Começa neste domingo o “discurso em parábolas” do capítulo 13 do Evangelho de Mateus. Trata-se do terceiro discurso de Jesus, depois do discurso inaugural “da montanha” (caps. 5–7) e do “discurso missionário” do envio dos apóstolos em missão (cap. 10). Este discurso é composto por sete parábolas. (...) [Foto: O semeador, de Vincent Van Gogh (1888)].
Todos os dias são tempo de sementeira!
“Eis que o semeador saiu a semear.”
Mateus 13,1-23:
Começa neste domingo o “discurso em parábolas” do capítulo 13 do Evangelho de Mateus. Trata-se do terceiro discurso de Jesus, depois do discurso inaugural “da montanha” (caps. 5–7) e do “discurso missionário” do envio dos apóstolos em missão (cap. 10). Este discurso é composto por sete parábolas. As primeiras quatro são dirigidas à multidão — o semeador, o joio, o grão de mostarda e o fermento — e as outras três aos discípulos: o tesouro, a pérola e a rede. Sete parábolas para apresentar “os mistérios do reino dos céus” (13,11).
A expressão “reino dos céus”, “reino de Deus” ou simplesmente “o reino” aparece cerca de cinquenta vezes no Evangelho de Mateus: a primeira vez na boca de João Batista (3,2) e a segunda nos lábios de Jesus: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (4,17). O reino é o tema da pregação de Jesus, o objetivo da sua vida e da sua missão. O que é o Reino de Deus? Jesus expõe-no através destas parábolas.
O que é uma parábola? É uma narrativa que, partindo de um facto, de uma história verosímil ou de uma realidade da vida quotidiana, pretende transmitir, de modo simbólico, uma mensagem mais profunda, por vezes misteriosa, que exige um esforço de interpretação. Jesus usou frequentemente as parábolas na sua pregação. É preciso distinguir, porém, entre parábola e alegoria. Na alegoria, cada elemento narrativo tem um significado específico; na parábola, pelo contrário, é preciso procurar sobretudo o sentido global.
1. A parábola do otimismo e da esperança
A parábola do semeador é uma das mais conhecidas do Evangelho, “a mãe de todas as parábolas”, como a definiu o Papa Francisco. O trecho tem três partes distintas: na primeira, o relato da parábola (vv. 1-9); na segunda, a razão pela qual Jesus fala em parábolas (vv. 10-17); na terceira, uma explicação alegórica da parábola (vv. 18-23).
Esta parábola situa-se num momento delicado da vida de Jesus, quando começava a desenhar-se o aparente fracasso da sua missão. Neste ponto perguntamo-nos: porque parece o mal triunfar sempre? Porque é que o bem tem tanta dificuldade em criar raízes no mundo e no coração das pessoas?
Dir-se-ia que a resposta da parábola é esta: tudo depende da qualidade do terreno sobre o qual a semente é lançada. A intenção principal, porém, não é tanto convidar-nos a perguntar que tipo de terreno é o nosso coração, mas antes encorajar os discípulos — e a nós — a anunciar o Evangelho “na esperança de que haja, em algum lugar, terra boa” (São Justino).
Os obstáculos, a oposição e a rejeição que a Palavra encontra podem levar-nos ao pessimismo. Pois bem, Jesus encoraja-nos a continuar a anunciar a Palavra, confiantes na sua fecundidade extraordinária, prodigiosa, até ao cento por um. De facto, no solo palestiniano, o máximo que se podia esperar era o dez por um: de um grão de trigo, uma espiga com dez grãos!
2. O princípio “capitalista” do espírito
À pergunta dos discípulos: “Porque lhes falas em parábolas?”, Jesus parece responder de modo discriminatório: “Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não é dado”. Como é possível? Parece que Jesus fala de propósito em parábolas para não se fazer compreender, quando seria de esperar o contrário. Na realidade, trata-se de um “semitismo”, isto é, de um modo típico de falar, entre a ironia, a tristeza e a desilusão, diante do fechamento dos corações.
