Depois do discurso apostólico (Mateus 10), encontramos agora uma seção narrativa (Mateus 11–12), segundo o procedimento literário caro a Mateus, que alterna discursos e relatos. Esta seção narrativa é caracterizada por um clima de tensão crescente. Jesus percebe que a sua mensagem e a sua obra não são compreendidas. (...)
“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos.”
Mateus 11,25-30
Depois do discurso apostólico (Mateus 10), encontramos agora uma seção narrativa (Mateus 11–12), segundo o procedimento literário caro a Mateus, que alterna discursos e relatos. Esta seção narrativa é caracterizada por um clima de tensão crescente.
Jesus percebe que a sua mensagem e a sua obra não são compreendidas: João Batista alimenta dúvidas sobre o seu messianismo; as pessoas mostram-se caprichosas como crianças; as cidades ao redor do lago, onde ele tinha realizado tantos milagres, não se convertem; escribas e fariseus se opõem a ele. Jesus encontra-se, assim, diante do insucesso e da perspetiva do fracasso. Este é o contexto dramático do trecho evangélico de hoje.
O texto se articula em três parágrafos bem distintos: no primeiro, a oração de louvor que Jesus dirige ao Pai; no segundo, a estreita relação entre o Pai e o Filho; no terceiro, a relação entre Jesus e nós, com o convite para irmos até ele.
O trecho grego começa de modo singular: “Naquele tempo Jesus, respondendo, disse…”. Contudo, antes disso não encontramos nenhuma pergunta. Parece quase que Jesus responda à interrogação que esta situação de aparente fracasso coloca à sua missão. E qual é a sua resposta? “Eu te louvo, Pai!”.
1. Jesus dececionado, mas não desanimado
Perguntamo-nos: como é que Jesus, neste contexto de oposição e de aparente fracasso, reage com uma oração de louvor, com uma espécie de seu “Magnificat”?
O Senhor não se abate nem desanima, como talvez nós teríamos feito. Embora dececionado com o fechamento e a falta de fé de tantos ouvintes, testemunhas dos seus milagres, Jesus leva esta situação para a oração, para o diálogo com o Pai. E descobre que o Pai continua a realizar o seu projeto de amor não através dos sábios e dos doutos, mas através dos pequenos.
É uma situação muito atual. Hoje assistimos ao afastamento de tantos cristãos e à marginalização da fé cristã na cultura ocidental; perguntamo-nos, então, para que serve o anúncio do Evangelho num contexto assim. Talvez também nós estejamos dececionados porque as promessas de Deus parecem demorar a cumprir-se. Envelhecemos na esperança de uma Igreja renovada. É forte a tentação da resignação, do desânimo, do pessimismo cínico.
Pois bem, Jesus convida-nos à coragem da oração, para discernirmos de onde e para onde sopra o Espírito.
2. Um novo chamamento para todos: vinde, tomai, aprendei!
Jesus sai do encontro com o Pai renovado na consciência da sua missão messiânica: “Tudo me foi entregue por meu Pai”. E dirige-se novamente aos pequenos, ou melhor, a todos: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim”.
Quem é este povo cansado e oprimido? São aqueles que vivem sob o jugo da Lei. Com efeito, para a tradição rabínica, o jugo era uma imagem da Lei: os 613 preceitos extraídos da Escritura e os milhares de prescrições menores que obrigavam a “andar na linha”.
O jugo evocava uma condição de escravidão, pois geralmente eram os escravos que o usavam para transportar cargas pesadas (cf. Levítico 26,13).
Jesus convida a romper esse jugo e a ir até ele para encontrar alívio, isto é, o descanso prometido por Deus ao seu povo (cf. Carta aos Hebreus 3–4). Logo depois, porém, convida a tomar o seu jugo e a aprender dele, “manso e humilde de coração”.
Podemos certamente aprender com ele, mestre de coração manso e humilde, que não se comporta como os escribas e fariseus, os quais “atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros das pessoas” (Mateus 23,4). No entanto, não esperaríamos uma associação entre jugo e descanso.
Qual é, então, este jugo de Jesus?
O jugo era um instrumento de madeira que unia dois animais para arar ou puxar uma carroça. O jugo de Jesus é a cruz: aquela que ele carregou por nós e, portanto, a nossa cruz, o nosso jugo. Jesus torna-se o nosso Cireneu, põe-se ao nosso lado. É o nosso companheiro, o nosso… “cônjuge”!
Sim, porque o termo cônjuge deriva do latim coniux, formado por cum e iugum: indica aquele que está unido ao outro sob o mesmo jugo, aquele que partilha o mesmo destino. Daí também o verbo “conjugar”. Trata-se, portanto, de uma imagem nupcial.
