Nos domingos anteriores ouvimos como Jesus denunciou duramente os chefes religiosos e políticos através de três parábolas, atraindo sobre si a hostilidade deles: já tinham decidido eliminá-lo. [...]

A quem pertenço?

«Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus»
Mateus 22,15-21

Nos domingos anteriores ouvimos como Jesus denunciou duramente os chefes religiosos e políticos através de três parábolas, atraindo sobre si a hostilidade deles: já tinham decidido eliminá-lo. Agora procuram apenas um pretexto.

1. Uma armadilha bem arquitetada

«Os fariseus retiraram-se e reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. Enviaram-lhe então os seus discípulos, juntamente com os herodianos».

Herodianos e fariseus unem-se, embora sejam adversários entre si, com o objetivo de encontrar uma maneira de eliminar Jesus. Os discípulos dos fariseus começam por tecer um longo elogio ao «Mestre», antes de lhe apresentar a questão combinada com os herodianos: «Diz-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar o imposto a César?»
A armadilha estava bem montada. Se Jesus respondesse «sim», correria o risco de se indispor com o povo, que suportava mal o domínio romano. Se respondesse «não», poderiam acusá-lo de ser um subversivo.

2. Jesus, mestre do discernimento

Na resposta de Jesus podemos entrever, apesar da sua brevidade, uma verdadeira lição sobre o discernimento do cristão e, concretamente, quatro indicações preciosas também para nós.

1) LIBERDADE: «Hipócritas!»

Primeiro passo: Jesus manifesta-se como uma pessoa livre. Não se deixa conquistar pela adulação dos fariseus e desmascara a sua hipocrisia.
E é precisamente aqui que tantas vezes também nós tropeçamos. Deixamo-nos condicionar pelos elogios ou pela opinião dos outros, acabando por limitar a nossa liberdade e a nossa lucidez.

2) INTERROGAR: «Por que me quereis pôr à prova?»

Jesus responde muitas vezes a uma pergunta com outra pergunta. Fazer perguntas a quem nos interpela é uma maneira de o envolver, responsabilizar e convidar a refletir.
Uma atitude passiva diante dos problemas foi uma das limitações que marcaram parte do laicado católico, também como consequência de um clericalismo que, durante séculos, incidiu profundamente sobre a vida da Igreja. Também o modo de por vezes se apresentar como quem já possui todas as respostas pode ter contribuído para a dificuldade que a Igreja experimenta hoje no diálogo com alguns setores da cultura ocidental.
Parece-me que devemos aprender também a dizer: «Não sei». Significa reconhecer com humildade os nossos limites diante da complexidade e da novidade de muitas questões contemporâneas, sem renunciar à procura, mas colocando-nos sinceramente a caminho para compreender melhor.

3) OLHAR: «Mostrai-me a moeda do imposto»

Jesus dá um terceiro passo decisivo: olhar para a realidade concreta. Pede que lhe mostrem a moeda do imposto e, ao fazê-lo, desconcerta os seus interlocutores.
Aquela moeda, com a efígie de Tibério e uma inscrição de forte significado religioso, tornava visível o poder de Roma. O facto de ela estar presente precisamente na área do Templo punha ainda em evidência uma contradição manifesta, dada a desconfiança judaica perante imagens que podiam assumir um caráter idolátrico.
Assim, aqueles que queriam pôr Jesus à prova acabam por ser eles próprios confrontados com as suas contradições.

4) RECOLOCAR: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!»

O quarto momento consiste em recolocar a situação concreta dentro de um horizonte mais amplo. Com efeito, uma questão isolada e absolutizada corre o risco de se tornar uma verdade parcial e, precisamente por isso, enganadora. Só uma luz maior permite redimensioná-la e colocá-la na perspetiva justa.

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» é uma das frases mais famosas do Evangelho, mas também uma das mais enigmáticas. Muitas vezes é interpretada como se existissem dois âmbitos claramente separados: as «coisas terrenas» confiadas a César e as «coisas espirituais» reservadas a Deus.

Mas o que pertence a César? A César compete aquilo que diz respeito à vida civil: garantir a ordem, a paz social, a liberdade e a justiça.

E o que pertence a Deus? Tudo. «Eu sou o Senhor e não há outro; fora de mim não há Deus… Eu sou o Senhor, não há outro!» (Isaías 45,1.4-6).

Se a moeda traz a imagem de César e, por isso, pode ser devolvida a César, o ser humano traz impressa a imagem de Deus. É, portanto, a Deus que deve ser devolvido o ser humano inteiro. Aqui está a grande reivindicação de Jesus: «Dai a Deus o que é de Deus!»

Daqui nasce uma pergunta decisiva: a quem pertenço eu? A uma família, a uma profissão, a um grupo social, a um povo, a uma nação? Certamente. Mas Jesus recorda-nos que existe uma pertença mais profunda do que todas as outras: tu pertences a Deus.

3. O dinheiro de César e a moeda de Jesus

Permitam-me agora uma imagem um pouco ousada. O dinheiro do imposto a César faz-me pensar naquela moeda que Pedro, por indicação de Jesus, tira da boca do peixe para pagar o imposto do Templo (Mateus 17,24-27). Uma única moeda para Jesus e para Pedro: ambos, de algum modo, associados naquela moeda.

Que imagem simbólica poderíamos imaginar gravada nela? No anverso, a imagem de Cristo; no reverso, a de Pedro. A imagem de Cristo à frente e, atrás, a minha ou a tua. Duas faces da mesma moeda! Cada um de nós pertence a Cristo e Cristo… “pertence” a cada um de nós! (cf. 1 Coríntios 3,22-23).

Para a reflexão e a oração pessoal

Hoje, penúltimo domingo de outubro, a Igreja celebra o Dia Mundial das Missões. Instituído por Pio XI em 1926, celebra este ano a sua centésima edição. O Papa Leão XIV escolheu como tema: «Um em Cristo, unidos na missão». Convido-vos a ler a Mensagem do Santo Padre e, durante esta semana, a retomar a oração que encontramos na sua conclusão:

Pai Santo, concede-nos ser um em Cristo, enraizados no seu amor que une e renova. Faz com que todos os membros da Igreja estejam unidos na missão, dóceis ao Espírito Santo, corajosos no testemunho do Evangelho, anunciando e encarnando cada dia o teu amor fiel por todas as criaturas.
Abençoa os missionários e as missionárias, sustenta-os nos seus esforços, guarda-os na esperança!
Maria, Rainha das Missões, acompanha a nossa obra de evangelização em todos os cantos da terra: faz de nós instrumentos de paz e faz com que o mundo inteiro reconheça em Cristo a luz que salva. Amém.

P. Manuel João Pereira Correia, mccj

Um Messias como não se esperava

1Deus e César

Não seria correto acreditar que a passagem do evangelho que lemos hoje seja por si mesma evidente e sem nenhum problema. Pois ela, de fato, reúne algumas das questões mais embaraçosas que atualmente se põem aos cristãos: tem a nossa fé alguma coisa a dizer com respeito ao funcionamento das nossas sociedades laicas? Não será a «religião» um assunto totalmente privado? À primeira vista, Jesus parece manifestar-se neste sentido. Problemas de impostos, de legislação social etc. não dizem respeito à fé. Certa vez não disse ele que ninguém o estabelecera para ser juiz ou árbitro de nossas heranças (Lucas 12,13)? Digamos que, nas coisas e no desenrolar dos acontecimentos, há uma lógica que, para ser exercida, não carece de nenhuma referência a Deus. Logo adiante veremos o sentido que é preciso dar a esta afirmação. Mas devemos admitir que pessoas que nunca ouviram falar de Deus nem do Evangelho podem tomar decisões e levar toda uma vida conforme a justiça e a verdade. Assim, pois, sem que o saibam, são autênticos filhos de Deus. Não há necessidade de vivermos com o nariz sempre para cima, esperando que Deus nos venha inspirar em decisões sempre conformes à sua vontade, vontade que, em tal contexto, se põe como mítica. As coisas falam por si mesmas e submeter-se ao real equivale a submeter-se a Deus. César é o gestor – em princípio, justo – da nossa vida social. No horizonte, podemos ver aí a separação entre Igreja e Estado.

Lei de Deus, lei do que é humano

Percebemos que o que acaba de ser dito é um pouco sumário. Corremos de fato o risco de imaginar dois domínios totalmente separados: de um lado, o universo da fé; e, do outro, um universo totalmente profano. Mas como pensar que seja lá o que for possa escapar de Deus? Seria o mesmo que admitir não ser Deus o criador de tudo o que existe! Não ser Ele a fonte única do real! Ou que existissem coisas que lhe escapassem e que, por consequência, não fossem nem ilustração (imagem) nem revelação do que Ele é. Ora, as coisas todas falam de Deus, conforme nos explica Paulo na Carta aos Romanos 1,20, acompanhando Sabedoria 13. Nada escapa à sua Lei. Numa outra linguagem, digamos que nada pode existir sem se construir segundo o Amor. Muito abstrato tudo isso? Não acreditamos, porque encontramos aí a fonte e a justificação de todo o trabalho dos crentes, tendo em vista uma sociedade mais justa. Mas, para que isso soe verdadeiro, devemos dizer que não há valores especificamente cristãos ou, antes, que estes valores somente são cristãos na medida em que, ao mesmo tempo, são humanos, o que nos põe no mesmo nível de todos os homens de boa vontade. César não teria poder algum se não lhe fosse dado «do alto» (João 19,11), mas deve-se confiar em seu julgamento e decidir com liberdade, para agir segundo Deus. Então, dando a César o que é de César, neste mesmo ato, damos a Deus o que é de Deus.

Deus nos vem também por César

Podemos concluir de tudo isso que devemos trabalhar para que as nossas sociedades se construam sobre o amor, assim como nos foi revelado em Cristo, mas sem que usemos argumentos de fé, de religião ou, resumindo, de qualquer vontade de Deus. Estamos a serviço de Deus servindo os outros, mas não podemos nos servir de Deus para nos justificar e impor as nossas escolhas. Isto seria fazer de Deus o instrumento da nossa dominação: não temos sabido sempre evitar esta perversão e muitas vezes temos confundido soberania de Deus com soberania da Igreja. O anticlericalismo é fruto direto do clericalismo. Deus pode muito bem cumprir a sua obra de amor pela ação dos não crentes. É o que nos revela a primeira leitura. Vemos aí que Ciro, rei dos Persas, ignorando tudo da fé de Israel, foi quem cumpriu o desígnio de Deus, restabelecendo o povo escolhido em sua soberania. O texto o chama de «consagrado», ou seja, «ungido», palavra que pode ser traduzida por «cristo». Deus tomou-o pela mão direita e o chamou por seu nome. Podemos dizer que Ciro, o pagão, é uma figura de Cristo. Por certo, este homem acredita simplesmente fazer o que é o bem. Eis porque Deus passou por ele. Deus revela assim que está ativo até mesmo aonde não se esperava. «Embora não me conheças, eu te cinjo, a fim de que se saiba desde o nascente do sol até o poente que, fora de mim, não há ninguém» (Isaías 45,5).

Marcel Domergue

Nós somos imagens de Deus!

Às três parábolas do Reino dos três últimos domingos, se seguem, para as próximas duas semanas, duas controvérsias entre Jesus e seus adversários, os fariseus: a primeira (deste domingo) sobre o imposto pago a César e a segunda (domingo próximo) sobre o maior mandamento. Em Jerusalém, onde se aproxima a condenação e a morte de Jesus, vemos que os fariseus estão indispostos e procuram um meio para prender Jesus. Mas Jesus não permite e podemos dizer hoje que ele lhes devolve na mesma moeda: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21). Não devemos esquecer que este texto de Mateus, assim como todos os outros, foi escrito depois da Páscoa, à luz da fé pascal, para uma comunidade cristã que certamente vivia em conflito com os romanos, mas especialmente com os judeus que consideravam o cristianismo uma seita temível e perigosa.

1. A controvérsia. Para compreender a controvérsia de hoje, temos que explicar o que é o imposto pago ao imperador, o tributo a César… Estamos na Judeia, uma província de Roma, no primeiro século da era cristã. As pessoas estavam sobrecarregadas com impostos. Havia um imposto que era cobrado para o rei Herodes, outro para o Templo de Jerusalém e os sacerdotes e um outro para o imperador de Roma, além de alfândegas, impostos e pedágios que todos os judeus tinham que pagar… E pior ainda, quando o imperador de Roma, César Augusto se divinizou a si mesmo, ele mandou inscrever na moeda: “O Divino César’, o que chocou alguns líderes judeus que se recusaram não apenas a pagar o tributo a César, mas até mesmo de usar sua moeda. No tempo de Jesus, havia os herodianos e os saduceus que mantinham boas relações com Roma; portanto, a moeda do império circulava pela Judeia. Por outro lado, os fariseus e os zelotes se opunham firmemente a isso… O que envenenava as relações entre Roma e a Judeia.

Esta situação nos permite compreender a cena do evangelista Mateus, onde vemos Jesus sendo questionado pelos discípulos dos fariseus, juntamente com os herodianos: “É permitido pagar o tributo a César, sim ou não?” (Mt 22, 17). A pergunta é realmente uma armadilha: quer Jesus responda sim ou não, ele se enrosca de uma ou de outra maneira. A fórmula: “É permitido…’, é a fórmula clássica para a observância da Lei de Moisés. Se Jesus responde que sim, isso significa que ele está em conluio com os romanos, que idolatram o imperador; mas se ele responde que não, isso significa que ele convida à desobediência e incentiva movimentos extremistas como os zelotes à revolta contra a ocupação romana.

Portanto, a resposta de Jesus é uma inversão da situação: ao pedir para ver uma moeda, ele arma uma armadilha, por sua vez, para os fariseus e os herodianos; ele desmascara sua hipocrisia, já que eles utilizam a moeda do imperador que eles carregam consigo, contra eles. Ele lhes disse: “De quem são esta efígie e esta inscrição?” (Mt 22, 20). Eles devem, portanto, responder à sua própria pergunta… E para mostrar que a política, o poder e o imperador não tinham nada a ver com Deus, Jesus acrescenta: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21).

A mensagem é esta: se a imagem cunhada na moeda é do próprio César, isso significa que a moeda pertence a César. Mas se nós seres humanos somos à imagem de Deus, isso significa que nós somos de Deus… Somos rostos de Deus. Pela dupla sentença: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é Deus”, Jesus desdiviniza o imperador e dessacraliza a sua moeda, e reconhecendo seu valor e devolvendo-o à sua própria responsabilidade. Ao mesmo tempo, Jesus afirma que o imperador não é contrário a Deus… O que pertence a Deus é de Deus e César não tem nenhum poder sobre isso.

2. Nossa dupla realidade humana. Infelizmente, muitas vezes este texto de Mateus foi usado para justificar a separação entre a Igreja e o Estado, entre a religião e a política, como se se pudesse separar completamente a dimensão espiritual e a dimensão material da nossa realidade humana. É verdade que as religiões não têm de impor seus pontos de vista às sociedades civis em sua visão sobre o mundo e sobre o modo de viver em sociedade. No entanto, as religiões podem dar as suas opiniões, interpelar as pessoas, propor um ideal evangélico… mas se o fizerem devem fazê-lo no respeito a cada um: sem julgamentos, sem condenações, com o cuidado da justiça, da equidade, da igualdade na dignidade em vista da Paz e da harmonia entre nós.

A este respeito, penso que a fé cristã influenciou muito as nossas sociedades ocidentais. É justamente esta influência religiosa que está na origem da Carta dos Direitos e das Liberdades, e que permite às minorias serem reconhecidas e respeitadas pela maioria. Entretanto, se as religiões se opõem à evolução dos povos e das sociedades e se elas julgam e condenam a novidade, isso significa que as religiões são contrárias ao ideal evangélico, proposto por Cristo que os líderes religiosos dizem representar. Neste caso, certamente não deveria surpreender o fato de que os religiosos sejam criticados, abandonados e até mesmo rejeitados pelos cristãos e cristãs de hoje.

Na segunda leitura, São Paulo, em sua primeira carta aos Tessalonicenses (por sinal, é o texto mais antigo do Novo Testamento escrito em Corinto aproximadamente no ano 51 d.C.), nos lembra que a vida cristã repousa sobre três pilares: a fé, a esperança e o amor. Ele diz: “Sem cessar, conservamos a lembrança de vossa fé ativa, de vosso amor sacrificado e de vossa perseverante esperança, que nos vêm de nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai” (1Ts 1, 3). Se nós nos apoiarmos nestes três pilares da fé cristã, o Evangelho que proclamamos não será uma simples palavra, mas um poder, uma ação do Espírito Santo, uma certeza absoluta (1Ts 1, 5): ela é a Palavra de Deus.

Apoiar-se sobre estes três pilares da fé cristã é ver o mundo de forma diferente; isso dá uma qualidade de ser e de agir que promove a justiça e a paz. Isso humaniza a sociedade e as pessoas que a compõem, e possibilita a universalidade e a pluralidade em nosso mundo. Assim, a Palavra de Deus não é simplesmente um texto bíblico que podemos ler e reler todos os domingos; é uma Palavra que expressa a fé, a esperança e a caridade da Igreja na sua realidade histórica e teológica. O que era verdade para a comunidade de Tessalônica, também é verdade para as comunidades cristãs de hoje.

Concluindo, a laicidade não significa que um cristão não deva exercer uma função política na sociedade civil. Pelo contrário, ele pode fazê-lo, mas deve fazê-lo no respeito pelos outros que não compartilham a sua fé. Ser cristão não é impor uma fé aos outros. Ser cristão é dar testemunho de sua fé e esperança aos outros; é a única maneira de fazê-los querer crer e esperar. Sobre o Evangelho de hoje, Santo Agostinho dizia: “Do mesmo modo como César busca a sua imagem em uma moeda, Deus procura sua imagem na sua alma. Dai a César, diz o Salvador, o que pertence a César. O que César exigiu de ti? Sua imagem. O que o Senhor pede de ti? Sua imagem. Mas a imagem de César está em uma moeda, a imagem de Deus está em ti.”

Raymond Gravel