Impressiona-me a afirmação de Jesus: “Pois àquele que tem, será dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. É aquilo a que eu chamaria o “princípio capitalista” do espírito: tal como o dinheiro corre para quem tem muito e desaparece dos bolsos do pobre, assim acontece no âmbito do espírito. Quanto mais tens, mais graça receberás; quanto menos tens — por preguiça, negligência ou fechamento do coração — tanto menos terás.
No domingo, muitos milhares de pessoas escutarão esta Palavra nas nossas igrejas: uma parte sairá enriquecida, a outra empobrecida. Mas ninguém ficará igual a antes, porque uma oportunidade perdida contribui para a “esclerocardia” espiritual, isto é, para o endurecimento do coração, que se torna cada vez mais insensível à Palavra.
3. A explicação alegórica da parábola
“Vós, portanto, escutai a parábola do semeador…”. O evangelista atribui a Jesus a explicação alegórica da parábola. Na realidade, talvez se trate de uma aplicação sua à vida concreta da comunidade de Mateus.
Podemos perguntar-nos: como é que o semeador espalha o trigo pelo caminho, em terreno pedregoso e entre os espinhos, em vez de o semear diretamente na terra boa? É preciso saber que, na Palestina, primeiro se semeava e só depois se lavrava, para enterrar a semente. Esperava-se que o arado desfizesse o caminho marcado pelos transeuntes, levantasse as pedras e arrancasse os espinhos.
Permiti-me acrescentar outro elemento alegórico: neste caso, o que é o arado? Será talvez o da cruz de Cristo, que, escavando no nosso coração, o torna terra boa? Aliás, o arado era feito de madeira, com uma ponta de ferro! Nós iludimo-nos pensando que podemos evitar todo o sofrimento, contornar a cruz, mas “temos de entrar no reino de Deus através de muitas tribulações” (Atos 14,22).
Deixo-vos a tarefa de vos confrontardes com a Palavra e de vos interrogardes sobre o tipo de terreno que é o vosso coração. Talvez a resposta nos deixe um pouco desolados. Que nos conforte, então, esta citação do dramaturgo irlandês Samuel Beckett: “Sempre tentei. Sempre falhei. Não importa. Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor!”.
Conclusão: “Eis que o semeador saiu a semear!”
“Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar”. Esta Palavra encontrará alguns de vós enquanto desfrutais de um merecido tempo de descanso. Pois bem, Jesus virá também até vós! Encontrareis um pouco de tempo para o escutar?
Não esqueçamos, contudo, que os semeadores são muitos. Atenção às sementes de joio que as mãos do maligno semeiam abundantemente no nosso coração, especialmente de “noite”. Façamos como a esposa do Cântico dos Cânticos: “Eu durmo, mas o meu coração vela” (Ct 5,2).
Por fim, recordemo-nos de que também nós somos semeadores. Todas as manhãs, antes de sair, abasteçamos a nossa pequena mochila para semear a boa semente por onde quer que passemos. Todos os dias são tempo de sementeira!
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
Escutar a vida em profundidade
Mateus 13,1-23
Queridos irmãs e irmãos,
Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira mar. Nós colhemos as imagens principais de Jesus em movimento. Jesus é um itinerante, é um pregador itinerante. Ele diz: “As raposas têm as tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.” Mas, a verdade é que Jesus também dormia em determinados lugares, também era acolhido em casa dos Seus amigos.
Há uma questão que se levanta a partir desta passagem do Evangelho de Mateus, que é a questão: Jesus teve uma casa ou não? Ou viveu na casa dos pais e depois viveu onde calhava? Ele tinha uma casa ou não? Nós não sabemos. Não podemos dizer: não, não tinha. E não podemos dizer: sim, tinha. Mas, esta passagem do evangelho de Mateus deixa-nos com a pergunta quando se diz: “Jesus saiu de casa.” Mas da casa de quem? “Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira mar.”
