Quarta-feira, 18 de Março de 2026
O padre Germano Joaquim dos Santos Serra, missionário comboniano português a trabalhar no Uganda, morreu naquele país africano, na manhã do passado dia 14 de Março, vítima de um acidente cardiovascular. Seguindo a tradição comboniana, ele manifestou o desejo de ser sepultado na sua terra de missão e a sua comunidade paroquial de Fânzeres celebra a eucaristia do seu funeral sem corpo, no próximo sábado dia 21 de Março de 2026.

O padre Germano tinha 70 anos, celebrados no passado dia 26 de Janeiro. Podemos dizer que se preparou para esta hora. De 7 de Outubro a 7 de Dezembro de 2025, era um dos participantes no Curso Comboniano para Anciãos, em Roma, que tinha por lema “A vida é agora”. Um curso que tinha como objectivo ajudar cada missionário participante a viver com serenidade e fecundidade esta fase da vida anciã; a crescer na relação com o Senhor; a amadurecer a liberdade interior; e a aprofundar a relação pessoal com o fundador, São Daniel Comboni.

Durante estes três meses de estadia em Roma, o padre Germano falava do seu passado com alegria e satisfação. Aprendeu a valorizar o tempo presente como kairós, como ocasião de graça e de crescimento humano e espiritual.

Terminado o curso, apesar da sua saúde precária, insistiu que queria voltar ao Uganda, para o meio do seu amado povo Karimojong. Morreu fiel à sua vocação comboniana. Que Deus o recompense e o acolha no seu Reino!

Vida e obra do padre Germano Serra

O padre Germano era natural de Fânzeres, Gondomar (Portugal), onde nasceu a 26 de Janeiro de 1956 e, apesar de ter sentido a chamada à vida missionária quando tinha apenas 12 anos, só acabou por entrar no seminário comboniano já a caminho dos 24.

Antes tinha frequentado o ensino técnico e trabalhado numa metalomecânica no Porto e, por algum, tempo ainda frequentou o Instituto de Engenharia, que acabou por abandonar. É o que na gíria se chamava uma “vocação adulta”.

Fez a sua primeira profissão religiosa em 21 de Maio de 1983 e a profissão perpétua em 28 de Novembro de 1988.

Enamorou-se do povo Karimojong (ou Karamojong) desde que foi estudar teologia para Kampala, a capital do Uganda, de 1983 a 1987. Aproveitava as férias para ir para Kanawat, uma das missões que os Combonianos tinham – e têm – entre aquele povo pastoralista e guerreiro.

Terminados os estudos, voltou a Portugal. É ordenado sacerdote no dia 4 de Junho de 1989 e fica em Portugal. Regressa ao Uganda, em 1992. O seu sonho era trabalhar entre o povo que melhor conhecia.

É destinado ao Karamoja onde há duas dioceses – Kotido e Moroto – esta última liderada pelo bispo comboniano D. Damiano Guzzetti.

É introduzido à realidade pelo padre Mario Mantovani, que, em 2003, veio a morrer numa emboscada. Desde então, perfez mais de duas décadas de trabalho no Uganda – em dois períodos (1992-2005 e de 2012 até agora) – intercalados com trabalho em Portugal, de 2006 a 2011.

O padre Germano Serra embrenha-se mais profundamente na realidade Karimojong já em 1998, submetendo-se à cerimónia de iniciação tribal e interessa-se pela língua local. Apesar de não ter preparação em lexicografia, sentiu que não podia deixar cair em saco roto o legado de dois grandes conhecedores da língua Karimojong, os padres combonianos Pasquale Crazzolara e Bruno Novelli. Por isso, aconselhado por alguns especialistas que contactou, decidiu apoiar-se no material que este último tinha deixado – mais de 600 folhas de apontamentos à mão, em que, além do significado das palavras, havia frases exemplificativas.

O padre Germano acabaria por formar uma equipa internacional para o ajudar na empresa do dicionário: um lexicógrafo em Brighton (Inglaterra), que lhe vende o programa, uma dactilógrafa ugandesa, uma revisora de inglês a viver em Espanha (jubilada da Universidade de Salamanca), um corrector da língua Karimojong, uma grafista em Portugal, e um par de conselheiros da Universidade de Makerere, em Kampala. O resultado foi uma obra de 765 páginas, que inclui o significado das palavras e o modo como se podem usar. O trabalho foi subsidiado pela Conferência Episcopal Italiana e a impressão pelo Movimento de Solidariedade Missionária de Viseu (Portugal).

Dicionário da língua karimojong.

José Rebelo e Arlindo Pinto,
Missionários combonianos