Quarta-feira, 17 de junho de 2026
O irmão Alberto Degan, missionário comboniano, trabalhou no Centro Cultural Afro de Guayaquil, no Equador. O seu serviço missionário, juntamente com outros combonianos e leigos, consistiu em testemunhar o Evangelho, viver a fraternidade e ajudar o povo afro a ser protagonista da sua história.

Em 1980, os Missionários Combonianos fundaram em Guayaquil, uma cidade na costa equatoriana, o Centro Cultural Afro. Foi o primeiro centro, em toda a América Latina, dedicado exclusivamente à pastoral dos afro-descendentes, que até hoje representam a parte mais pobre e discriminada da população do Equador. De facto, a rejeição, a exclusão e a falta de oportunidades são a realidade quotidiana de muitos negros que vivem nesta cidade. Com esse serviço missionário, queremos incentivar as instituições e também a Igreja a valorizar a pessoa afro-descendente e a sua cultura; ao mesmo tempo, queremos que os afro-equatorianos acreditem na sua própria beleza e nos seus próprios talentos.

Tive a graça de viver a minha vocação missionária em Guayaquil de 2002 a 2010 e de 2020 a 2024. Como irmão comboniano, sinto-me empenhado, sobretudo, na promoção humana. No entanto, quando falamos de promoção humana, não nos referimos apenas ao desenvolvimento técnico-científico, pois um desenvolvimento desvinculado de uma espiritualidade da fraternidade e da justiça aumenta – em vez de diminuir – a desumanidade. Por isso, acreditamos que promoção humana significa – antes de mais nada – promover a humanidade, valorizar as riquezas humanas e formar pessoas segundo o projecto de Deus, que veio ao mundo como «primogénito entre muitos irmãos» (Rm 8,29) para nos ensinar a viver a fraternidade. Queremos, portanto, valorizar as belezas humanas e espirituais das pessoas que a sociedade marginaliza e não leva em consideração: os afro-descendentes, os habitantes das periferias urbanas, os toxicodependentes, etc.

Ao centro na foto: Irmão Alberto Degan, missionário comboniano italiano, em Guayaquil (Equador).

Violência e injustiça social

Infelizmente, nos últimos anos, Guayaquil conquistou um primado pouco invejável: entrou no top 10 das dez cidades mais violentas do mundo, com uma taxa de 80 homicídios por cada 100 000 habitantes (em 2025, Guayaquil concentrou 2545 dos 9235 homicídios do Equador; em Portugal, no mesmo ano, houve 108 homicídios registados).

De facto, em 2025 o Equador foi considerado o sexto país mais perigoso do mundo (dados do ACLED — Armed Conflict Event Location and Data Project), e isto deve-se sobretudo aos cartéis mexicanos de tráfico de droga que, a partir de 2017, entraram no território, que se tornou um dos principais pontos de transbordo de droga.

E assim, agora, quase todos os bairros da cidade estão nas mãos de gangues ligados aos cartéis. Estes gangues impõem uma taxa a todos os pequenos comerciantes, mesmo àqueles que ganham apenas o suficiente para sobreviver. Muitos desistem das pequenas actividades que tinham começado a empreender, porque com o «imposto» não teriam praticamente nenhum lucro.

Ao drama da violência junta-se o da injustiça social: no Equador, as desigualdades continuam a aumentar. Na pequena cidade de Samborondón, nos arredores de Guayaquil, refugiaram-se muitos ricos: em segurança nas suas cidadelas «fortificadas» e protegidas, não se sentem muito ameaçados pela violência que, pelo contrário, assola os bairros populares. Quem vive aqui tem todo o conforto e goza de todos os direitos. Enquanto uma pequena elite detém a maior parte do capital, mais de um quarto da população vive na pobreza.

Viver uma vida boa num ambiente violento e injusto

É possível viver uma vida boa quando se vive numa sociedade injusta? É possível oferecer aos jovens e crianças uma vida bela numa cidade dominada pela violência? Estas são questões que agitam o coração de muitos guaiaquilenhos.

É comovente ver como tantas pessoas lutam para viver uma vida boa, mesmo num contexto tão difícil. Acredito que é precisamente nisto que reside a grandeza do ser humano: em nunca desistir de procurar a beleza e a bondade, mesmo quando tudo parece empurrá-lo para a rendição.

Estou convencido de que mesmo numa cidade violenta como Guayaquil é possível viver uma vida bela. Qual é o fundamento desta certeza? De forma desarmante, posso parafrasear o teólogo Jon Sobrino: isto é o que vemos e experimentamos, isto é o que acontece entre os pobres.

Mestres da vida

Jesus Cristo veio ensinar-nos a viver uma vida bela num mundo violento, e no Equador encontrei muitos discípulos do Mestre que, na sua simplicidade, se transformaram em meus pequenos mestres.

Os meus primeiros mestres são as missionárias e os missionários afro, leigos afro-descendentes formados na espiritualidade comboniana de «Salvar a África com a África», que evangelizam a partir da cultura e da espiritualidade próprias do povo negro. Apesar de viverem nos bairros mais violentos da cidade, Gloria, Estela, Tomasa, Norma e Carlos continuam a organizar nas suas casas os palenques infantis [os palenques eram comunidades livres, fundadas e autogeridas por escravizados fugitivos durante o período colonial nas Américas]. Não esqueçamos que os mafiosos ligados ao narcotráfico tentam recrutar até crianças de 6-7 anos. Estes palenques são, portanto, espaços alternativos onde se podem educar os construtores de um futuro diferente, proporcionando-lhes uma formação cristã, enraizada na sua espiritualidade afro. Por outras palavras, procura-se salvar estas crianças da cultura da violência para que, enraizadas em Jesus, não se deixem seduzir pelos cantos de sereia do ganho fácil associado à criminalidade do tráfico de droga.

Outra das minhas mestras é a Orfilia. Fui eu, há vinte anos, que lhe mostrei os bairros periféricos de Guayaquil, onde vive a maioria da população negra. No início, era ela que me acompanhava, um pouco receosa. Quando regressei a Guayaquil, dez anos depois, era ela que muitas vezes me acompanhava aos bairros periféricos onde poucos se atrevem a entrar. Orfilia, que trabalha como contabilista, com a colaboração de alguns amigos, desenvolveu há alguns anos um programa de bolsas de estudo para crianças e adolescentes afro-equatorianos, e dedica grande parte do seu tempo a acompanhar o desempenho escolar destas crianças, organizando também para elas espaços de actividades pós-escolares.

Outro dos meus mestres é o Rodrigo, que me convidou a colaborar com um centro de reabilitação para toxicodependentes gerido por uma Igreja evangélica. É bela esta colaboração com os evangélicos, superando «rivalidades» entre as diferentes denominações religiosas. Com estes jovens que lutam para abandonar o vício da droga, procuramos o caminho que conduza a uma mudança fundamental na vida, uma mudança que é impossível levar a cabo apenas com as forças humanas, mas que se torna possível se nos pusermos nas mãos de Deus. Rodrigo, um jovem pai de família, dedica grande parte do seu tempo a estes jovens.  

Outra das minhas mestras é Karen, que vive em Trinipuerto, um dos bairros mais violentos da cidade. Ela trabalha e dedica-se aos seus dois filhos, mas, apesar disso — fiel e perseverante —, encontra também tempo para se reunir com as crianças do bairro e com os jovens da Pastoral Afro: lê com eles a Palavra de Deus e conseguiu consolidar um espaço saudável e solidário num contexto tão problemático. Karen quer salvar estes jovens da cultura da violência e da resignação, dando-lhes instrumentos para continuarem a caminhar, a lutar e a ter esperança.

Certa vez, alguns amigos perguntaram-me: mas há esperança para o Equador, que parece sufocado pela violência? E eu respondo: sim, enquanto houver pessoas como o Rodrigo, a Orfilia, o Carlos e a Karen, que continuam a testemunhar a beleza do Evangelho num contexto tão difícil, vejo um grande futuro para este país.

Sentir-se amados

Nós, irmãos combonianos, acompanhamos e sentimo-nos acompanhados por estas pessoas: numa realidade tão dura, apoiamo-nos uns nos outros e, nesta fraternidade, sentimos amor e consolo mútuos. Desta forma, Deus dá-nos a força para continuarmos a caminhar e a ter esperança. Como afirma o padre comboniano David Glenday: «Se o missionário viver a missão com amor, experimentará a transformação. Por um lado, cresce como sinal visível da presença amorosa de Deus. Por outro, aqueles que são acompanhados tornam-se mais conscientes da sua dignidade como filhos amados de Deus. Assim, a missão torna-se reciprocamente geradora de vida.»

Penso que isto é o mais importante da missão: que as pessoas – sobretudo aquelas que são marginalizadas e descartadas – se sintam amadas e valorizadas nas suas riquezas humanas. Foi isto que experimentei em Guayaquil.

Irmão Alberto Degan, MCCJ