Possivelmente, durante um tempo, ali em Cafarnaum, quando ele começou a Sua vida pública Ele tinha uma casa ou alugou uma casa ou tinha permanentemente uma casa. Mas, para nós o importante não é apenas a casa mas é este movimento: Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira mar. Foi sentar-Se à beira mar também pelas mesmas razões que nós vamos neste período sentar-nos à beira mar, porque está muito calor, não se consegue viver fechado dentro das casas muito tempo. E então, Jesus foi procurar a brisa do mar, a frescura do mar.
Este tempo de férias é também um tempo de procura, no sentido de que a nossa alma, o nosso coração, precisa de outros caminhos, precisa de outros espaços, precisa de uma vastidão. Nós não somos feitos para o ar condicionado ou para a vida condicionada. Nós somos feitos, como lembra S. Paulo na Carta aos Romanos, para o incomparável. Isto é, para aquilo que não tem comparação. Nós fomos feitos para o infinito. Quer dizer, nós sentimos que a nossa vida está numa gestação. Nós sentimos que há umas dores de parto e que essas são a nossa vida, e que estamos a gerar e, ao mesmo tempo, a ser gerados, estamos a criar e a ser recriados. Mesmo quando só parece que temos a vida sonâmbula, ofegante, as tarefas, as rotinas, as obrigações, os deveres, as coisas que se impõem. Mesmo quando parece que o nosso horizonte é cada vez mais curto, breve, imediato, que é aquilo, que não pode ser outra coisa, que não podemos ter ilusões. Mesmo quando parece que a vida se estreita, se afunila, o nosso coração é feito para coisas incomparáveis. E ele está-nos sempre a dizer isso, a nossa alma está sempre a dizer isso.
Por isso, nós precisamos de subir aos montes, precisamos de ir olhar o mar, precisamos de contemplar a natureza, precisamos de estar parados, só a receber, precisamos do confronto com o silêncio, precisamos de ver, de tatear, de cheirar, de degustar uma medida que seja maior do que a vida pequenina, do que a vida minúscula, do que a vida que se escreve por estreitas sílabas. Precisamos de mais. “Jesus saiu de Sua casa e foi sentar-Se à beira mar.”
Mesmo se não temos oportunidade de sentar-nos à beira-mar, mesmo se não temos oportunidade de fazer férias, por qualquer que seja a razão, é importante na nossa vida haver uma deslocação. É importante sentarmo-nos a contemplar, é importante sairmos do nosso lugar habitual, nem que seja para visitar o parque, visitar o nosso lugar interior e dar lugar a essa experiência de que somos feitos para coisas incomparáveis.
“Jesus sai da Sua casa e vai sentar-Se à beira mar.” E ali há uma parábola, Jesus conta uma parábola e a multidão senta-se à beira do lago a escutar. Quando nós vamos de férias o que é que vamos fazer? Às vezes parece que enchemos tudo, enchemos o carro e vamos evadir, vamos fugir, vamos esquecer, vamos distrair, vamos submergir no mundo num espaço que não nos lembre a vida, não queremos pensar. E é o contrário, as férias são um tempo favorável para a escuta profunda, é uma oportunidade para eu escutar, para eu sentir que há uma parábola que me está a ser contada. E o que é que estás a ouvir? É interessante a parábola que Jesus conta porque é, no fundo, a parábola da vida. Do que é que eu estou a ser, do que é que eu estou a viver, como é que eu estou a abraçar a vida ou a deixar simplesmente passar ao lado? Como é que eu estou a ser? Fecundo ou estéril? Como é que eu estou a produzir, a multiplicar a vida? Ou, pelo contrário, como é que eu estou a enterrar, como é que eu a estou a diluir? Jesus conta esta parábola que é a parábola da nossa vida e que é a parábola de um tempo de balanço.
