Os trechos do Evangelho deste domingo e do próximo pertencem ao IV discurso de Jesus segundo São Mateus: o discurso eclesial ou comunitário (Mateus 18). [...]

Correção fraterna, uma questão de sinfonia!

Se o teu irmão cometer uma falta…
Mateus 18,15-20

Os trechos do Evangelho deste domingo e do próximo pertencem ao IV discurso de Jesus segundo São Mateus: o discurso eclesial ou comunitário (Mateus 18). Recordemos os anteriores: o primeiro, o discurso da montanha (cap. 5-7); o segundo, o discurso missionário (cap. 10); o terceiro, o discurso das parábolas (cap. 13). Neste quarto discurso, Mateus reuniu alguns ensinamentos de Jesus sobre a vida da comunidade eclesial.

A passagem de hoje trata da “correção fraterna”, no caso de um pecado grave que impede a comunhão fraterna. O texto chegou até nós em duas variantes: uma mais breve, que põe maior ênfase na dimensão eclesial: “Se o teu irmão cometer uma falta”; e outra mais longa, que acrescenta “contra ti”, falando, portanto, de uma ofensa pessoal (a versão escolhida pelo texto litúrgico). A passagem reúne três ensinamentos de Jesus, estreitamente interligados. As três leituras deste domingo são, aliás, facilmente relacionáveis entre si e lançam uma luz adicional sobre o Evangelho: o profeta Ezequiel é colocado como sentinela responsável pelos seus irmãos (Ezequiel 33), enquanto São Paulo proclama a caridade como plenitude da Lei (Romanos 13,8-10).

A arte da correção fraterna

A correção fraterna é uma arte que exige caridade e delicadeza, inteligência e tato. Acho difícil falar de correção fraterna. Por três razões. A primeira, pela dificuldade inerente a esta tarefa. A segunda, porque, durante séculos, nós, padres, nos arrogámos indevidamente esta missão como um nosso “direito”, quando ela é um dever de todo batizado; além disso, exercemo-la de maneira desajeitada e, por vezes, desastrosa. Portanto, mais do que corrigir, deveríamos deixar-nos corrigir! A terceira, porque hoje falar de correção não é “politically correct”; corremos o risco de ir contra a “privacidade” de cada um e de sermos repreendidos por nos metermos nos assuntos alheios. Assim, movemo-nos num campo minado e preferimos refugiar-nos na crítica, na fofoca ou na indiferença!

1. Uma operação de salvamento!

POR ONDE começar? Pelo versículo que precede imediatamente a passagem de hoje: “É vontade do vosso Pai que está nos céus que nenhum destes pequeninos se perca” (v. 14). Como ponto de partida encontramos, portanto, a vontade salvífica do Pai. Trata-se de uma “pedagogia de recuperação” (Papa Francisco). E o objetivo é “ganhar o irmão” (v. 15). Recuperar um filho e ganhar um irmão! Trata-se de uma operação de… salvamento!

O QUE fazer concretamente? Jesus sugere um método articulado em três etapas graduais, introduzidas pela partícula “se” (cinco vezes): primeiro a sós, depois, eventualmente, com uma ou duas testemunhas e, por fim, se necessário, fazendo intervir a comunidade, até ao caso extremo da constatação da autoexclusão do irmão ou da irmã da comunidade: “Seja ele para ti como o pagão e o publicano”. Isto, contudo, não significa excluir essa pessoa do amor fraterno, porque Jesus era amigo de publicanos e pecadores.

2. Um ato de fraternidade

COMO fazer? Qual é a condição essencial para fazer a correção? A fraternidade! Fazer-se irmão!

A palavra “irmão” no Evangelho de Mateus tem uma importância particular. É interessante notar que, geralmente, vem acompanhada de um possessivo: “meu irmão”, “teu irmão”, “meus irmãos”… O evangelista quer sublinhar o valor relacional que está no centro da mensagem de Jesus: “um só é o vosso Pai” e “vós sois todos irmãos” (Mateus 23,8-9). Cristo é o Filho primogénito de uma multidão de irmãos (Romanos 8,29).

O amor está no centro da relação: “Irmãos, não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo” (Romanos 13,8, segunda leitura).

Caridade e verdade caminham de mãos dadas, mas a caridade é a irmã mais velha. Na correção fraterna, colocar a verdade em primeiro lugar é como expor alguém ao sol do meio-dia: corre-se o risco de cegar quem é conduzido para fora do quarto escuro do erro. A caridade, pelo contrário, é como a aurora que conduz progressivamente para a luz plena.

3. Uma questão de sinfonia!

AONDE leva a correção fraterna? À sinfonia da comunhão fraterna! “Se dois de vós, na terra, se puserem de acordo para pedir qualquer coisa…”.