Jesus afirma: “O meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Por que é suave? Porque é o jugo do amor. Por que é leve? Porque ele o carrega connosco.
Diante deste convite de Jesus surgem duas tentações.
A primeira é querer romper todo jugo e todo vínculo, inclusive aquele “suave e leve” do amor. Como o falso profeta Hananias, que quebrou o jugo simbólico de madeira carregado por Jeremias, prometendo ao povo liberdade e prosperidade. O risco é acabar com um jugo de ferro (cf. Jeremias 28).
A segunda tentação é confiar no jugo das leis para garantir a ordem e preservar o poder, no âmbito social, eclesial, familiar ou em qualquer outro contexto, aumentando o cansaço e a opressão e sacrificando a solidariedade e o amor.
Exercício semanal de reflexão
Como reajo diante dos fracassos e das deceções?
Quem é o meu “cônjuge” ao carregar a cruz: Cristo ou o novo messianismo cultural?
“Quero agradecer-te, Senhor, pelo dom da vida. Li em algum lugar que os homens são anjos com uma só asa: só podem voar permanecendo abraçados. Às vezes, nos momentos de intimidade, atrevo-me a pensar, Senhor, que também tu tens uma só asa. A outra manténs escondida: talvez para me fazer compreender que não queres voar sem mim” (mons. Tonino Bello).
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
Vinde a mim, dar-vos-ei alívio
Referências: 1ª leitura: Zacarias 9,9-10; 2ª leitura: Romanos 8,9.11-13; Evangelho: Mateus 11,25-30
“Vós encontrareis descanso”
A primeira leitura nos convoca à alegria e o evangelho nos promete o descanso. São textos que se inscrevem na longa lista de louvores, ações de graças e exultações que encontramos na Bíblia. Todas as Escrituras são portadoras de uma boa nova, a boa nova do poder do amor que nos faz existir, que nos acompanha em todos os nossos percursos e nos encaminha para a vitória da vida.
Por que repetir isto? Porque há uma parte de nós que tem medo de Deus. Medo das suas exigências, do peso dos fardos que temos dificuldade em achar leves. Medo da sua «justiça». Isto nos impede de dar o passo decisivo para uma confiança total, para nos abrirmos sem reservas ao amor. E, no entanto, o medo é o contrário da fé. O descanso de que Jesus nos fala é, por um lado, o fim da inquietude, da tensão e das preocupações. Nossos projetos, previsões e disposições sem dúvida se mantêm, mas agora vividos na paz. Até mesmo as nossas falhas não podem abalar a certeza fundamental de que Deus está conosco.
Tudo o que a vida nos propicia de sofrimentos, enfermidades, doenças, decepções etc. não é obra de Deus, não mais que a cruz do Cristo que foi erguida pelos homens. Mas bem aí onde a morte queria reinar, Deus acaba de fazer jorrar a vida. E, desde então, todo fardo pode se tornar leve e se torna de fato, se acreditamos verdadeiramente nesta Presença que nos habita e que nos acompanha na travessia de todos os Mares Vermelhos que temos de transpor.
O fardo leve
Jesus, no evangelho, nos convida a tomar sobre nós o seu jugo. Lembremos que jugo é o instrumento que serve para associar dois animais, tendo em vista a tração de um objeto difícil de mover-se. Sendo assim, estamos «conjugados», somos «cônjuges». O convite para carregar o jugo do Cristo pode nos meter medo, mesmo se apenas para carregarmos junto com Ele.
Isto merece reflexão. De início, não esqueçamos que o fardo da vida será carregado de qualquer modo, com Ele ou sem Ele. Além disso, devemos compreender, sobretudo, que o jugo do Cristo é na realidade nosso. Foi Ele que veio até nós para suportar as nossas misérias, fraquezas e sofrimentos. Veio carregar o nosso fardo, um fardo que não veio dele, que não é o seu, mas que nisto se converteu, em virtude do amor que o fez «renunciar à sua condição divina» (reler Filipenses 2,5-11).
A Cruz não acrescenta nada às nossas cruzes; não é um fardo suplementar que Deus viria acrescentar aos nossos males. Ao contrário, Deus é que vem assumir os pesos que nos arrasam e, exatamente por isso, o fardo pode tornar-se leve. «Pode tornar-se leve», não que automaticamente se torne: mas só se, pelo caminho da fé, aceitamos carregar este jugo que era o nosso, e que se tornou o do Cristo. Não seremos mais, então, os únicos a levá-lo. O fardo torna-se Cruz e, por conseguinte, podemos levá-lo mediante a promessa da travessia pascal.