Porque Deus passa sempre na nossa vida, o semeador passa a semear. Todos os dias nós recebemos sementes, oportunidades. Cada dia é uma oportunidade, cada encontro é uma viagem, hoje pode ser o dia da salvação. Hoje jogam-se as coisas mais importantes da minha vida. O semeador passa a semear, e ele vai passando a sua semente e a semente cai em lugares diferentes, lugares diferentes da nossa própria vida, porque nós somos tudo isto ao mesmo tempo. Nós somos este caminho, a semente perde-se no caminho. Há tantas coisas que nós ouvimos e entram a cem e saem a mil, e nós parece que ouvimos mas não ouvimos porque já estávamos de costas, já não percebemos bem. A vida está cheia de coisas que nós devíamos ter escutado e não escutamos. Muitas vezes, a dor, o peso é isso: o que eu devia ter escutado a dada altura e não escutei, foi-me dito e eu não ouvi. Não estava aí, estava noutra, estava a caminhar e a semente perde-se.
E há outra semente que é deitada em sítios pedregosos. E parece que acontece um milagre porque ela floresce logo, mas depois não tem raiz em si mesma. Nós também sentimos que muitas vezes é assim. Há entusiasmos, há coisas pompeantes, há alegrias, há coisas que parece que agora é que vai ser, que agora é que é. Mas depois nós não cuidamos da nossa raiz, não damos tempo, não amadurecemos, não fazemos um caminho bom. E então, como não há uma fidelidade, não há um permanecer, aquele entusiasmo muito vigoroso, muito prometedor, acaba por morrer.
Outras sementes são colocadas entre espinhos e quando crescem ficam sufocadas. E Jesus diz: “É a nossa vida, andamos preocupados com as tarefas, andamos seduzidos pela riqueza, por isto e por aquilo e não damos espaço, sufocamos dentro de nós a vida.” Vejam que responsabilidade nós temos em relação à nossa própria vida porque não damos ar, não permitimos, não permitimos muitas vezes que a palavra de Deus cresça dentro do nosso coração. Não damos espaço, é tudo cheio de espinhos que sufoca esta vitalidade do Espírito em nós.
E, por fim, há a semente que cai em terra boa. E o nosso coração também é uma terra boa. É importante sentirmos isso e confiarmos nisso, confiarmos nisso. Este pobre coração, esta pobre vida que é a nossa, esta vida vulnerável, frágil é também ao mesmo tempo uma terra boa, é um lugar onde é possível, é possível. E precisamos de acreditar nisso, que a semente pode cair e dar fruto. Pode dar três ou trinta, pode dar um ou cem. Não importa. Ela vai dar fruto, vai dar fruto.
Jesus saiu da Sua casa e foi à beira mar, escutar a vida em profundidade. E é no fundo isto que nós precisamos fazer, este exercício. Não nos deixemos empurrar por esta sociedade do consumo que nos atordoa com isto e aquilo, e sobretudo não quer que a gente pare nunca, que a gente mergulhe nunca na sua vida interior. Não, há uma parábola que nos está a ser contada e que nós precisamos de escutar, e essa parábola é a nossa própria vida e é aquilo que nós estamos a fazer da nossa própria vida, é a atitude que temos para com a nossa própria vida.
Que ela seja a terra boa na qual o Semeador passa e tem a confiança de que aquela semente não é em vão. Isso que a imagem do profeta Isaías que hoje nós ouvíamos nos diz e uma forma tão maravilhosa: “Assim como a chuva e a neve descem do céu e não voltam para lá sem terem regado a terra, assim a Palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito.” Deixemos que o efeito de Deus, o efeito da Sua Palavra, nos transforme, faça acontecer dinamismos de vida, de afetos, de esperança dentro de nós. E que este tempo que vamos viver seja um tempo de graça, um tempo para escutar a vida em profundidade.