Terça-feira, 13 de Junho de 2023
Partilhamos este opúsculo como um guia para nos ajudar a viver mais intensamente a próxima Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (16 de Junho), acolhendo o convite que nos foi dirigido pelo XIX Capítulo Geral: aprofundar e assumir a nossa espiritualidade, marcada por alguns elementos específicos que criam a nossa identidade de Missionários Combonianos do Coração de Jesus.

Rumo à solenidade do Coração de Jesus
16 junho 2023

INTRODUÇÃO

Partilhamos este opúsculo como um guia para nos ajudar a viver mais intensamente a próxima Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (16 de Junho), acolhendo o convite que nos foi dirigido pelo XIX Capítulo Geral: aprofundar e assumir a nossa espiritualidade, marcada por alguns elementos específicos que criam a nossa identidade de Missionários Combonianos do Coração de Jesus.

Pedimos aos irmãos de cada comunidade que estudem e encontrem o melhor modo de preparar a solenidade: poderíamos optar por um dia de retiro, ou por uma série de encontros de oração e/ou partilha...

O texto fundamental que nos deve guiar nesta reflexão é o nº 3 da Regra de Vida:

O Fundador encontrou no mistério do Coração de Jesus o impulso para o seu empenho missionário. O amor incondicional de Comboni pelos povos africanos tem a sua origem e o seu modelo no amor salvífico do Bom Pastor, que ofereceu a sua vida na cruz pela humanidade: "E confiando naquele Coração sacratíssimo... sinto-me ainda mais disposto a sofrer... e a morrer por Jesus Cristo e pela saúde dos infelizes povos da África Central" (Escritos, 4290).

E eis as palavras do XIX Capítulo Geral sobre o assunto:

12.     Sonhamos com uma espiritualidade que nos permita continuar a crescer como família fraterna de pessoas consagradas enraizadas em Jesus, na sua Palavra e no seu Coração, e contemplá-lo no rosto dos pobres e na experiência vivida por São Daniel Comboni para ser missionários.

14.3 Queremos sensibilizar-nos para os aspectos fundamentais do carisma (por exemplo, a Cruz, o Coração de Jesus, a opção pelos mais pobres e abandonados) através da visão, do espírito e da sensibilidade de Comboni, para ir às raízes da sua espiritualidade e reapropriar-nos dela.

Podemos pensar na nossa vida missionária como um "caminho" que parte do Coração de Jesus e chega ao nosso coração, para depois chegar ao coração das pessoas com quem partilhamos a história e o destino. Ser - ou melhor, tornar-se - "consagrados enraizados em Jesus, no seu Coração" significa tornar-se aquilo que somos, realizar a identidade que recebemos do Senhor, graças a São Daniel Comboni. Missionários do Coração de Jesus é o nosso nome.

O livro da nossa Regra de Vida contém, no final, uma Carta sobre o novo nome do Instituto, especificando o que inspirou a nova escolha em 1979. É bom reler e meditar este texto, como um primeiro momento de aprofundamento.

A nossa Regra de Vida, no nº 3, propõe-nos a experiência de Comboni: o seu empenho missionário e o seu amor incondicional pelos povos da África Central tiveram a sua origem e o seu modelo "no amor salvífico do Bom Pastor" que se deixou trespassar pelo Coração. O próprio Comboni, relendo a sua experiência com uma consciência cada vez maior, fala de si como alguém que

"transportado pelo ímpeto daquela caridade acesa com uma chama divina na encosta do Gólgota, e que saía do lado do Crucificado para abraçar toda a família humana, sentia bater mais frequentemente o seu coração; e uma virtude divina parecia impeli-lo para aquelas terras..., para tomar nos braços e dar o beijo de paz e de amor àqueles... seus irmãos" (Escritos, 2742).

O Coração de Jesus é a alma da missão e a sua motivação fundamental.

É certamente bom procurar e criar programas, estratégias, estruturas para a missão, mas não esqueçamos que somos sobretudo chamados a "reavivar o dom" (2Tm 1,6s). A tentação pode ser o cansaço (acedia) que seca a alma e cria pessimismo, fatalismo, desconfiança e tibieza, ou o desejo de nos tornarmos "protagonistas", como se fôssemos o fim da missão.

A este respeito, poderíamos citar alguns textos da Evangelii Gaudium: 26; 259; 264; 266-267.

CONTEMPLAR E ASSUMIR

Para nos enraizarmos nos sentimentos do Coração do Filho de Deus, Jesus, o caminho proposto pela nossa Regra de Vida, como fruto de uma experiência consciente, desenvolve-se à volta de duas palavras: contemplar e assumir.

Noutras palavras, que encontramos nos Evangelhos, podemos dizer: "vir a Jesus", "ver nele o Filho amado e consagrado pelo Espírito do Pai", "alimentar-se dele para assimilar cada vez mais os seus sentimentos"...

Isto acontece, sobretudo, quando deixamos que o Senhor Jesus penetre nas profundezas do nosso coração e traga à luz sentimentos, pensamentos, atitudes e desejos que não são os de um consagrado ao Senhor.

