Terça-feira, 22 de setembro de 2026
Dezasseis dos 23 bispos combonianos ao serviço das Igrejas locais em África e na América Latina reuniram-se em Roma, de 16 a 21 de setembro, para um encontro de formação e partilha, deixando também uma mensagem à Família Comboniana neste tempo de reconfiguração.
MENSAGEM DOS BISPOS COMBONIANOS À FAMÍLIA COMBONIANA
«Ao ver as multidões, sentiu compaixão delas» Mt 9,36
Queridos irmãos e irmãs,
nós, os bispos combonianos, reunimo-nos na Casa Geral dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus para um momento de formação permanente e de diálogo. Com esta carta, queremos, antes de mais, expressar a nossa profunda gratidão por esta oportunidade de encontro e pelo acolhimento na Casa Geral. Estar aqui, na casa que guarda a memória e o caminho do Instituto, permite-nos partilhar não apenas um momento institucional, mas sobretudo uma fraternidade comboniana que nasce da mesma vocação missionária.
Queremos dar graças pelo dom da vocação missionária nos nossos Institutos, pelo serviço que tantos irmãos e irmãs prestam à Igreja nos diferentes continentes e, sobretudo, pelo testemunho de tantos missionários e missionárias que, muitas vezes no silêncio e em situações difíceis, continuam a viver fielmente o carisma de Comboni, participando na missão de Cristo onde quer que a Igreja seja chamada a fazer-se presença, escuta, reconciliação e esperança.
Gostaríamos de partilhar convosco uma palavra que nos parece particularmente importante para este momento dos nossos Institutos e da missão: o coração. O Papa Francisco, na Dilexit nos, convidou-nos a regressar ao coração. Não como refúgio intimista, mas como o lugar onde a pessoa reencontra a sua unidade, reconhece aquilo que verdadeiramente importa e se abre ao encontro com Deus e com os outros. O Papa Leão, com a Dilexi te, aprofundou este tema, falando da necessidade do amor aos pobres. O mundo precisa hoje, como sempre, de uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar (DT 120). O amor aos pobres é a garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus (DT 103).
É do coração que nasce a missão. E talvez seja precisamente aqui que se encontra um dos desafios mais profundos que hoje temos diante de nós: renovar a missão significa, antes de mais, deixarmo-nos renovar no coração. Num tempo de mudanças de época, também os nossos Institutos estão a atravessar profundas transformações e sentem a necessidade de repensar as estruturas e os modos de agir. A missão pede-nos escolhas corajosas. Mas toda a reorganização adquire o seu verdadeiro significado quando nasce da escuta do chamamento de Deus e permanece orientada para o bem da missão, sem nunca perder de vista o bem de cada pessoa.
Por isso, não devemos simplesmente perguntar-nos: como podemos continuar a fazer aquilo que sempre fizemos, com menos pessoas e menos recursos? A pergunta mais profunda é: o que está o Espírito Santo a pedir hoje ao carisma comboniano? Que nova forma de missão? Que compreensão renovada do nosso modo de ser Igreja? Que estruturas estão realmente ao serviço do Evangelho e quais, pelo contrário, correm o risco de se tornarem fins em si mesmas? A reorganização dos nossos Institutos é, portanto, um caminho necessário que devemos enfrentar sem medo e que pode também tornar-se uma graça: a oportunidade de regressar ao essencial e permitir que o carisma recebido de Comboni encontre novas formas, adequadas às realidades em que hoje somos chamados a viver. Desejamos que este caminho se realize num estilo de sinodalidade, através de uma relação renovada entre as Igrejas locais e os Institutos de vida consagrada, entre presbíteros e leigos, mulheres e homens, idosos e jovens.
A missão é participação na missão de Cristo. E uma Igreja missionária é uma Igreja que não vive para si mesma, mas para os outros. Por isso, precisamos de uma compreensão renovada do nosso modo de ser Igreja. Não podemos anunciar a reconciliação se as nossas comunidades não se tornam lugares de reconciliação. Não podemos falar de paz se não aprendermos a preservar a paz nas nossas relações. Não podemos anunciar a fraternidade a um mundo dividido se nós próprios não nos tornarmos irmãos capazes de nos escutarmos, perdoarmos e apoiarmos mutuamente.
Por isso, gostaríamos também de renovar juntos um apelo à paz, ao desarmamento e à reconciliação. Vivemos num mundo marcado por guerras, violência, rearmamento, polarizações e medo. Em muitos dos lugares onde os missionários estão presentes, as populações trazem no corpo e na memória as feridas dos conflitos. Como Igreja, não podemos resignar-nos à lógica da violência. E nós, missionários, somos chamados a ser artesãos da paz. O desarmamento não diz respeito apenas às decisões políticas e internacionais: interpela também a conversão do coração e favorece uma disposição não violenta e pacífica nas relações. Significa desarmar as mãos, mas também as palavras, os juízos, os medos e as desconfianças. Uma missão reconciliada pode tornar-se semente de reconciliação.
Durante o nosso encontro, encontrámos outra palavra que nos parece decisiva: o cuidado. O cuidado de nós próprios, do irmão, das comunidades eclesiais às quais somos enviados, juntamente com o cuidado da nossa casa comum. O cuidado não é fraqueza nem fechamento sobre nós próprios, mas atenção amorosa à vida. Estamos conscientes de que o cuidado é parte essencial do ministério do bispo; por isso, pedimos ao Senhor a sabedoria e a delicadeza necessárias para sermos pais acolhedores e companheiros de caminho das nossas comunidades. A Igreja precisa também de missionários que saibam cuidar da sua vida espiritual, da sua humanidade, da sua formação, do aprofundamento da espiritualidade comboniana, da sua saúde, das suas relações e da sua vocação. Um missionário que não cuida de si próprio corre o risco, com o tempo, de perder a capacidade de cuidar dos outros. Precisamos de construir comunidades nas quais cada um possa sentir-se acolhido, escutado e acompanhado. Precisamos de aprender novamente que o irmão não é um obstáculo à missão: é parte da própria missão. E precisamos de cuidar da criação, porque na beleza da terra podemos ainda reconhecer algo da beleza do amor de Deus.
Queridos irmãos e irmãs, olhando o mundo com o coração de Cristo, já não vemos apenas problemas a resolver, mas pessoas a amar, comunidades a acompanhar na fé, feridas a tratar e beleza a preservar. Os tempos que vivemos não são fáceis, mas, se o nosso coração permanecer aceso pelo amor de Cristo, então, mesmo na nossa pobreza, seremos esperança para o mundo. Peçamos, portanto, ao Senhor que renove em nós o coração missionário de Comboni. Um coração capaz de ver, de escutar, de fazer causa comum com aqueles que sofrem e com aqueles que se alegram, partilhando as suas feridas e as suas esperanças.
Asseguramos-vos a nossa oração e pedimos-vos que também rezeis por nós, para que juntos possamos servir o Povo de Deus com humildade e coragem.
Os bispos combonianos