O verbo grego usado por Mateus para “pôr-se de acordo” (symphonei) pertence à mesma família da nossa palavra “sinfonia”: poderíamos quase traduzi-lo, sugestivamente, por “sinfonizar”! A comunidade é como uma orquestra em que cada um executa a sua parte e toca o seu instrumento. Cada um acrescenta uma nota ou um som particular que enriquece a beleza global da sinfonia. Se alguém desafina, toca mal ou perde o ritmo, não é excluído, mas é “corrigido”. O Pai, que ama a “sinfonia” criada pela presença do seu Filho, escuta de bom grado a comunidade que reza em harmonia. E o céu entra em sintonia com a terra: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”.

Pode acontecer, porém, que alguém queira impor a própria voz ou sobrepor-se aos outros instrumentos, causando desarmonia e confusão; ou que alguém pretenda ser capaz de tocar todos os instrumentos e dispensar a colaboração dos outros. Tal protagonismo acaba por gerar nos outros passividade, apatia e descompromisso.

Infelizmente, mesmo naquele momento privilegiado de “sinfonia” que deveria ser a Eucaristia, muitas vezes falta este “pôr-se de acordo”, este “sinfonizar”. Às vezes, reza-se ou celebra-se uns ao lado dos outros, simplesmente justapostos. Repetem-se as mesmas orações e os mesmos gestos, mas não há “um só coração e uma só alma” (Atos 4,32). Além disso, o presbítero que preside à Eucaristia, e que deveria ser como o “maestro da orquestra”, acaba muitas vezes por ser quase o único protagonista, monopolizando grande parte da celebração. Temos realmente uma necessidade urgente de sinodalidade, de caminhar juntos como povo de Deus.

Reflexão para a semana

Convido-vos a meditar e a aplicar a vós mesmos o versículo do Aleluia: “Deus reconciliou consigo o mundo em Cristo, confiando-nos a palavra da reconciliação” (2 Cor 5,19). A vocação do cristão é reconciliar!

P. Manuel João Pereira Correia, mccj

Ser e viver juntos!

Ez 33, 7-9; Rm 13, 8-10; Mt 18, 15-20

Hoje começa o quarto dos cinco discursos de Mateus e diz respeito à Igreja, à vida em comunidade. A grande questão à qual esse discurso quer responder é a seguinte: como garantir a unidade da Igreja, uma vez que é composta de homens e mulheres diferentes, limitados e frágeis? Em relação à leitura do Evangelho de hoje e da primeira leitura, tirada do profeta Ezequiel, há um perigo que nos espreita na interpretação literal e legalista desses textos, o de que a interpretação contradiz a mensagem do evangelista Mateus.

1. A responsabilidade cristã. Infelizmente, durante muito tempo esta passagem foi chamada de “A correção fraterna”. Esta expressão tem necessariamente uma conotação negativa e pejorativa de punição. Parece-me que o termo mais apropriado seria “O viver juntos dos discípulos” e “A responsabilidade cristã”, ou seja, alguns que se encarregam de outros, respeitando a individualidade de cada um. Além disso, deve-se notar que Mateus está se referindo aqui a nenhuma estrutura hierárquica de sua Igreja do primeiro século… O que significa que a responsabilidade pelo ser juntos e pelo viver juntos dos discípulos é confiada a todos os membros da Igreja, a todos os cristãos, para garantir a unidade de toda a Igreja.

Basicamente, Mateus não reconhece um poder específico aos dirigentes para garantir a unidade da Igreja; ele reconhece, no entanto, uma responsabilidade partilhada de todos os discípulos da Igreja do seu tempo. Cabe a cada cristão trabalhar para construir a unidade, e isso só é possível se cada um for responsável pelo outro, pelos outros…

2. Tornar-se vigia. Mas como garantir a unidade da Igreja, uma vez que todas e todos somos seres humanos limitados e frágeis? Existe uma expressão na primeira leitura de hoje que é muito bonita, mas que precisa ser explicada: cada crente é chamado a ser um “vigia”, missão confiada ao profeta Ezequiel, na primeira leitura de hoje. O que significa ser vigia? (Ez 33, 7).

Ser vigia não é espionar as pessoas para encontrar nelas falhas ou culpas, a fim de denunciá-las e puni-las. Se este for o sentido que lhe dermos, ele supõe que ela ou ele que vigia é perfeito e nele não há nada que precise ser reprovado. Esse é, geralmente, o comportamento dos legalistas e fariseus. Ser vigia significa ser um sentinela para os outros para protegê-los dos perigos que os ameaçam. Isso também supõe que a pessoa que desempenha esse papel, reconhece suas próprias limitações e pode compartilhar sua experiência com os outros, respeitando a sua liberdade. Mateus, no seu evangelho, oferece uma caminhada em três tempos…

3. Um vigia cristão. Quando um irmão ou irmã, portanto um discípulo, cometeu um pecado, não uma falha pessoal, mas um ato que rompe a unidade da comunidade (Mt 18, 15a), Mateus oferece um processo em três etapas.