Deixemos que Jesus nos cure, renove e transforme. Então tornar-nos-emos pessoas "conquistadas por Cristo" e animadas pelo desejo de conquistar os outros para Ele (cf. Fil 3, 2).

"Contemplar" e "assumir" não se tornam acções "voluntaristas", porque, na verdade, são "graça" à qual respondemos com a nossa consciência e disponibilidade.

a) Podemos descrever "contemplar" da seguinte forma

  • "ter os olhos fixos em Jesus";
  • "estar aos pés da Cruz", como uma etapa importante de um longo itinerário, durante o qual vimos os gestos e ouvimos as palavras de Jesus, mesmo sem compreender totalmente o seu significado;
  • "estar aos pés do crucificado", para receber os dons que nos vieram do seu Coração: o seu Espírito, a água e o sangue; Maria…;
  • "revestirmo-nos de Cristo", fazendo nossas as suas "vestes", isto é, os seus sentimentos;
  • "revestirmo-nos de Cristo", fazendo nossas as suas "vestes", isto é, os seus sentimentos; "deixar que o nosso coração seja trespassado", para que os dons do Senhor não se limitem a repousar à superfície do nosso coração, mas penetrem no seu interior.

b) "Assumir" sugere:

  • fazer nossos os sentimentos de Jesus, para que entrem realmente em nós, dispostos a assimilá-los progressivamente, para que determinem as nossas linhas de acção ou de conduta, toquem os nossos critérios de escolha, moldem os nossos desejos e reforcem os nossos objectivos;
  • ao assumirmos os sentimentos de Jesus, descobrimos em nós - ou perto de nós - obstáculos, impedimentos, fragilidades;
  • isso leva-nos a "contemplar" Jesus de novo e mais profundamente, deixando-nos animar pela força de atracção que ele exerce, pedindo o seu perdão, a sua força e a sua graça;
  • assim, as dificuldades que encontramos não extinguem a vida espiritual, mas fortalecem-na e fazem-na crescer;
  • "assumir os sentimentos de Jesus" torna-se em nós uma necessidade interior de "permanecer enxertados nele".

ALGUNS TEXTOS QUE NOS PODEM ILUMINAR

"Derramarei sobre a casa de David e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de consolação: olharão para aquele que trespassaram. Chorá-lo-ão como se chora um filho único; chorá-lo-ão como se chora o primogénito" (Zacarias 12,10).

Outra passagem da Escritura diz ainda: "Voltarão os olhos para aquele que trespassaram" (João 19,17).

Veja também: Apocalipse 1:1-48; João 15.

Das Regras do Instituto de Missões para a Nigrizia - 1871:

"[Os alunos do Instituto] formarão esta disposição essencial, mantendo sempre os olhos fixos em Jesus Cristo, amando-o ternamente e esforçando-se por compreender cada vez melhor o que significa um Deus morto na cruz para a salvação das almas" (Escritos 2721).

A nossa Regra de Vida, no nº 3.2, enumera três atitudes interiores de Cristo, que o comboniano é chamado, em virtude da mesma vocação de Jesus e de Comboni, a contemplar e assumir

    • a sua doação incondicional ao Pai
    • a universalidade do seu amor pelo mundo;
    • o seu envolvimento no sofrimento e na pobreza da humanidade.[1]

1.    A doação incondicional de Jesus ao Pai

Poderíamos rezar com estes textos, tirados de João:

"Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, pelo contrário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo rapta-as e dispersa-as; é um mercenário e não quer saber das ovelhas.

Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. E tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também a estas tenho de conduzir; elas ouvirão a minha voz e tornar-se-ão um só rebanho e um só pastor. É por isso que o Pai me ama: porque ofereço a minha vida, para a retomar. Ninguém ma tira, mas eu ofereço-a de mim mesmo, porque tenho o poder de a oferecer e o poder de a retomar. Esta ordem recebi-a de meu Pai" (Jo 10,11-18).

"É preciso que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço o que o Pai me mandou" (Jo 14,31).

"Não falei de mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, mandou-me falar e dizer o que devo dizer. E eu sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu digo, digo-o a vós como o Pai mo disse" (Jo 12,49-50).

Contemplamos Jesus como o Filho que vive e actua segundo o projecto do Pai, que Ele viu, ouviu (Jo 5) e assumiu na liberdade do amor do seu Filho amado. Jesus pode dizer que o Pai actua nele:

"Eu estou no Pai e o Pai está em mim. As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai que está comigo é que faz as suas obras" (Jo 14,10).

A sua vida é uma resposta de amor ao amor do Pai (cf. Jo 13,1-4).

2.    A universalidade do amor de Cristo pelo mundo

"Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3,16).

"O amor de Cristo impele-nos a pensar que um morreu por todos e, por isso, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (2 Cor 5,14-15).

Pensemos no testemunho que o Evangelho nos dá de Jesus peregrino, que percorre as cidades e as aldeias. Onde quer que vivam homens e mulheres, Jesus faz-se presente:

Disse-lhes: "Vamos para as aldeias vizinhas, para que eu possa pregar também lá, pois foi para isso que eu vim!" (Mc 1,38).

