Quinta-feira, 28 de Agosto de 2025
Num país da África Oriental repleto de grandes contrastes, missionários e missionárias trabalham para aproximar a água das populações, e para ajudar as mulheres a criarem os seus próprios negócios, como conta Isabel Gomes [na foto], uma missionária comboniana que regressou há um mês do Quénia, onde esteve 18 anos em missão.

“Há neste país uma injustiça e uma corrupção muito grandes. Nas grandes cidades, parece que estamos numa cidade da Europa. As cidades são bem desenvolvidas, com grandes centros comerciais e com tudo. Mas depois, quando vamos mesmo para o interior, para as aldeias, vemos um contraste muito grande. Nem parece que estamos no mesmo país. Nas aldeias as estradas não estão alcatroadas. Por vezes, quando chove, temos de parar por duas ou três horas para deixar a água do rio passar porque não há pontes. A eletricidade e a água potável não existem”, conta a religiosa de 44 anos, natural de Ovar, que ainda se lembra bem dos seus primeiros tempos no Quénia, numa altura em que tinha apenas 26 anos.

“Ao ir para uma missão numa aldeia remota fiquei com dúvidas sobre se aguentaria ficar ali. Foi mesmo um choque. Foi impressionante ver as condições de vida em que as pessoas vivem, e a forma como as mulheres são tratadas. Quando tínhamos os encontros da comunidade, os homens sentavam-se nas cadeiras, e as mulheres estavam de lado, sentadas no chão. Era como se elas observassem, mas não pudessem ter uma voz. Custou-me muito também ver a forma como elas eram dadas em casamento. Não escolhiam o marido com quem queriam casar. Eram dadas em casamento pelos pais. Uma coisa que está a mudar é que estas mulheres que viveram isso não querem que as filhas delas vivam a mesma coisa. Estas mulheres não foram à escola, e agora fazem tudo para que as filhas frequentem as aulas.” Foi com estas mulheres que as Missionárias Combonianas iniciaram um programa para as ensinar a ler e a escrever. “Este programa iniciou antes da minha chegada, e eu continuei-o. E com este projeto, começámos outros projetos de microcrédito.”

Ir. Isabel Gomes: ‘No entanto, as “mulheres não queriam o dinheiro para levar para suas casas porque diziam que se o fizessem, os maridos ficariam com ele”.
Foto © Juliana Batista

O poder do microcrédito

Os projetos de microcrédito promovidos pelas missionárias estão ligados à criação de cabras, à produção de terços, e à confeção de produtos com aloé vera. “Plantámos seis hectares de cactos, e com a aloé vera dali resultante começámos a produzir sabonetes, champôs e cremes de corpo. Chamámos um especialista na produção destes artigos, e ele ensinou as mulheres a fazerem estes produtos, e elas fazem-nos. Estes produtos são depois vendidos, para que se obtenha um rendimento”, explica a irmã Isabel.

No entanto, as “mulheres não queriam o dinheiro para levar para suas casas porque diziam que se o fizessem, os maridos ficariam com ele”. Para contornar esta situação, o dinheiro tem estado a ser usado para construir casas de banho nos locais de residência daquelas mulheres, algo que elas desejam muito, e também para comprar tanques para recolher água. “O objetivo é acumular água e evitar que se façam tantos quilómetros para a ir buscar”, indica a irmã Isabel, esclarecendo que estes projetos decorrem perto do Monte Quénia.

Uma vida em busca de água

A necessidade de água em algumas áreas do interior do país é um problema “muito grande”, de acordo com a irmã Isabel. Numa região onde “só existia um furo de água criado pelo governo para mais de oito aldeias”, os “Missionários Combonianos fizeram um furo de água, e os Missionários da Consolata fizeram outro”. A irmã Isabel explica que a construção destes furos de água tem um impacto significativo na vida de pessoas que têm de caminhar cerca de dez quilómetros para ir buscar água. “Toda a vida da pessoa é ir buscar água. Parte de manhã e regressa à noite. Podem ter feijão e milho para cozinhar, mas se não têm água, não se pode fazer nada”, demonstra a religiosa.

Daniel Comboni: uma inspiração

Depois de 18 anos de missão no Quénia, o seu primeiro destino missionário e onde se licenciou em “Agronomia sustentável para o desenvolvimento rural”, a religiosa encontra-se agora a residir na comunidade de Lisboa das Missionárias Combonianas. O contacto de Isabel com esta congregação religiosa aconteceu aos 17 anos, através do grupo de jovens da sua paróquia. A vida e obra de Daniel Comboni (1831-1881) – fundador dos Missionários e Missionárias Combonianos – fascinou Isabel, particularmente o facto deste religioso se ter empenhado em prol da abolição da escravatura.

Juliana Batista – 7Margens
Texto publicado ao abrigo da parceria 7MARGENS/Fátima Missionária.