferro Carajás. Nesse cenário desafiador, a luta das mulheres adquiriu grande relevância.
A área onde está localizada Açailândia era reconhecida pela grande quantidade de açaí que abrigava; no entanto, a expansão da agroindústria incentivou a compra de terras por fazendeiros, cujas atividades agrícolas destruíram a maior parte das palmeiras nativas. Isso representou um grande prejuízo para o equilíbrio biológico, pois as palmeiras fazem parte de um sistema no qual o açaí e as fontes de água se complementam e se protegem mutuamente. Sem as palmeiras, as áreas hídricas e húmidas são drasticamente reduzidas. Atualmente, os monocultivos de eucalipto e soja ocupam centenas de milhares de hectares do território, colocando em risco a segurança alimentar, o bem viver e a dignidade dos assentamentos vizinhos às áreas industrializadas.
Livro de Receitas
Atualmente, as atividades e ações da Associação de Mulheres Sementes da Terra representam uma aposta para frear os impactos negativos da agroindústria e melhorar a qualidade de vida de quem vive no município. Organizadas em associação, mas com uma visão que vai muito além da mera burocracia, as Mulheres Sementes da Terra registraram seus conhecimentos sobre agricultura familiar em diferentes materiais de comunicação. Um exemplo disso é a publicação Receitas do Quintal de Casa, um livro de receitas no qual as mulheres da associação detalham formas de preparo de chás e remédios naturais, dentro de um processo que também promove a resistência em defesa da terra, da família e das comunidades. Nesses espaços, são igualmente debatidos temas relacionados às violências doméstica e social.
É importante mencionar que, paralelamente às consequências da expansão da agroindústria para a terra e os assentamentos, os impactos também afetam a saúde dos moradores das comunidades vizinhas à área urbana de Açailândia. A pulverização de agrotóxicos nos monocultivos tem contribuído para a proliferação de diversas doenças. Em algumas ocasiões, os moradores relatam que os venenos utilizados no controle de pragas atingem residências, áreas habitadas e escolas. A coragem das Mulheres Sementes da Terra volta a ganhar destaque nesse contexto; com o livro de receitas em mãos e os espaços de debate abertos, são elas que enfrentam problemas de pele, doenças respiratórias e até mesmo enfermidades “raras”, cujas características ainda não foram plenamente classificadas.
Estrada de Ferro Carajás
Ao que já foi exposto, soma-se também o impacto negativo da Estrada de Ferro Carajás. As micropartículas dos insumos transportados pelo trem desde a mina de Carajás até o porto da cidade de São Luís (capital do Maranhão) impregnam o ar, agravando os problemas respiratórios das populações que vivem ao longo da ferrovia. A biodiversidade também é afetada, pois as espécies que convivem em harmonia com a floresta — mantendo o equilíbrio necessário para a vida — veem seu território ser impactado pela poluição sonora e pela operação constante do trem. Ao mesmo tempo, o cerco agrícola, ampliado pela expansão dos monocultivos, impede que os animais circulem livremente em seu próprio habitat.
Algumas das Mulheres Sementes da Terra relataram uma série de problemas auditivos causados pela passagem dos trens. É preciso compreender que a ferrovia opera 24 horas por dia, sete dias por semana, e que, na maioria dos casos, a distância entre os trilhos e as residências é de apenas alguns metros. Ao longo de sua existência, a Estrada de Ferro Carajás registra oficialmente um saldo de 47 pessoas mortas e centenas de feridos, seja por atropelamentos ou por descarrilamentos de vagões. Este é mais um dos contextos em que a Associação de Mulheres Sementes da Terra acolhe e enfrenta os sofrimentos de sua comunidade. Recentemente, em abril de 2026, no município de Alto Alegre do Pindaré, vagões carregados de minério de ferro tombaram às margens da ferrovia. Já em 2023, um incêndio em 18 vagões de um dos trens provocou um significativo derramamento de combustível, que se espalhou pelo ecossistema.
Diante de um cenário pouco animador, mas marcado pela necessidade de uma grande luta, celebramos as ações da Associação de Mulheres Sementes da Terra. O papel e a importância das mulheres nas comunidades amazônicas — sejam indígenas, afrodescendentes, quilombolas, ribeirinhas ou camponesas — não podem ser minimizados. Hoje, reconhecemos que existem diversas frentes de luta social lideradas por mulheres corajosas; entre elas, as Sementes da Terra, em Açailândia (Maranhão), são um exemplo inspirador.