Jesus vai ao encontro das pessoas em todo o lado: nas sinagogas e nas casas, nas praças e ao longo das estradas, na montanha e junto ao lago... Encontra homens e mulheres, adultos e crianças, judeus e prosélitos, siro-fenícios e gregos. Não se desloca apenas na Palestina, mas ultrapassa as fronteiras da Terra Prometida. Encontramo-lo em Jerusalém e na Decápolis...

Fala e discute com fariseus, saduceus, publicanos, pecadores... Faz tudo com grande amor - amor que dá a todos, sem exclusão. Mesmo que tenha uma clara preferência pelos últimos e pelos excluídos.

3.   O envolvimento de Jesus na dor e na pobreza dos homens e das mulheres

Eis outros textos bíblicos que nos podem inspirar na nossa oração:

"Ao cair da tarde, trouxeram-lhe muitos possessos, e ele expulsou os espíritos com a sua palavra e curou todos os doentes, para que se cumprisse o que tinha sido dito pelo profeta Isaías:

Ele tomou sobre si as nossas enfermidades

e tomou sobre si as nossas doenças" (Mt 8,16-17). [2]

Os textos bíblicos que mostram o envolvimento de Jesus nos sofrimentos das pessoas são diversos. O importante é captar o "movimento de Jesus" que assume o sofrimento das pessoas, sem julgar nem condenar. Jesus envolve-se tanto que é ferido por todas essas feridas. As "chagas de Jesus" são a nossa salvação, porque são as nossas chagas assumidas pelo Ressuscitado.

O ENVOLVIMENTO DE COMBONI

"Embora enfraquecido no corpo, pela graça do Coração de Jesus, o meu espírito está firme e vigoroso; e estou decidido... a sofrer tudo e a dar a minha vida mil vezes pela Redenção da África Central e da Nigéria" (Escritos 5523).

"Estou disposto a sacrificar mil vezes a minha vida pelos cem e mais milhões de africanos que vivem naquelas regiões ardentes" (Escritos 2409).

Na sua homilia programática proferida em Cartum a 11 de Maio de 1873, as suas palavras são uma profecia:

"O primeiro amor da minha juventude foi pela infeliz Nigrizia e, deixando tudo o que me era mais caro no mundo, vim, já com dezasseis anos, para estas terras oferecer o meu trabalho para aliviar as suas antigas desgraças. Mais tarde, a obediência fez-me regressar à minha pátria, por causa da minha saúde frágil... mas os meus pensamentos e os meus passos foram sempre para ti.

E hoje, finalmente, recupero o meu coração, voltando ao meio de vós para abri-lo, na vossa presença, ao sentimento sublime e religioso da paternidade espiritual...

Sim, eu já sou vosso Pai, e vós sois meus filhos, e como tal, a primeira vez que vos abraço e vos tenho no meu coração...

Tende a certeza de que a minha alma vos corresponde com um amor ilimitado para todos os tempos e para todas as pessoas. Regresso entre vós para nunca mais deixar de ser vosso, e tudo para o vosso bem maior consagrado para sempre. Dia e noite, sol e chuva, encontrar-me-ão igualmente e sempre pronto para as vossas necessidades espirituais: o rico e o pobre, o são e o doente, o jovem e o velho, o patrão e o servo terão sempre igual acesso ao meu coração. O vosso bem será o meu, e as vossas dores serão também as minhas....

Faço causa comum com cada um de vós, e o mais feliz dos meus dias será aquele em que puder dar a minha vida por vós" (Escritos 3156-3159).

... e o nosso

Através destas atitudes, contempladas e assumidas, o Espírito de Jesus consagra-nos no mais profundo do nosso coração.

É possível reinterpretar os três votos nestas atitudes:

  • a obediência, como doação incondicional ao Pai;
  • a castidade, na universalidade do amor;
  • a pobreza, na comunhão com os mais pobres e abandonados.

No dia da Solenidade do Coração de Jesus, poderemos renovar a nossa consagração missionária com maior consciência!

Estas três atitudes não podem ser separadas, nem podemos fazer delas compartimentos separados. Uma remete para a outra, um voto exige o outro. O crescimento num voto traduz-se também no crescimento dos outros dois.

No entanto, podemos perguntar-nos qual dos três votos desafia mais o nosso crescimento pessoal e a nossa resposta.

Boa celebração da Solenidade do Coração de Jesus!

Pelo Secretariado Geral da Formação
P. Fermo Bernasconi, mccj
P. Alberto de Oliveira Silva, mccj
P. David Kinnear Glenday, mccj

 


[1] No n° 3.3, a RV acrescenta: «a contemplação do Coração trespassado de Cristo […]

  • é um estímulo à acção missionária como empenho pela libertação integral do homem,

  • e àquela caridade fraterna que deve ser um sinal distintivo da comunidade comboniana».

Queremos, porém, deixar estes dois pontos para outro momento.

[2] Este ‘sumário’ evoca uma série de curas realizadas por Cristo; Mateus interpreta-as à luz de Is 53,4. Significativo também o quarto canto do Servo de Javé, em Isaías 52,13-53,12.