Segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
A Igreja portuguesa está a receber mais missionários do que aqueles que envia e o número de missionários portugueses fora do país diminuiu. É o que indica o resultado de um inquérito feito pelas Obras Missionárias Pontifícias (OMP) em 2025. A Igreja que levou o Evangelho com as caravelas à África, Ásia e América, é também servida por batizados dessas Igrejas. As caravelas regressaram e o ciclo da evangelização fechou-se através da comunhão entre igrejas que enviam e recebem em simultâneo. [Padre José Vieira, MCCJ]

Os dados recolhidos e tratados pelas OMP assinalam que no ano passado havia 243 missionários portugueses no estrangeiro e 197 missionários estrangeiros em Portugal.  Se lhe juntarmos os 37 padres diocesanos portugueses o número no estrangeiro sobe para 280. Juntando aos missionários estrangeiros em terras lusas os 248 padres diocesanos temos um total de 445 imigrantes a servir a Igreja portuguesa.

As missionárias e missionários portugueses servem na África (54 mulheres e 53 homens), na Europa (45 mulheres e 23 homens) na América (25 mulheres e 19 homens) e na Ásia (16 mulheres e 8 homens).

Por destinos, a número maior de missionários encontra-se em Moçambique (20) e de missionárias no Brasil (21). 

É de notar que dos 16 institutos missionários masculinos que responderam ao inquérito têm 721 missionários mas só 14,28 por cento se encontram em missão ad gentes. Os 24 institutos femininos contam com 1 598 missionárias e as 140 que estão em missão correspondem a 8,76 por cento.

Os 91 missionários estrangeiros ao serviço da Igreja em Portugal vêm da África (35), Ásia (34), Europa (15) e América (7). As 106 missionárias provêm da África (58), Ásia (31), Europa (10) e América (7). 

Por passaporte, Timor – com 30 missionárias – lidera a naturalidade das mulheres, e a Indonésia – com 12 missionários – dos homens.

Os 37 diocesanos portugueses no estrangeiro estão na Europa (27), na África (6) e na América (4). A Itália recebeu uma dúzia deles.

Os 248 diocesanos estrangeiros ao serviço das dioceses portuguesas vêm da África (96), Europa (71), América (63) e Ásia (18). Por países de origem, o grupo maior vem de Angola (69), Brasil (48) e Itália (24).

As dioceses portuguesas onde servem são Lisboa (91), Évora (33), Coimbra (21), Porto (19), Setúbal (17), Leiria (11), Braga e Viseu (10 cada), Portalegre (7), Aveiro (6), Bragança e Guarda (5 cada), Beja (4), Algarve (3), Santarém e Vila Real (2) e Angra e Viana do Castelo (1 cada). 

Os números prestam-se a leituras diferentes. Destaco quatro dados:

(1) A percentagem dos missionários portugueses que servem igrejas fora de Portugal é residual (14,48 por cento dos religiosos e 8,76 por cento das religiosas);
(2) incluindo os diocesanos, o número de portugueses e portuguesas a servir igrejas estrangeiras é igual (140 cada);
(3) a África e a Ásia são os continentes que mais missionárias e missionários enviam para Portugal;
(4) o Anuário Católico indica que há em Portugal 2533 padres diocesanos dos quais 248 são estrangeiros (10,86 por cento). 

A Igreja que levou o Evangelho com as caravelas à África, Ásia e América, é também servida por batizados dessas Igrejas. As caravelas regressaram e o ciclo da evangelização fechou-se através da comunhão entre igrejas que enviam e recebem em simultâneo.
Padre José Vieira, MCCJ

Falta-nos respiro missionário em Portugal

De acordo com o “Censo missionário” que fizemos e publicámos na edição anterior da Missão OMP, Portugal envia cada vez menos missionários e acolhe cada vez mais. Os dados não deixam dúvidas. No final de 2025, trabalhavam no nosso país 248 sacerdotes diocesanos estrangeiros (96 africanos, 71 europeus, 63 americanos e 18 asiáticos) e 197 religiosos (91 homens e 106 mulheres, sendo 93 africanos, 65 asiáticos, 25 europeus e 14 americanos). Ao todo, eram 445 e, pelas notícias, o número peca por defeito, porque continua a crescer em sacerdotes diocesanos, religiosos e seminaristas.

Ao mesmo tempo, os missionários portugueses no mundo eram apenas 243 (103 homens e 140 mulheres, estando 107 na África, 68 na Europa, 44 na América e 24 na Ásia) e 43 sacerdotes dio­cesanos (27 na Europa, seis na África e quatro na América). Dos leigos não obtivemos dados claros.

Todo o mundo é terreno de missão, mas a desproporção é evidente: só 178 (170 religiosos e oito Padres diocesanos) portugueses servem no chamado Sul Global, ou seja, nos países em desen­volvimento, localizados maioritariamente no Hemisfério Sul, contra 445 a trabalharem em Portugal. Parece que as “caravelas” que contribuíram para a evangelização estão a regressar em força, mas já pouco partem! Os portugueses nunca terão perdido o espírito ‘aventureiro’ – a avaliar pela quantidade de turistas apanhados no Médio Oriente, apesar das notícias de um conflito iminente com o Irão – mas o mesmo não se poderá dizer do espírito missionário que assenta na fé.

Os números do inquérito retratam uma Igreja cada vez mais dependente da ajuda externa para levar para a frente a sua pastoral ordinária. Parece haver uma certa resignação e ter-se instalado a ideia – em várias dioceses e institutos – de que assim podemos manter as coisas a funcionar. Há certa­mente experiências interessantes de renovação paroquial, mas parece prevalecer ainda uma pas­toral de manutenção. Absorvidos pelas necessidades locais estamos progressivamente a esquecer a dimensão universal ou só nos recordamos dela para suprir as nossas necessidades de clero.

A vocação missionária ad gentes atrai cada vez menos jovens; e os membros dos institutos missio­nários estão cada vez mais envelhecidos e sentem a pressão eclesial para se “paroquializarem”. Por isso, sair, enviar missionários é sinal de uma Igreja apostólica, que quer ser testemunha da sua tradição e das suas riquezas espirituais. Os missionários não partem em nome pessoal, mas da Igreja, em particular da sua comunidade cristã e talvez da sua aldeia. Não vão fazer o seu trabalho, mas o da Igreja, não vão dizer as suas palavras, mas as da comunidade cristã que os envia.

A missão é circular: receber e dar; acolher e partir. E é esta última que começa a faltar de modo dramático. Recorrendo à metáfora do movimento do coração de “sístole e diástole”, aplicada ao catequista pelo Papa Francisco, podemos dizer que falta o movimento de saída. Uma comunidade cristã madura está aberta ao mundo e à missão universal, por exemplo quando reza pelas vocações missionárias, acolhe os missionários e os ajuda com generosidade. A sua vida interior – oração, escuta da Palavra, caridade fraterna –, adquire o seu pleno significado quando se torna testemunho, quando se torna anúncio da Boa Nova e saída para as periferias do mundo – sem esquecer as geográficas. Portugal, que tem uma longa e gloriosa his­tória de missionação, faria bem em preservar este seu legado!

P. José António Mendes Rebelo,
Superior provincial dos combonianos em Portugal