No dia 6 de janeiro, doze dias após o Natal, a Igreja celebra, desde os primeiros séculos, a solenidade da Epifania. É uma das quatro grandes festividades do ano litúrgico, juntamente com a Páscoa, o Natal e o Pentecostes. (...)

Estrelas brilhantes, estrelas apagadas e buracos negros

Onde está aquele que nasceu?
Mateus 2,1-12

No dia 6 de janeiro, doze dias após o Natal, a Igreja celebra, desde os primeiros séculos, a solenidade da Epifania. É uma das quatro grandes festividades do ano litúrgico, juntamente com a Páscoa, o Natal e o Pentecostes.

Alguns apontamentos históricos

A palavra grega epiphàneia significa “manifestações” (no plural) e era utilizada para designar as ‘manifestações’ das divindades. Na Grécia antiga, referia-se às festas dedicadas a uma divindade específica. Este termo foi adotado pelo cristianismo para indicar a “manifestação” de Jesus aos povos, representados pelos Magos.

A data da Epifania aproxima-se da do Natal das Igrejas orientais, celebrado no dia 7 de janeiro. A diferença de 13 dias deve-se exclusivamente ao calendário adotado. Enquanto as Igrejas ocidentais seguem o calendário gregoriano (assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que o introduziu em 1582), as orientais ainda utilizam o antigo calendário juliano (criado por Júlio César em 45 a.C.). Por isso, o dia 25 de dezembro do Natal ortodoxo coincide com o nosso 7 de janeiro, enquanto a Epifania celebra-se a 19 de janeiro, treze dias depois.

Detenhamo-nos nos três elementos do relato de Mateus (2,1-12): os Magos, a estrela e os dons.

OS MAGOS, buscadores de Deus

O episódio pitoresco dos Magos, narrado de forma sóbria por São Mateus, é um dos que mais atraíram a curiosidade e atenção desde a época dos Padres da Igreja e dos escritos apócrifos cristãos. Em torno do relato evangélico floresceu uma rica e criativa fantasia:

  • os Magos tornam-se três, como os três dons: ouro, incenso e mirra; 
  • são considerados reis, talvez porque o rei é o máximo representante de um povo, e também pela influência de alguns textos bíblicos, como Isaías 60 (ver primeira leitura) e o Salmo 71: “Os reis de Társis e das ilhas ofereçam tributos, os reis de Sabá e de Seba tragam presentes” (salmo responsorial); 
  • são-lhes atribuídos nomes: Gaspar, Melchior e Baltazar; 
  • vêm de três continentes diferentes: África, Ásia e Europa; 
  • um é de pele escura, outro clara e o terceiro amarela; 
  • um é jovem, outro maduro e o terceiro idoso. 

Claramente, a tradição desenvolveu-se para que os três Magos representassem toda a humanidade que veio prestar homenagem a Cristo. Eles representam também cada um de nós.

Na segunda leitura, São Paulo afirma que a Epifania é a revelação de um “mistério” até então escondido: “Os povos são chamados, em Cristo Jesus, a partilhar a mesma herança, a formar o mesmo corpo e a participar da mesma promessa através do Evangelho” (Efésios 3,6).
Até então, a história da salvação era interpretada sob uma ótica nacionalista: as promessas de Deus eram reservadas apenas ao povo de Israel. Esta festa, portanto, assume um significado universal e missionário. É a antítese da Torre de Babel e o prenúncio de Pentecostes!

Os Magos são um símbolo eloquente dos buscadores de Deus que se colocam a caminho. A fé é “inquieta”: não nos deixa satisfeitos com as respostas encontradas e os objetivos atingidos. Uma fé que não nos torna peregrinos é como a dos escribas de Jerusalém, interrogados por Herodes. Eles sabem onde deve nascer o Messias, mas não se movem para procurá-lo.

Todo crente é como Abraão que “partiu sem saber para onde iria” (Hebreus 11,8). A jornada dos Magos é um emblema da vida cristã e de toda existência humana: colocar-se a caminho, juntos, à procura de sentido, olhando para o céu, prontos para enfrentar o desconhecido, capazes de discernir a presença de Deus na pequenez...

A ESTRELA e as estrelas

Os Magos eram “astrólogos” que observavam as estrelas. A sua proveniência do Oriente sugere a Pérsia. Muitos astrônomos tentaram identificar qual estrela ou cometa eles observaram. No entanto, a explicação não deve ser buscada tanto na ciência, mas no contexto bíblico. São Mateus, de fato, provavelmente referia-se ao oráculo do Balaão: “Eu o vejo, mas não agora; eu o contemplo, mas não de perto: uma estrela surge de Jacó, e um cetro se eleva de Israel” (Números 24,17). Esta estrela é interpretada como uma referência ao Messias.
Na antiguidade, acreditava-se comumente que cada pessoa tinha a sua própria estrela, que surgia com o seu nascimento e desaparecia com a sua morte. Quanto mais brilhante a estrela, mais importante se considerava a pessoa.

Há muitas estrelas que brilham no nosso “firmamento”, mas nem todas conduzem a Cristo. Algumas fazem-nos perder-nos ao longo do caminho da vida. Qual “estrela” é a bússola da minha existência?

O que representa a Estrela? Ela evoca, antes de tudo, Jesus, “a estrela radiosa da manhã” (Apocalipse 22,16). Ele é a Estrela que orienta a vida do cristão. Contudo, também nós somos chamados a “brilhar como astros no mundo” (Filipenses 2,15). Cada cristão é convidado a tornar-se uma estrela que guia os outros para Cristo.

OS PRESENTES: ouro, incenso e mirra

O que representam os três presentes? Tradicionalmente diz-se que: o ouro simboliza a realeza messiânica de Cristo; o incenso, a sua divindade; e a mirra, a sua humanidade. Contudo, não faltam interpretações diferentes. São Bernardo, por exemplo, sugeria que o ouro servia para mitigar a pobreza da Virgem Maria, o incenso para purificar o ar da estrebaria, e a mirra como vermífugo!

Mas o que estes presentes podem representar para nós, hoje? E, sobretudo, o que podemos oferecer a Jesus? Olhemos para o tesouro do nosso coração: que riquezas guardamos? Que presentes podemos oferecer como sinal da nossa adoração, da nossa gratidão e do nosso amor?

Para concluir

“Com a Epifania acabam-se as festas”, diz um provérbio popular. Que a Estrela, porém, permaneça viva no nosso coração! Como poderíamos, de outra forma, iluminar, nós que somos chamados a ser “luz do mundo”? Seríamos estrelas apagadas, ou pior, “buracos negros” que absorvem e anulam toda luz que encontram na sua órbita.

Pe. Manuel João Pereira Correia, mccj

EPIFANIA DO SENHOR
Mateus 2,1-12

Aprender com os Magos
Papa Francisco

O evangelista Mateus assinala que os Magos, quando chegaram a Belém, «viram o Menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-No» (Mt 2, 11). Adorar o Senhor não é fácil, não é um dado imediato: requer uma certa maturidade espiritual, sendo o ponto de chegada dum caminho interior, por vezes longo. Não é espontânea em nós a atitude de adorar a Deus. É verdade que o ser humano precisa de adorar, mas corre o risco de errar o alvo; com efeito, se não adorar a Deus, adorará ídolos – não há meio-termo, ou Deus ou os ídolos; para usar a frase dum escritor francês: «Quem não adora a Deus, adora o diabo» (Léon Bloy) – e, em vez de ser crente, tornar-se-á idólatra. É assim: ou uma coisa ou outra.

Neste nosso tempo, há particular necessidade de dedicarmos, tanto individualmente como em comunidade, mais tempo à adoração, aprendendo cada vez melhor a contemplar o Senhor. Perdeu-se um pouco o sentido da oração de adoração; devemos recuperá-lo, tanto comunitariamente como na própria vida espiritual. Por isso, hoje, queremos aprender com os Magos algumas lições úteis: como eles, queremos prostrar-nos e adorar o Senhor. Adorá-lo seriamente, não como disse Herodes: «Fazei-me saber onde é o lugar, para eu ir adorá-lo». Não! Esta adoração não era justa. Adorá-Lo a sério!

Das leituras desta Eucaristia, recolhemos três expressões que podem ajudar-nos a entender melhor o que significa ser adorador do Senhor; ei-las: «levantar os olhos», «pôr-se a caminho» e «ver». Estas três expressão ajudar-nos-ão a entender o que significa ser adoradores do Senhor.

A primeira expressão – levantar os olhos –, encontramo-la em Isaías. À comunidade de Jerusalém, pouco antes regressada do exílio e agora caída em desânimo por causa de dificuldades sem fim, o profeta dirige-lhe este forte convite: «Levanta os olhos e vê» (Is 60, 4). Convida-a a deixar de lado cansaço e lamentos, sair das estreitezas duma visão limitada, libertar-se da ditadura do próprio eu, sempre propenso a fechar-se em si mesmo e nas preocupações particulares. Para adorar o Senhor, é preciso antes de mais nada «levantar os olhos», ou seja, não se deixar enredar pelos fantasmas interiores que apagam a esperança, nem fazer dos problemas e dificuldades o centro da própria existência. Isto não significa negar a realidade, fingindo-se ou iludindo-se que tudo corre bem; mas olhar de modo novo os problemas e as angústias, sabendo que o Senhor conhece as nossas situações difíceis, escuta atentamente as nossas súplicas e não fica indiferente às lágrimas que derramamos.

Este olhar que, apesar das vicissitudes da vida, permanece confiante no Senhor, gera a gratidão filial. E, quando isto acontece, o coração abre-se à adoração. Pelo contrário, quando fixamos a atenção exclusivamente nos problemas, recusando-nos a levantar os olhos para Deus, o medo invade o coração e desorienta-o, gerando irritação, perplexidade, angústia, depressão. Nestas condições, é difícil adorar ao Senhor. Se isto acontecer, é preciso ter a coragem de romper o círculo das nossas conclusões precipitadas, sabendo que a realidade é maior do que os nossos pensamentos. Levanta os olhos e vê: o Senhor convida-nos, em primeiro lugar, a ter confiança n’Ele, porque cuida realmente de todos. Ora, se Deus veste tão bem a erva no campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais não fará Ele por nós? (cf. Lc 12, 28). Se levantarmos o olhar para o Senhor e considerarmos a realidade à sua luz, descobrimos que Ele nunca nos abandona: o Verbo fez-Se carne (cf. Jo 1, 14) e permanece connosco sempre todos os dias (cf. Mt 28, 20). Sempre.

Quando levantamos os olhos para Deus, os problemas da vida não desaparecem, mas sentimos que o Senhor nos dá a força necessária para enfrentá-los. Assim, «levantar os olhos» é o primeiro passo que predispõe para a adoração. Trata-se da adoração do discípulo que descobriu, em Deus, uma alegria nova, uma alegria diferente. A alegria do mundo está fundada na posse dos bens, no sucesso ou noutras coisas semelhantes, mas sempre com o “eu” no centro, ao passo que a alegria do discípulo de Cristo tem o seu fundamento na fidelidade de Deus, cujas promessas nunca falham, apesar das situações de crise em que possamos chegar a encontrar-nos. Então a gratidão filial e a alegria suscitam o desejo de adorar o Senhor, que é fiel e nunca nos deixa sozinhos.

A segunda expressão, que nos pode ajudar, é pôr-se a caminho. Levantar os olhos era a primeira; a segunda: pôr-se a caminho. Antes de poder adorar o Menino nascido em Belém, os Magos tiveram que enfrentar uma longa viagem. Lê-se em Mateus: «Chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. E perguntaram: “Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo”» (Mt 2, 1-2). A viagem implica sempre uma transformação, uma mudança. A pessoa, depois duma viagem, já não fica como antes; há sempre algo de novo em quem viajou: os seus conhecimentos alargaram-se, viu pessoas e coisas novas, sentiu fortalecer-se a vontade ao enfrentar as dificuldades e os riscos do trajeto. Não se chega a adorar o Senhor sem antes passar pelo amadurecimento interior que nos dá o pôr-se a caminho.

É através dum caminho gradual que nos tornamos adoradores do Senhor. Por exemplo, a experiência ensina que a pessoa, aos cinquenta anos, vive a adoração com um espírito diferente de quando tinha trinta. Quem se deixa moldar pela graça, costuma melhorar com o passar do tempo: enquanto o homem exterior envelhece, diz São Paulo, o homem interior renova-se dia após dia (cf. 2 Cor 4, 16), predispondo-se cada vez melhor a adorar o Senhor. Deste ponto de vista, os falimentos, as crises, os erros podem tornar-se experiências instrutivas: não é raro servirem para nos tornar conscientes de que só o Senhor é digno de ser adorado, porque só Ele satisfaz o desejo de vida e eternidade presente no íntimo de cada pessoa. Além disso, com o passar do tempo, as provas e adversidades da existência – vividas na fé – contribuem para purificar o coração, torná-lo mais humilde e, consequentemente, mais disponível para se abrir a Deus. Inclusive os pecados, até a consciência de ser pecador, de ter feito coisas muito feias. «Mas eu fiz isto…, aquilo…»: se tu o consideras com fé, com arrependimento, com contrição, ajudar-te-á a crescer. Tudo, tudo colabora – diz Paulo – para o crescimento espiritual, para o encontro com Jesus, inclusive os pecados, também os pecados. E São Tomás acrescenta: «etiam mortalia – mesmo os pecados mortais», os piores. Mas se tu o consideras com arrependimento, ajudar-te-á nesta viagem rumo ao encontro com o Senhor e a adorá-Lo melhor.

Como os Magos, também nós devemos deixar-nos instruir pelo caminho da vida, marcado pelas dificuldades inevitáveis da viagem. Não deixemos que o cansaço, as quedas e os fracassos nos precipitem no desânimo; antes, pelo contrário, reconhecendo-os com humildade, devemos fazer deles ocasião de progredir para o Senhor Jesus. A vida não é uma demonstração de habilidades, mas uma viagem rumo Àquele que nos ama. Não precisamos de exibir a cada passo da vida a lista das virtudes que temos; mas, com humildade, devemos caminhar para o Senhor. Olhando para o Senhor, encontraremos a força para continuar com renovada alegria.

E chegamos à terceira expressão: ver. Levantar os olhos, pôr-se a caminho, ver. Como se lê no Evangelho, «entrando em casa, [os Magos] viram o Menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-No» (Mt 2, 11). A adoração era o ato de homenagem reservado aos soberanos, aos grandes dignitários. Com efeito, os Magos adoraram Aquele que sabiam ser o Rei dos judeus (cf. Mt 2, 2). Mas, na realidade, que viram eles? Viram um menino pobre com a sua mãe. E contudo estes sábios, vindos de países distantes, souberam transcender aquela cena tão humilde e quase deprimente, reconhecendo naquele Menino a presença dum soberano. Por outras palavras, foram capazes de «ver» para além das aparências. Prostrando-se diante do Menino nascido em Belém, exprimiram uma adoração era primariamente interior: a abertura dos escrinhos trazidos de prenda foi sinal da oferta dos seus corações.

Para adorar o Senhor, é preciso «ver» para além do véu do visível, pois este muitas vezes mostra-se enganador. Herodes e os notáveis de Jerusalém representam a mundanidade, perenemente escrava da aparência. Olham, mas não conseguem ver – já não digo que não acreditam; seria demais –, não conseguem ver, porque a sua capacidade é escrava da aparência e à procura de atrativos: dá valor apenas às coisas sensacionais, aquilo que chama a atenção do vulgo. Entretanto, nos Magos, vemos um comportamento diferente, que poderíamos definir realismo teologal – uma palavra demasiado «alta», mas pode-se dizer assim – um realismo teologal: este percebe com objetividade a realidade das coisas, chegando enfim a compreender que Deus evita toda a ostentação. O Senhor encontra-Se na humildade; o Senhor é como uma criança humilde, evita a ostentação, que é o resultado precisamente da mundanidade. Esta forma de «ver» que transcende o visível, faz-nos adorar o Senhor muitas vezes escondido em situações simples, em pessoas humildes e marginais. Trata-se, pois, dum olhar que, não se deixando encandear pelos fogos de artifício do exibicionismo, procura em cada ocasião aquilo que não passa, procura o Senhor. Por isso, como escreve o apóstolo Paulo, «não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas» (2 Cor 4, 18).

Que o Senhor Jesus nos torne seus verdadeiros adoradores, capazes de manifestar com a vida o seu desígnio de amor, que abraça a humanidade inteira. Peçamos, para cada um de nós e para toda a Igreja, a graça de aprender a adorar, de continuar a adorar, de exercitar frequentemente esta oração de adoração, porque só a Deus Se deve adorar.

Epifania 2021

Desejo de adorar
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,
Nós celebramos hoje a grande solenidade da Epifania do Senhor, da Sua manifestação. Falar da Epifania é falar do mistério de Cristo, do programa de Cristo, da novidade que Ele introduz na própria história. É muito importante olharmos para a festa da Epifania, como a liturgia nos aconselha, com a ajuda do apóstolo Paulo, que foi um dos primeiros cristãos a trabalhar este tema da Epifania de Jesus e o caráter transfronteiriço da mensagem cristã, da proposta que Jesus vem fazer.

S. Paulo na Carta aos Efésios faz uma espécie de resumo daquilo que hoje nós, simbolicamente, também celebramos. Ele diz: “Foi-me revelado o mistério de Cristo.” E o mistério de Cristo é este: “Os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa em Cristo por meio do Evangelho.” Isto que parece uma coisa muito simples é uma revolução completa. É a emergência de uma realidade nova que, de certa forma, nós ainda estamos a apanhar, estamos a colher, com muita dificuldade, porque é mesmo assim.

Mas ainda estamos longe de perceber a radicalidade desta palavra porque, durante séculos, a história do Povo de Deus era uma história que unia a Revelação à construção de uma nação, de um país. Então, toda a promessa de Deus era lida em chave nacionalista. Isto é, esta palavra é uma palavra que pertence a Israel, pertence àqueles que geneticamente são deste povo. Todos os outros são gentios, são pagãos, não têm acesso à manifestação de Deus. Ora, Jesus vem como homem, como pessoa humana, para tornar a Salvação de Deus acessível a todos. Jesus vem para dizer a todos que é possível, que é para eles que Deus se manifesta, que Deus Se revela.
Ora, isto não é fácil porque das primeiras palavras que nós aprendemos a dizer é: “Meu, é meu, é meu.” E também em relação a Deus: “É o meu, é o meu Deus, é a minha maneira de ver, é a minha oração, é a minha tradição religiosa.” E, de repente, nós estamos a aprisionar Deus, a aprisionar Jesus.

Nós estamos a celebrar a festa da Epifania, desta universalidade da salvação que Jesus vem revelar. Como é que nós, Igreja, vivemos essa universalidade? Muitas vezes nós construímos igrejas, e dentro das igrejas capelas, e dentro das capelas capelinhas. Porque a nossa tendência é essa, é de barricar, de enclaustrar, de fazer uma trincheira, de dizer: “É meu, é minha.” E ficar apenas por aí.

Lembro-me duma homilia do Papa Francisco, uma homilia agitadora como é a palavra do Santo Padre, uma palavra profética, ele dizia isto: “Há dois modelos de Igreja: o modelo daqueles que procuram sobretudo alimentar, confortar, consolidar os que já estão dentro. E, então, nós construímos uma espécie de cintura que nos isola do resto e procuramos, sobretudo, fortalecer a fé dos que já estão, dos que já pertencem. “ E o Papa diz: “Uma Igreja assim não se distingue nada de um clube.” Daqueles clubes muito reservados, com muito pedigree. Uma Igreja assim não se distingue de um clube. E há um outro modelo, diz o Santo Padre: “Que é daqueles que dizem: «É bom estar dentro, é bom já pertencer, mas nós temos de sair para fora, temos de ir ao encontro dos que ainda não estão aqui» E essa, diz o Santo Padre, é uma Igreja missionária, é uma Igreja em saída, é uma Igreja que não fica no conforto das suas certezas, das evidências já conquistadas, já reconhecidas. Mas vai partir pedra, mas vai fazer caminho, mas vai ao encontro de um mundo que é diverso, que é impuro, que não é aquele que nós idealizamos, que tem tantos contrastes, que tem tantos paradoxos mas, no fundo, é um mundo que Deus ama, é um mundo que precisa ser salvo.”

Isto para nós é uma responsabilidade muito grande, queridos irmãos, porque também nós somos artesãos da Igreja, somos construtores da Igreja. E podemos criar segredos, fazer disto uma espécie de segredo inútil que se transmite e que morre aqui, ou podemos fazer de Jesus, daquilo que a Encarnação de Jesus significa, podemos fazer Dele uma epifania, uma manifestação, sabendo que esta boa-nova tem de chegar para lá, para lá das nossas fronteiras.

No Evangelho de S. Mateus emergem dois personagens e, no fundo, são dois tipos humanos, são dois tipos de atitude, podemos tanto ser um ou ser outro. Temos o rei Herodes. O rei Herodes não sabe nada, ignora tudo, a única coisa que ele sabe é o seu poder, é que ele tem de sobreviver no poder, que ele tem de continuar. Ele não sabe que o Menino nasceu, ele não sabe nada da Estrela, ele tem de perguntar aos outros, tem de ler os grandes livros, ele não sabe que o Messias vai nascer em Belém, ele não sabe nada, só sabe de si.

E temos este outro tipo humano que é esta figura dos Magos. Os Magos que vivem longe, que são aquelas pessoas curiosas pela vida, que mantêm uma disponibilidade para se deixar surpreender. No fundo, é preciso ter um coração pobre, é preciso não fazer do seu ego o seu trono, para ainda abrir uma janela e olhar para as estrelas e perguntar o que é que aquelas estrelas quererão dizer. E estes homens estão disponíveis para fazer caminho, para fazer estrada. Um rei é prisioneiro da sua corte, do lugar onde se senta. O Rei Mago é um nómada, é alguém disponível para sair da sua casa, sair do seu palácio, fazer uma viagem.

Uma viagem da qual não há muitas certezas, porque se nos deixamos guiar por uma estrela é uma viagem muito aberta, muito pobre ao mesmo tempo de sinais, é uma espécie de alinhavo, não é um traço forte. Mas eles estão disponíveis para ir adorar uma coisa que está longe deles, e não apenas adorar o seu umbigo, adorar a sua imagem. Estes são capazes de ir mais longe. E quando chegam, perante uma criança, ajoelham-se e adoram.

O que é que nós adoramos normalmente, o que é que nós consideramos? Uma pessoa tem de dar o litro para merecer a nossa admiração, para merecer a nossa confiança tem de fazer uma coisa verdadeiramente excecional, aí, nós sim reconhecemos. Estes põem-se de joelhos perante uma vida que não fez nada, perante uma vida que é, perante aquilo que é o mistério desabalado da própria vida. De joelhos a contemplar o Menino, não contemplam coisas, atos, monumentos, ações, glórias, saberes, conhecimento, não, ajoelham-se perante a vida a vida trémula, a vida que não é nada, a vida frágil, a vida que tem ali todo o seu mistério, a vida no ato puro de ser.

Estão ali de joelhos e partilham com aquela vida as suas riquezas, os seus tesouros, aquilo que trazem. Tesouros sem dúvida simbólicos, para perfumarem a vida: o ouro, o incenso, a mirra. Os grandes tesouros do mundo antigo e que têm a ver com o mundo real, com o mundo sacerdotal, com o mundo profético, com as coisas mais preciosas daquele mundo e daquela cultura. E eles partilham os seus tesouros e depois partem, voltam ao seu caminho.

Nós sabemos que Herodes só pode fazer o contrário. Herodes só pode determinar a matança dos inocentes porque Herodes não suporta o outro como uma ameaça, ele não suporta não ser o centro e por isso há de mandar matar todos os meninos que nasceram naquela época.

Os Magos vêm, adoram a vida e partem. São dois tipos, são duas atitudes perante a vida e a verdade é que nós encontramos ambas dentro de nós, a rivalizar dentro de nós. O necessário é que nos tornemos reis magos ao longo deste ano, deste Ano Santo da Misericórdia, tendo a capacidade de ir mais longe, tendo a capacidade de ser guiados pelo alto, tendo capacidade de nos desinstalarmos, de fazermos a grande viagem e de retornarmos depois à nossa casa, ao nosso coração por um outro caminho. Isto é, voltar à nossa casa transformados pela própria viagem porque aquilo que vimos, aquilo que fizémos transformou completamente a nossa vida.

Queridos irmãos, é a grande festa da Epifania, que responsabilidade nos é colocada nas mãos, que responsabilidade tornarmo-nos nós agentes desta Epifania. Deixarmos para trás o Herodes que subsiste, que sobrevém sempre dentro de nós e sermos capazes de adotar a atitude dos Magos, e aprender com eles este desejo de adorar. O primeiro mandamento é adorar a Deus , amar e adorar a Deus sobre todas as coisas. E este ter uma coisa para adorar na vida é um bem sem tamanho.

Muitas vezes nós vivemos uma vida só mesquinha, só conseguimos gostar ou não gostar, ou querer ou não querer – é a posição de Herodes. Estes que vêm de longe são capazes da adoração. O Senhor nos dê um coração capaz da adoração. Isto é, da contemplação do seu mistério, do fantástico reconhecimento da sua presença no mundo, nas nossas vidas.

José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org

Epifania do Senhor:
Casa aberta para todos
Marcel Domergue, SJ

As terras de Israel foram não poucas vezes invadidas por estrangeiros que vieram muitas vezes do Oriente. Israel, contudo, não deixou de apropriar-se das Sabedorias dos povos com quem tinha contato, sequer de suas religiões ou mesmo de seus mitos. Um processo de osmose, portanto, no qual os sábios e profetas de Israel modificaram e ajustaram os elementos estranhos à sua visão própria de Deus, do homem e do mundo. As «nações», por sua vez, também deviam apropriar-se da herança do povo eleito.

Com Cristo, a hora havia chegado: «A Luz verdadeira que ilumina todo homem veio ao mundo» (João 1,9). É o que a seu modo nos quer dizer o episódio dos Reis Magos. Os Magos, vindos do Oriente: não se poderia imaginar nada de mais estranho para a época; pela geografia, pela história das invasões, pela religião. Os Magos, justamente por causa de sua magia, de sua cosmologia (ah! os nossos horóscopos!) e outras práticas de adivinhação, não gozavam de boa reputação na Bíblia. Mesmo estes, que naquele momento obedeciam à atração da Luz.

Uma visão por certo otimista, se nos atemos à atualidade, mas uma visão escatológica, considerando o conjunto dos desígnios de Deus. De qualquer modo, desde então o Evangelho mantém-nos precavidos contra toda forma de exclusão: de raça, de cultura (primitiva ou evoluída), de nacionalidade, de mentalidade etc. Para todos nós, numa noite qualquer, uma estrela haverá de levantar-se em nossos momentos de obscuridade.

Toda a História da Salvação

Este relato evangélico, assim como tantos outros, retrata em poucas linhas todos os gestos de Cristo. O pânico de Herodes e, com ele, de toda Jerusalém, pânico que vai chegar até ao homicídio, já nos apresentam um presságio da Paixão. Não é por nada que o texto faz menção aos escribas e aos sumos sacerdotes, que irão constituir o tribunal do veredicto de morte. Mas, sobretudo a expressão «rei dos judeus» posta na boca dos Magos só vai aparecer novamente no relato da Paixão. Um sinal deixado pelo evangelista.

Há uma concorrência entre dois reis: entre Herodes e o Rei que acaba de nascer. Também é Mateus quem faz questão de precisar, em 27,18, que foi por inveja que Jesus foi entregue. Mas, se o texto está carregado de um futuro que o evangelista já conhecia (escreveu-o no final do primeiro século), também assume o passado: as alusões à 1ª leitura são evidentes.

Inspirado na volta de Israel à sua terra e na reconstrução próxima do Templo, o profeta vê um futuro luminoso para Jerusalém e a convergência de todas as nações em direção ao povo portador da salvação. (Podemos retomar com proveito a conversa de Jesus com a Samaritana, em João 4.)

Lendo o relato da visita dos Magos, é preciso lembrar a profecia de Isaías, a Paixão e a Ressurreição de Cristo, e a entrada dos pagãos na Igreja nascente, uma resultante disto.

Por outro caminho

Os Magos devem ter ficado decepcionados: vieram à procura de uma criança real e acabaram encontrando um menino nascido no seio de uma família pobre: o Rei dos Judeus não nasceu no palácio do rei Herodes. Notemos que o evangelho não fala em manjedoura, mas em “entrar na casa”. Lucas é o único que fala em manjedoura, mas não fala nos Magos.

Ora, a palavra «casa» é empregada com frequência para designar a «casa de Deus», o Templo. Então, daí em diante Deus irá habitar onde esta criança estiver. Os Magos souberam reconhecer Deus na humildade, no quase nada deste casal e deste recém-nascido: ajoelharam-se, adoraram-no e prestaram-lhe homenagem, abrindo-lhe os seus tesouros. Não vamos insistir no simbolismo do ouro, do incenso e da mirra.

De qualquer modo, contudo, o relato dos Magos antecipa o futuro glorioso da reunião universal no Corpo de Cristo. A semente minúscula semeada na terra tornar-se-á uma grande árvore, que abrigará todos os habitantes do céu sob os seus ramos (Mateus 13,32). Os Magos retornaram para sua terra: «Nem nesta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai…» (João 4,21). Não mais têm necessidade nem de Belém nem de Herodes nem da estrela: a luz tornou-se interior para eles.

Voltaram para sua terra, para a sua civilização, para as suas ocupações, mas nada mais será como antes: voltaram «seguindo outro caminho».

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Epifanias missionárias:
Cristo luz dos povos
Romeo Ballan, mccj

O cristão inaugura o novo ano com dois compromissos fortes: a paz e a missão. Os dois compromissos têm como centro Jesus Cristo. No dia 1 de Janeiro é Cristo nossa paz; na epifania é Cristo luz dos povos. A epifania é uma festa plural: toda a manifestação do Senhor é uma epifania. No dia 6 de Janeiro, de facto, a liturgia proclama que este dia santo resplandece devido a três milagres: os Magos vindos do Oriente chegam a Jerusalém, guiados por uma estrela; Jesus é baptizado no rio Jordão; em Caná a água é transformada em vinho. A estas três epifanias clássicas, os evangelistas acrescentam outras: o próprio nascimento de Jesus; João Baptista que indica o Cordeiro de Deus presente (Jo 1,36); Jesus que se revela a Nicodemos (Jo 3) e à Samaritana (Jo 4), etc. Cada um destes factos dá-se em lugares, tempos, modos, personagens diferentes, mas o contexto é idêntico: é Cristo que se manifesta, é Cristo que somos convidados a descobrir e a anunciar a outros, como os Magos, como João Baptista, como a samaritana…

As Epifanias têm lugar, normalmente, num contexto de luz. O Natal está envolvido na luz que ilumina os pastores; os Magos seguem uma luz no céu, que os guia até encontrar Jesus… Muitas vezes a luz é evidente pela sua presença ou, por contraste, pela sua ausência… A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más (Jo 3,19). Deus é luz sem trevas, é o amor (1Jo 1 e 4). É luz que ilumina o caminho da humanidade, amor que acalenta e faz viver. Por isso a Epifania é a festa missionária dos povos, chamados a caminhar na luz e no amor que provêm de Deus. É significativo que, à volta desta data, o nosso calendário missionário seja tão rico de memórias de grandes evangelizadores (diferentes por origem, família religiosa, lugares de apostolado…) e de acontecimentos ligados à missão (jornadas pela paz, os migrantes, a unidade dos cristãos…). Um mosaico de universalidade!

– A Epifania é a festa missionária das crianças, festa dos povos imigrantes, encontro vocacional para jovens desejosos de dar a vida pelo serviço do Evangelho. Junto dos vizinhos e em terras distantes.

– A festa do Baptismo do Senhor (Lc 3,21-22) mostra Jesus que se põe na fila como os outros, entre os pecadores…. Ao sair depois das águas, carrega sobre os ombros o mundo: eleva-o e salva-o.

– O vinho bom de Caná (Jo 2,10) manifesta a qualidade da vida nova e abundante, inaugurada por Jesus, para a felicidade da família humana (Jo 10,10).

– A Epifania não tem lugar apenas junto dos afastados ou nos gestos grandiosos. A Epifania faz-se presente também na capacidade de acolher os sinais da manifestação de Deus no meio de realidades pequenas e quotidianas: um gesto de bondade, o sorriso de uma criança, a lágrima de um idoso, a angústia de uma mãe, o suor do operário, o medo do migrante, a piada simpática de um amigo, o presente de um brinquedo…

– O nosso desafio é ser Epifanias transparentes de Deus: ser missionários, testemunhas com a vida e com a palavra, misericordiosos e disponíveis para acolher e servir os outros. Como fez Jesus.