Neste domingo concluímos a leitura do capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que contém o terceiro grande discurso de Jesus, no qual o Reino de Deus é apresentado através de sete parábolas. Hoje escutamos as três últimas, dirigidas aos apóstolos: o tesouro escondido, o negociante de pérolas e a rede que apanha toda a espécie de peixes. (...)

Onde está o teu tesouro?

«O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo.»
Mateus 13,44-52

Neste domingo concluímos a leitura do capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que contém o terceiro grande discurso de Jesus, no qual o Reino de Deus é apresentado através de sete parábolas. Hoje escutamos as três últimas, dirigidas aos apóstolos: o tesouro escondido, o negociante de pérolas e a rede que apanha toda a espécie de peixes.

As duas primeiras são semelhantes e falam-nos da alegria de quem descobriu o Reino. A terceira, pelo contrário, recorda a parábola do trigo e do joio, escutada no domingo passado, e diz respeito à convivência entre o bem e o mal.

A parábola da rede, tal como a do trigo e do joio, evoca o «fim do mundo», isto é, a conclusão da nossa vida, como o momento supremo em que será comprovada a sua autenticidade e desmascarada a falsidade daqueles que «chamam ao mal bem e ao bem mal, que fazem das trevas luz e da luz trevas, que fazem do amargo doce e do doce amargo» (Isaías 5,20).

Detenhamo-nos nas duas breves parábolas do tesouro e da pérola.

1. QUEM são os que procuram tesouros e pérolas?

«O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem encontra-o e torna a escondê-lo. Depois, cheio de alegria, vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo.»

As histórias de tesouros são sempre fascinantes, hoje como no tempo de Jesus. Numa terra frequentemente assolada por guerras, era comum, quando um inimigo se aproximava, esconder as próprias riquezas, enterrando-as num campo ou sob o chão da casa antes de fugir, na esperança de poder recuperá-las mais tarde. Contudo, isso nem sempre acontecia.

Pois bem, o pobre trabalhador agrícola da parábola é um dos afortunados que, por um acaso inesperado, encontra a grande oportunidade da sua vida e não a deixa escapar: cheio de alegria, vende todos os seus bens e compra aquele campo!

«O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, vai, vende todos os seus bens e compra-a.»

No Oriente, as pérolas eram consideradas uma das coisas mais preciosas, tal como os diamantes o são para nós. Eram símbolo de beleza, a tal ponto que «Penina», isto é, «Pérola», era também um nome dado às raparigas (cf. 1 Samuel 1,2). O negociante da parábola procurava essas pérolas e, quando encontra uma de grande valor, não hesita também ele em vender todos os seus bens para a adquirir.

Ambos, o pobre camponês e o rico negociante, comportam-se da mesma maneira: encontram o tesouro ou a pérola, vão, vendem tudo e compram. Mas, enquanto o camponês encontra o tesouro inesperadamente, o negociante encontra a pérola depois de a ter procurado durante muito tempo.

Nós somos esses exploradores de tesouros e de pérolas, de riqueza e de beleza, de perfeição e de infinito. A nossa vida é um campo semeado de tesouros escondidos debaixo dos nossos pés, mas a «lama» impede-nos de os ver. A nossa vida é um bazar repleto de pérolas, muitas vezes demasiado cobertas de pó para que possamos perceber o seu esplendor. Acontece, contudo, sacrificarmos tudo, a vida e a alma, deslumbrados por algo falso, para depois ficarmos de mãos vazias.

2. O QUE são o tesouro e a pérola?

O que representam aquele tesouro e aquela pérola? Para Salomão, são a Sabedoria (cf. a primeira leitura); para o salmista, são a Lei, a Torá (cf. o Salmo Responsorial 118); para São Paulo, são a vocação e o projeto de Deus para a nossa vida (cf. a segunda leitura). Para Jesus, porém, são o Reino. Podemos, contudo, refletir sobre as duas parábolas, ampliando ainda mais a sua perspetiva.

O tesouro é, antes de mais, Cristo. Por Ele, os apóstolos abandonaram tudo, e muitos outros fizeram o mesmo depois deles. Paulo considerou tudo como lixo diante da sublimidade do conhecimento de Cristo (cf. Filipenses 3,8). Muitos cristãos estão dispostos a dar até a própria vida para não O perderem.

Há, porém, também aqueles que não descobriram em Jesus esse tesouro: como o jovem rico, que se afastou triste; como Judas, que O vendeu por trinta moedas; e como tantos cristãos que, por nunca O terem encontrado verdadeiramente, O trocaram por alguma quinquilharia.

Também nós, contudo, somos aquele tesouro e aquela pérola que Cristo encontrou no campo ou no mercado do mundo. Por isso, Ele resgatou-nos, «não por meio de coisas corruptíveis, como a prata e o ouro, […] mas pelo sangue precioso de Cristo» (1 Pedro 1,18-19).

Pérolas são também as pessoas que estão ao nosso lado, muitas vezes escondidas por detrás dos seus defeitos, da sua aspereza e das suas conchas.

3. ONDE encontrar o tesouro?

Onde e como podemos encontrar o tesouro ou a pérola? Permitam-me que o diga através de um conto hassídico — o hassidismo é um movimento espiritual judaico —: a história do Rabi Eisik, filho do Rabi Jekel, de Cracóvia, narrada por Martin Buber, filósofo judeu.

«Depois de muitos e muitos anos de dura miséria, que, apesar de tudo, não tinha abalado a sua confiança em Deus, o Rabi Eisik recebeu em sonhos a ordem de ir a Praga procurar um tesouro debaixo da ponte que conduzia ao palácio real. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik pôs-se a caminho e chegou a Praga a pé.

A ponte, porém, era vigiada dia e noite por sentinelas, e ele não teve coragem de escavar no lugar indicado. Contudo, voltava à ponte todas as manhãs e vagueava pelas proximidades até ao anoitecer. Por fim, o capitão da guarda, que tinha reparado nas suas idas e vindas, aproximou-se dele e perguntou-lhe amavelmente se tinha perdido alguma coisa ou se esperava alguém. Eisik contou-lhe o sonho que o levara até ali, desde a sua longínqua terra.

O capitão desatou a rir: “E tu, pobre homem, por dares ouvidos a um sonho, vieste até aqui a pé? Ah, ah, ah! Estás bem arranjado se confias nos sonhos! Nesse caso, também eu deveria ter-me posto a caminho para obedecer a um sonho e ir até Cracóvia, à casa de um judeu, um tal Eisik, filho de Jekel, procurar um tesouro debaixo do fogão! Eisik, filho de Jekel… estás a brincar? Estou mesmo a imaginar-me a entrar e a revolver todas as casas de uma cidade onde metade dos judeus se chama Eisik e a outra metade Jekel!” E voltou a rir.
Eisik despediu-se dele, regressou a casa e desenterrou o tesouro.»

Martin Buber conclui: «Há algo que não podes encontrar em nenhuma outra parte do mundo; contudo, existe um lugar onde o podes encontrar: onde te encontras, no lugar mais íntimo de ti mesmo!» (O caminho do homem).

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

O verdadeiro tesouro

Referências bíblicas

  • 1ª leitura: “Já que pediste sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu pedido” (1 Reis 3,5.7-12)
  • Salmo: Sl. 118(119) – R/ Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!
  • 2ª leitura: “Desde sempre, os predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8,28-30)
  • Evangelho: “Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mateus 13,44-52 ou 44-46)

Escolher a Sabedoria

Entre a primeira leitura e o evangelho, temos ao menos um ponto comum: a escolha. De fato, podemos ver, na leitura, como Salomão escolhe a Sabedoria, ou seja, a arte do discernimento, de preferência a uma vida longa, à riqueza ou à morte dos seus inimigos.

No evangelho, igualmente, o homem que descobre o tesouro ou a pérola preciosa prefere-os a todo o resto. Salomão escolheu a Sabedoria, não por interesse próprio, mas por seu povo; povo, aliás, que não era propriedade sua, posto tratar-se do povo escolhido por Deus.

A oração do rei supõe, portanto, um desapossamento total. Não é proprietário sequer da Sabedoria, já que esta lhe vem de Deus, de quem, de alguma forma, será apenas um «oficial». E isto nos faz pensar no que, de diversas formas, Jesus nos fala no evangelho de João: «As obras que faço não são minhas, mas daquele que me enviou

O mesmo valendo para as suas palavras. De tal forma que, sendo totalmente transparente, exatamente por isto, através dele podemos ver e ouvir o Pai. Com uma diferença: Salomão recebeu a Sabedoria, já o Cristo é ele mesmo a Sabedoria. Aliás, escolher a Sabedoria já é Sabedoria.

Por isso Salomão é imagem do Cristo, tanto assim que este herdará os títulos de Salomão: Rei de Sabedoria, Príncipe da Paz, Rei da glória. Mas Salomão não é somente imagem do Cristo, daí suas derrapagens como sabemos: será por isso a origem da separação das tribos, enquanto que Cristo será a origem da sua unidade.

O povo sobre o qual Salomão deve reinar é numeroso; o povo de Cristo é a humanidade inteira.

A escolha do homem e a escolha de Deus

Passemos ao tesouro e à pérola. Grande, portanto, é a Sabedoria do homem que os escolheu e que por eles sacrifica todo o resto. O evangelho diz que, através das imagens do tesouro e da pérola, trata-se do Reino de Deus.

Reino este que vale preferir a tudo o que a existência nos possa dar, posto ser ele vida indestrutível e amor sem mancha alguma. Se, contudo, podemos escolher o Reino, é porque Deus nos escolheu antes: nossa escolha é, portanto, uma resposta a um amor anterior, se é que podemos falar de anterioridade, em se tratando de eternidade.

A 2ª leitura nos fala desta escolha primeira de Deus, com as palavras «os que de antemão ele conheceu», «predestinados a serem conformes à imagem de seu Filho». Nesta escolha recíproca, vamos encontrar o tema do matrimônio, que é bem mais que uma metáfora: os esposos passam a limpo o que se dá entre Deus e a humanidade, significando-o, como se pode ler em Efésios 5,26-32.

Se a Sabedoria consiste em amar (escolher) a Deus sobre todas as coisas, por isso mesmo, em sua mesma Sabedoria, Deus ama o homem sobre todas as coisas. Não por outro motivo, este de quem as palavras e o comportamento revelam Deus, Cristo, amou os seus «até o fim» (João 13,1), preferindo-os à sua própria vida.

Para Cristo, o homem é o tesouro escondido no campo, por quem sacrifica a sua vida, a sua honra, o seu poder e a sua glória; resumindo, a sua «forma divina», conforme diz Paulo em Filipenses 2,6-8.

O desejo da alegria

Em seus comentários sobre São João, Santo Agostinho insiste em que cada um é atraído pelo seu prazer. E, com o prazer em perspectiva, daí nasce o desejo. A escolha do tesouro e da pérola é, portanto, fonte de alegria: «Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens», diz Jesus.

Não somos, então, convidados ao masoquismo, à tristeza etc., como poderiam nos fazer pensar a necessidade de sacrificar tudo ao Reino e ao espetáculo da morte de Cristo. Trata-se de deixarmo-nos atrair por nosso desejo mais profundo, o desejo de viver, e viver para sempre no amor.

É verdade que este desejo fundamental é com frequência inconsciente, extraviando-se numa multidão de desejos ilusórios, porque o seu objeto não nos faz sair da perspectiva da morte. Concretamente, onde está o tesouro, onde está a alegria, onde se encontra o amor de Deus sobre todas as coisas?

Não tem mistério: está no amor, simplesmente; ou seja, no serviço ao próximo, uma vez que através dos outros é que amamos a Deus, este Deus a quem não se pode amar, isto é, servir, diretamente (1 João 4,20).

O que importa, portanto, é que nos interroguemos sobre o que desejamos verdadeiramente, o que procuramos em nossa existência, ou seja, qual o sentido da nossa vida. Sem esquecer que não se trata de nenhum esforço ascético, mas de deixarmo-nos atrair por este amor que nos precede: «Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair» (João 6,43). Lemos em Mateus 6,21: “Onde está teu tesouro, aí estará também teu coração”.

O tesouro escondido

Tudo o que existe, tudo o que acontece é “comparável ao reino dos céus” porque tudo, salvo o pecado e o mal que ele acarreta, é à imagem de Deus. E até mesmo este mal (comentário precedente) é recuperado por Cristo em sua crucifixão, para gerar uma vida nova.

Eis aí o campo no qual está escondido o tesouro do Reino. O mistério da criação, que faz com que existam tantas coisas ao invés de nada e que faz com que eu mesmo esteja aqui, revela e também esconde a “mão” de Deus.

De tão habituados a habitar este universo, não mais nos admiramos com o fato de que ele esteja aí. Numerosos são, no entanto, os insatisfeitos, que procuram o tesouro que nele está escondido. Não é este o caso, na parábola, de quem o encontra.

E isto é importante, porque somos tentados a imaginar que somente os que buscam a Deus podem encontrá-lo. Mas Ele muitas vezes vem nos encontrar de improviso, tal como ocorreu com o escritor P. Claudel, por acaso, na catedral de Paris.

Os evangelhos estão cheios destes encontros, a exemplo do episódio da viúva de Naím, em Lucas 7-11, ou do chamamento de Mateus (Mt 9,9). O Reino, portanto, está aqui, na superfície e nas profundezas das nossas existências; e em toda a criação.

Por certo, nesta parábola, quem encontra o tesouro dá prova de certa desonestidade. Nas parábolas, os exegetas dizem que nem todos os detalhes são para serem explorados.

O que está posto em evidência, na descoberta do tesouro, é a alegria e o fato de que, bruscamente, tudo o que este homem possuía deixa de contar para ele. O que supõe que o tesouro do Reino é mais importante que tudo o que possamos ter além dele. Uma nova vida começa. Cabe a nós descobrir em que isto nos interessa.

A pérola rara

À primeira vista, poderíamos acreditar que a parábola da pérola só faz repetir a do tesouro. Reparemos, no entanto, diferenças importantes. Enquanto o homem que encontra o tesouro não buscava nada absolutamente, o negociante “procura pérolas preciosas“.

Temos aí uma preocupação que parece um tanto estranha, no que diz respeito ao “Reino dos céus“. Entretanto, o Reino esconde-se também nesta procura que vai agora ser preenchida e superada.

O negociante encontra o que procura, e tudo o que possui já perde imediatamente toda importância aos seus olhos. Somente a pérola excepcional ganha valor. Ele também vai vender tudo o que possui para adquiri-la.

Traduzindo: a vida que se leva nos domínios de Deus ultrapassa – e quanto! – tudo o que inicialmente contava para nós. A riqueza, em que colocávamos nossa segurança; a consideração, confundida com o valor; o poder, sob qualquer forma que fosse…

Estas três pequenas parábolas devem ser lidas em paralelo com a história do “jovem rico“, em Mateus 19,20-21, por exemplo. Encontramos nelas, se queremos chegar até o fim e tomar posse do que há de melhor, a necessidade de “vender” tudo o que possuímos e em que depositamos uma confiança ilusória.

O que equivale, aliás, a nos libertarmos, colocando-nos no caminho para o Reino, em seguimento do Cristo. Este é o tesouro, esta é a pérola. A parábola do tesouro sinaliza a alegria de quem o encontra, enquanto que o jovem atracado aos seus “muitos bens” vai embora entristecido.

Estes textos nos ensinam notadamente que a nossa situação inicial não conta em nada para o negócio: quer sejamos alguém que passeia por um campo, um negociante à procura de pérolas, um observador da Lei em busca de boa consciência etc., um dia ou outro Deus virá nos encontrar, para nos abrir um futuro inesperado.
http://www.ihu.unisinos.br