Sob a moção do Espírito
Deus é o ser imperceptível que é o fundamento de tudo o que existe e que nos dá tudo, mais além até dos nossos desejos os mais desmesurados, mas não nos dá nada apesar de nós. É preciso o assentimento da nossa liberdade. Encontra-se aí o fundamento da nossa dignidade, porque, sem o livre acolhimento do dom que nos é feito, dom que somos nós mesmos, não seríamos imagens da sua liberdade soberana.
A recusa do dom pode assumir muitas formas. Primeiro, o desgosto de viver, a solidão em desespero. Mas também a ilusão de viver por si mesmo, a ignorância, aceita ou mesmo até cultivada, do fato de que viemos dum Outro. A recusa do «Outro» que nos permite ser «Eu». Podemos, sem nenhum artifício, assimilar esta maneira de sermos nós à recusa de levar o jugo com o Cristo.
Na segunda leitura, Paulo chama de carne este fechamento em si mesmo que nos deixa na órbita da morte. A carne é fechamento. Já o Espírito, que tem como símbolos o vento e o pássaro, ao contrário, é abertura. Ele vem nos visitar, vem nos habitar, para fazer-nos sair de nós mesmos. É movimento e liberdade. Ele «sopra onde quer», diz Jesus em João 3,8. Abertura e também movimento. Vôo para um lugar outro, que não podemos adivinhar qual seja, porque é participação na natureza divina. Por isso não é absolutamente necessário ser um intelectual de alto nível nem um teólogo formado: basta ser confiante como uma criança em relação à sua mãe, para acolher o Filho em quem o Pai se revela.
A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 14º Domingo do Tempo Comum. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.
Dois braços abertos, em vez de um dedo acusador
O que me encanta é Jesus que se maravilha com o Pai. Uma coisa belíssima: o Mestre de Nazaré surpreende-se por um Deus sempre mais fantasioso e inventivo aos seus olhos, que surpreende todos, até o seu Filho.
O que aconteceu? O Evangelho tinha acabado de referir um período de insucessos e problemas: João Batista é preso, Jesus é contestado abertamente por representantes do templo, as povoações em redor do largo, após a primeira onda de entusiasmo e de milagres, afastaram-se.
E eis que, naquele ambiente de derrota, abre-se diante de Jesus uma brecha inesperada, uma reviravolta repentina que o enche de alegria (Mateus 11,25-30): Pai, bendigo-te, dou-te graças, agradeço-te, porque te revelaste aos pequenos.
O lugar vazio dos grandes preenchem-no os pequenos: pescadores, pobres, doentes, viúvas, crianças, publicanos, os preferidos de Deus. Jesus não o esperaria, e admira-se com a novidade; a maravilha invade-o, sente-se feliz.
Descobre o agir de Deus, como antes sabia descobrir, na profundidade de cada pessoa, angústias e esperanças, e para elas sabia inventar como resposta palavras e gestos de vida, que o amor nos faz chamar “milagres”.
Revelaste estas coisas aos pequenos… de que coisas se trata? Um pequeno, uma criança, depressa compreende o essencial: se alguém lhe quer bem ou não. No fundo, é este o segredo simples da vida. Não há outro, mais profundo.
Os pequenos, os pecadores, os últimos da fila, as periferias do mundo compreenderam que Jesus veio trazer a revolução da ternura: vós valeis mais do que muitos pássaros, disse-o no outro domingo, tendes o ninho nas suas mãos. Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e Eu vos darei alívio.
Deus não é difícil: está ao lado de quem soçobra, leva aquele pão de amor de que necessita todo o coração humano cansado… E todo o coração está cansado.
Vinde, dar-vos-ei alívio. E não vos vou já apresentar um novo catecismo, regras superiores, mas o conforto do viver. Duas mãos nas quais apoiar a vida cansada e retomar o fôlego da coragem. O meu jugo é suave, e o meu peso é leve: palavras que são música, boa notícia.
Jesus veio para eliminar a velha imagem de Deus. Não mais um dedo acusador apontado contra nós, mas dois braços abertos. Veio para tornar leve e fresca a religião, a tirar-nos pesos das costas e a dar-nos as asas de uma fé que liberta. Jesus é um libertador de energias criativas, e por isso é amado pelos pequenos e oprimidos da Terra.
Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, isto é, aprendei do meu coração, da minha maneira de amar delicada e indómita. Dele aprendemos o alfabeto da vida; na escola do coração, a sabedoria do viver.
Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins