Há já cinco domingos que Jesus nos fala através de parábolas. A de hoje – a dos convidados para as bodas do filho do rei – é a terceira dirigida aos chefes religiosos e aos responsáveis do povo, depois das parábolas dos dois filhos enviados a trabalhar na vinha e dos vinhateiros homicidas.

Convites recusados, convites acolhidos e convites traídos

«Tudo está preparado; vinde às bodas!»
Mateus 22,1-14

O contexto de tempo e lugar em que Jesus conta estas três parábolas é particularmente significativo e dramático. Estamos no templo, no dia seguinte à sua entrada solene em Jerusalém. Para nos entendermos, estamos na… Segunda-feira Santa. É a última oportunidade para sacudir a alma do povo e dos seus chefes políticos e religiosos e levá-los a tomar consciência da gravidade da hora.

1. Uma parábola estranha e inverosímil

A parábola de hoje recorda-nos a dos vinhateiros homicidas do domingo passado. Neste caso, porém, apresenta-se mais complexa. A narrativa parece reunir dois núcleos parabólicos: o dos convidados para as bodas (vv. 1-10) e o da veste nupcial (vv. 11-14). Para o perceber, basta ler a versão de São Lucas, onde a mensagem é muito mais simples e direta (cf. Lucas 14,15-24). São Mateus quis acrescentar à parábola do chamamento universal dirigido a todos, tal como apresentada por São Lucas, uma segunda parte destinada à comunidade cristã, tornando a narrativa mais complexa e, em certos aspetos, inverosímil.

A parábola fala de um banquete preparado por um rei para as bodas do seu filho, portanto de uma ocasião de festa e alegria. Na narrativa, porém, são introduzidos três elementos anómalos que contrastam com o ambiente festivo: 1) a recusa e até a reação violenta dos primeiros convidados; 2) o envio do exército para matar os assassinos e incendiar a sua cidade; 3) quando a sala está finalmente cheia de novos convidados, recolhidos nas encruzilhadas, a dura intervenção do rei contra um deles, que não trazia a veste nupcial.

Como compreender a parábola?

Na primeira parte, dirigida aos chefes políticos e religiosos de Israel, São Mateus parece apresentar, de forma alegórica, a história da salvação. Os dois primeiros grupos de servos representam os profetas enviados ao povo de Deus, talvez antes e depois do exílio. A cidade incendiada pode evocar a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. O terceiro grupo de enviados representaria os apóstolos e os missionários, enviados ao mundo para convidar todos a entrar no banquete do Reino.

A segunda parte da parábola, a do convidado sem a veste nupcial, parece, pelo contrário, dirigir-se à comunidade cristã como uma advertência sobre as condições necessárias para participar no banquete.

Qual é a mensagem da parábola?

A primeira parte revela o chamamento universal de Deus, agora dirigido a todos, maus e bons, sem excluir ninguém. O convite de Deus ultrapassa todas as fronteiras e alcança agora todos os povos: «Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Marcos 16,15). Assim se realiza o que Isaías profetizou: «O Senhor do universo preparará para todos os povos, neste monte, um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos excelentes, de carnes saborosas, de vinhos purificados» (cf. primeira leitura, Isaías 25,6-10).

A segunda parte da parábola, porém, sublinha que não basta acolher o convite: é preciso converter-se, isto é, entrar em sintonia com a alegria das bodas messiânicas do Filho do Rei e participar da comunhão com todos os convivas.

Concentremos a nossa atenção nesta dupla mensagem.

2. Um convite à festa: Vinde às bodas!

«Eis que preparei o meu banquete… e tudo está pronto; vinde às bodas!»

Toda a Sagrada Escritura poderia ser relida à luz da palavra «convite»: um convite à festa, à alegria, à participação na vida de Deus, nas suas bodas de amor com a humanidade. Infelizmente, a visão predominante da vida como sofrimento e sacrifício distorceu a nossa perceção da existência e condicionou negativamente a nossa relação com Deus e a prática da fé.

A criação, o próprio facto de virmos à existência, é já um convite para o banquete da vida. Somos chamados à alegria e à partilha na fraternidade. Contudo, esta perspetiva da vida como convite não é partilhada por todos. Muitos preferem comportar-se como lhes apetece. Para eles, a vida é um assunto pessoal. Comportam-se com aquela atitude ávida e predatória de que falávamos no domingo passado. Alguns chegam mesmo a maltratar aqueles que lhes recordam que a vida é, pelo contrário, um convite de Deus a alegrarmo-nos juntos. O cenário de destruição e morte, consequência desta atitude, está diante dos olhos de todos. Aquilo que na parábola é apresentado, em linguagem metafórica, como castigo divino muitas vezes não é senão a consequência natural das nossas escolhas.

Eis a primeira mensagem da parábola: mudar a nossa perspetiva sobre a vida, sobre a vocação cristã e, de modo particular, sobre a Eucaristia, memorial de uma visão revolucionária da existência.

Não podemos deixar de constatar como, tantas vezes, as nossas celebrações estão longe de ser um banquete festivo. Como dar-lhes aquele toque de alegria e de festa? É difícil dizê-lo. Mas uma coisa podemos afirmar: tudo começa, antes de mais, por uma mudança de mentalidade e de coração em cada um de nós. O espírito da parábola leva-nos a pensar que o Reino de Deus não se parecerá com uma imensa catedral onde todos estejam recolhidos em adoração e contemplação, entoando cânticos angélicos. Faz-nos imaginar, antes, uma imensa sala cósmica onde se festeja numa simpática e agradável confusão!

Eis a urgente conversão da Igreja: abrir-se à novidade e à alegria do Espírito Santo. Então cada convidado tornar-se-á um «anjo», um enviado, um apóstolo, um missionário, e a sala do banquete encher-se-á!

3. Onde está a tua veste nupcial?

«Amigo, como entraste aqui sem a veste nupcial?»

Não sabemos com certeza a que costume concreto alude a veste nupcial na narrativa, mas parece que, no antigo Oriente, o rei oferecia aos convidados também uma veste para as bodas, talvez uma espécie de faixa festiva. A pessoa encontrada sem a veste nupcial, porém, tinha-a inexplicavelmente recusado, desonrando assim o convite.

O que é para nós a veste nupcial?

Alguns comentadores pensam na retidão moral, outros no compromisso cristão, especialmente na caridade e no serviço.

Convém, porém, evocar as ressonâncias bíblicas do tema da veste. Encontramo-lo no princípio, quando a humanidade toma consciência de estar nua e Deus a reveste com túnicas de pele (Génesis 3). Voltamos a encontrá-lo em Cristo nu na cruz, despojado das suas vestes. Finalmente, reaparece no Apocalipse, quando à esposa é dado «linho fino, resplandecente e puro» (19,8).

É particularmente útil recordar que, no Novo Testamento, a vida cristã é muitas vezes comparada à veste nova que se recebe no dia do batismo: «Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo» (Gálatas 3,27).

Ser encontrado sem a veste nupcial pode, portanto, significar querer participar no «banquete» à nossa maneira, vestindo a roupa habitual dos velhos hábitos. Mas não podemos apresentar-nos com os farrapos da vida antiga. Também não basta pôr um remendo de tecido novo num vestido velho (Lucas 5,36). O convite pode ser exteriormente acolhido, mas traído na vida.

A parábola termina com a advertência de Jesus: «Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos». Todos são chamados, mas poucos acolhem o convite a deixar-se «revestir do Senhor Jesus Cristo» (Romanos 13,14).

Não basta responder ao convite: é preciso honrá-lo!

P. Manuel João Pereira Correia, mccj

O número dos «escolhidos»

Referências bíblicas
  • 1ª leitura: O Senhor dará um banquete, eliminará a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces (Isaías 25,6-9)
  • Salmo: Sl. 22(23) – R/ Na casa do Senhor habitarei eternamente.
  • 2ª leitura: “Tudo posso naquele que me dá força” (Filipenses 4,12-14.19-20)
  • Evangelho: “Convidai para a festa todos os que encontrardes” (Mateus 22,1-14 ou 1-10)

Convidados para a festa

Notemos em primeiro lugar que o Reino de Deus, o poder divino sobre todas as coisas, apresenta-se como uma festa: os trabalhos cessam, para se entregar à alegria. Pensemos nas núpcias do Cordeiro, em Apocalipse 21. Núpcias de Deus com a humanidade, para que, com Ele, tornemo-nos uma só carne. Nesta parábola, somos apenas convidados, mas outros textos dirão que fazemos somente um com o Filho. Em todo caso, aqui somos convidados para um banquete. Sabemos a importância do alimento na Bíblia.

Este tema é abordado desde o primeiro capítulo de Gênesis, no versículo 29. E continua: logo no capítulo 2, lemos que quem come do fruto da árvore proibida, para fazer a experiência do mal, morrerá. No outro extremo da Bíblia, as coisas se invertem. Temos ali uma nova árvore, na qual se afixa o espetáculo do nosso mal, da nossa loucura homicida, e a revelação do bem absoluto, do amor que leva o Filho a dar a própria vida, para que dela vivamos. Desta vez, ao contrário de Gênesis 2, quem come do fruto desta árvore viverá, e quem se recusa a comer dele, morrerá (reler João 6). Não precisamos retomar todos os textos das Escrituras que colocam o tema do alimento e da refeição em primeiro plano, como o Maná, a mesa preparada no deserto de sede e de fome (Salmo 78,29). Concentremo-nos somente em que a cruz é o leito nupcial das bodas do Filho com a humanidade, e que o banquete de núpcias torna-se Eucaristia, ou seja, Ação de Graças.

Os convites

Acabo de dizer que somos ao mesmo tempo os convidados e os esposados. Quando dizemos

«esposados», queremos insistir em que, no Filho, Deus vem fazer Sua a nossa carne. E quando dizemos «convidados», queremos sublinhar que isto não se produz sem o assentimento da nossa liberdade. É preciso que, de nossa parte, haja um deslocamento em resposta ao «deslocamento» realizado por Deus, que veio juntar-se a nós. É indispensável o nosso «sim», como eco do «sim» de Maria no «relato» da Anunciação. Nesta parábola, nos é dito que os primeiros convidados, os que o Rei havia escolhido, recusaram o convite. Não vamos esquecer que, desde o princípio do capítulo 21, Jesus está se dirigindo aos sumos sacerdotes, aos anciãos do povo e aos fariseus. Temos aí os convidados que se esquivaram. No lugar deles, estarão presentes nas núpcias todos os desconhecidos, recrutados nas “encruzilhadas dos caminhos” das cidades e dos campos. “Todos os que encontrardes”, diz o texto, fazendo questão de precisar, “maus e bons”. O que pode surpreender! Mas, no fundo, a questão não está em ser bom ou ser mau: quem verdadeiramente pode pretender-se bom? De fato, a questão está em responder ou não responder ao convite: convite que é endereçado a todo o mundo. Recusar corresponde a desprezar o dom de Deus: dom de Si mesmo. Os primeiros convidados não se interessaram pelas núpcias propostas. Chegaram até mesmo a matar os que lhes transmitiram o convite. Prelúdio ao homicídio do Filho e de muitos que, mais tarde, irão anunciar o seu Evangelho.

O traje de festa

Surpreendente este Jesus. Poderíamos crer que a parábola terminaria com o convite aos que não têm nenhum título a fazer valer, para participarem do banquete de núpcias. E, no entanto, eis que se abre um novo capítulo; o da expulsão do homem que não se encontra vestido com o traje de festa! Alguns comentaristas falaram em «estado de graça», em retidão moral, etc. Penso que, de novo, é preciso evocar o tema das vestes no conjunto da Bíblia, sem mais inconvenientes que os de omissão e de resumo. É um tema que começa logo no início: em Gênesis 3, fala-se da vergonha de Adão e de Eva quando descobrem estarem nus. Nudez simbólica, com certeza: haviam projetado fazerem-se «como Deus» (versículo 5), e eis que se descobrem como a serpente (o «astuto», do versículo 1, pode também ser traduzido por «nu».) Despojados e sem defesa. É Deus quem finalmente os vestirá com “túnicas de pele” de animal: ei-los assim de volta à imagem desta animalidade que deveriam dominar. No outro extremo do relato bíblico, pregado na cruz, vamos encontrar o homem nu: seus algozes o haviam desnudado e repartiram entre si as suas vestes. A nudez, portanto, é o traje de festa que o Cristo usa em seu leito de núpcias com a humanidade. Penso ser a partir daí que devemos interpretar a imagem do homem excluído do banquete, nesta parábola. Não podemos alcançar a unidade com Deus a não ser se desprovidos de tudo, despojados, sem nenhum título que fazer valer. O dom de Deus não pode ser senão totalmente gratuito.
Marcel Domergue
Tradução: Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.