Primeira etapa: “Vá e mostre o erro dele, mas em particular, só entre vocês dois” (Mt 18,15b). O resultado desta abordagem dependerá da atitude que eu tiver para com o meu irmão ou minha irmã: se eu pedir para encontrá-lo com uma atitude condescendente e desdenhosa em relação a ele por sua ação, é evidente que eu devo passar diretamente

para a segunda etapa. Entretanto, se eu me reconheço tão frágil quanto ele e eu me mostro cheio de compreensão e compaixão para com ele, haverá boas chances de que o problema será resolvido rapidamente.

Segunda etapa: “Se ele não lhe der ouvir, tome com você uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas” (Mt 18, 16). Novamente, esta reunião de várias pessoas pode ser bem sucedida, se a palavra de duas ou três testemunhas for uma mensagem de reconciliação e de amor. O amor é a única dívida que devemos ter para com os outros: “Não fiquem devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo. Pois quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei” (Rm 13, 8). Se um irmão ou irmã, culpado de ter quebrado a unidade da comunidade, não se sente amado por aqueles que vêm para reconciliá-lo, é óbvio que passamos automaticamente para a terceira etapa. Mas se ele sente que é ouvido e compreendido, é provável que o conflito seja resolvido ali mesmo.

Terceira etapa: “Caso ele não dê ouvidos, comunique à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos” (Mateus 18, 17). Infelizmente, esta etapa nem sempre foi bem interpretada na Igreja. Por muito tempo, serviu para justificar as condenações, os julgamentos, as exclusões e as excomunhões na Igreja… E, portanto, se Mateus nos convida a considerar um irmão ou irmã, no final do processo, como um pagão ou um publicano, todos nós sabemos qual o lugar que os gentios e os cobradores de impostos ocupam no coração do Cristo ressuscitado. Ele os prefere aos outros, de sorte que ele nunca hesitou em recomendá-los, em dar-lhes um exemplo e em incluí-los na comunidade.

Deve ser visto como um convite a nos redobrar de empatia, de compaixão, de reconciliação e de amor por um irmão ou irmã, tornado pagão ou publicano. Tanto mais que a parábola que precede o relato de Mateus de hoje é a parábola da ovelha perdida e reencontrada (Mt 18, 10-14), que termina da seguinte maneira: “Do mesmo modo, o Pai que está no céu não quer que nenhum desses pequeninos se perca” (Mt 18, 14). E a passagem que segue é a resposta dada a Pedro que pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar seu irmão (Mt 18, 21). Jesus respondeu: “Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18, 22)… Portanto, o perdão é ilimitado e incondicional.

4. Uma Igreja da reconciliação e da inclusão. Ao longo dos Evangelhos, a mensagem do Cristo ressuscitado é um convite à reconciliação, ao perdão, à partilha, à inclusão, ao respeito, à liberdade, à justiça, à paz, à esperança e ao amor… e o evangelista Mateus parece reconhecer em todos os cristãos o poder de perdoar ou de reter o perdão: “Eu lhes garanto: tudo o que vocês ligarem na terra, será ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra, será desligado no céu” (Mt 18, 18). Esta frase não é um convite para recusar o perdão; ela diz simplesmente que os discípulos de Cristo têm a capacidade de recusá-lo, assim como eles têm a capacidade de oferecê-lo gratuitamente… Não é isso que Cristo fez e ele nos convida a fazer hoje?

Portanto, à questão, pode-se excluir alguém da comunidade, da Igreja?, penso que a resposta é “não”! Em nome do Evangelho que nós servimos! É como a violência: não se pode combatê-la senão pela não-violência; caso contrário, criamos situações piores do que aquelas que queremos denunciar e corrigir. Para ilustrar meu propósito, vou concluir justamente com uma passagem de um mestre da não-violência, Lanza del Vasto, que disse: “Se você retribui o mal com o mal, não repara o mal, você o aumenta. Como você pode chamar bem, o mal que faz? Se, para punir o assassino, você o mata, isso não vai trazer de volta a vida à sua vítima. Isso provocaria duas mortes em vez de uma e dois assassinos, ele e você… Como você pode acreditar que é uma maneira de estancar o mal, enquanto você mesmo acrescenta um elo ao qual outros vão se somar? Porque o perdedor aguarda a sua hora para se vingar. E se você acabar com ele, seu irmão irá vingá-lo. Se você o reduzir à servidão, você se verá ligado à outra extremidade da sua corda. A violência é um encadeamento. Quem pensa se libertar por ela, forja sua próxima cadeia… Só a não-violência é solução eficaz, ruptura da cadeia de libertação. Mesmo se o adversário for tão teimoso e tão errante que você não possa chegar ao fim, a luta vai lhe forçar a vitórias sobre si mesmo, a experiências e descobertas interiores, cujos frutos irá colher”.
José Tolentino Mendonça