Por uma Igreja Samaritana que escuta os gritos dos pobres e da Terra

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Sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
No dia 25 de janeiro deste ano, a comunidade e a Igreja de Brumadinho, no Brasil, comemoravam os 7 anos do crime socioambiental causado pela empresa mineradora Vale no estado de Minas Gerais, que resultou na morte violenta de 272 pessoas. Esse crime, um dos mais graves entre tantos outros ocorridos, mostrou, mais uma vez, as consequências do extrativismo mineiro predatório, que devasta comunidades e territórios com o único objetivo de transformar os bens comuns em dinheiro. [Iglesias y Minería]

Com muita dor e preocupação, tomamos conhecimento, por meio de “Vatican News”, de que, na véspera desse doloroso acontecimento, o Papa Leão XIV se reuniu com um grupo de empresários do setor energético e de minerais críticos que atuam na América Latina e no Caribe. Segundo o meio informativo do Vaticano, o encontro, organizado pela Pontifícia Comissão para a América Latina (PCAL), “teve como foco identificar ameaças e oportunidades para o setor na região e discernir conjuntamente ações futuras, com a esperança de promover uma vida digna e abundante para todos, em consonância com a mensagem da Igreja”.

Os empresários da mineração não desperdiçaram a oportunidade de se apresentar como colaboradores das dioceses e paróquias e de solicitar que a Igreja atue como “observadora crítica e mediadora” em zonas de conflito. Dói-nos e preocupa-nos que se considere que empresários, executores de crimes contra a humanidade e contra a natureza em nosso continente, cheguem a fazer parte da missão samaritana que nos cabe como Igreja.

Como agentes pastorais que caminhamos junto a comunidades ameaçadas e afetadas pelos impactos da mineração nos países da América Latina, sabemos que as empresas buscam cooptar e utilizar líderes religiosos para limpar sua imagem e obter aprovação social, em contextos nos quais enfrentam crescente desaprovação e resistência por parte das comunidades em cujos territórios operam. A estratégia empresarial é fazer com que as igrejas sejam suas aliadas para legitimar os impactos de suas operações e utilizá-las como mediadoras diante de qualquer conflito.

Como pessoas e instituições de fé, consideramos que o diálogo é um instrumento muito valioso para unir vontades e construir pontes. No entanto, ele requer algumas condições mínimas para cumprir essa função. Uma dessas condições é, precisamente, que se deve sempre escutar todos os atores envolvidos. E, no caso da Igreja, fazê-lo sempre a partir da opção preferencial pelas vítimas e pelos pobres, como nos ensinou Jesus de Nazaré e como recentemente nos recordou o Papa Leão XIV em Dilexi Te.

Existem muitos agentes pastorais assassinados, perseguidos e criminalizados por defenderem suas comunidades e seus territórios em fidelidade à fé e ao compromisso cristão, e que fazem parte desta Igreja viva.

Um deles é o mártir Juan López, ministro da palavra da Diocese de Trujillo, em Honduras, que dias antes de ser assassinado por se opor à mineração em sua comunidade, nos recordava:

Em Honduras estamos despertando lentamente para a necessidade de recuperar e cuidar da terra, da água, das florestas, do ambiente, dos territórios em geral. Empreendemos lutas em todo o país e os ânimos se exaltam entre vizinhos. As empresas cooptam dirigentes que, por menos de trinta moedas, colocam sua vida a serviço dos grandes interesses empresariais, ativam junto com as empresas todo o aparato midiático e condenam comunidades que resistem a ceder, sob o discurso de ‘oposição ao desenvolvimento’.”

Reiteramos a posição de tantas redes pastorais e comunidades de fé que, a partir da presença no território, manifestam preocupação com a escalada de violência trazida pelo extrativismo, como expresso pela REMAM, ao rejeitar a mineração como resposta aos clamores dos territórios que acompanha. Assim como a posição expressa pela Rede Igrejas e Mineração, na “Carta Aberta aos Bispos e Pastores da América Latina”, publicada em janeiro de 2016, na qual manifesta a preocupação com o aumento da “violência e da criminalização de pessoas e comunidades inteiras que se posicionam criticamente diante da mineração na América Latina”. Nessa mesma Carta, critica-se com firmeza a estratégia das empresas mineradoras que, ao não conseguirem demonstrar que suas atividades são sustentáveis, buscam o apoio de entidades que gozam de credibilidade junto ao povo. “As comunidades esperam que a Igreja não mantenha posições ‘neutras’ diante dos conflitos gerados pela mineração. Reconhecendo ‘a imensa dignidade dos pobres’ (LS 158), a Igreja deve continuar assumindo seu clamor e posicionar-se ao seu lado e ao lado da Criação.”

Escutando os gritos da Mãe Terra e os gritos dos mártires das comunidades afetadas pelo extrativismo, chamamos nossos bispos, pastores e líderes religiosos em geral a escutarem também esses gritos, como indica o documento “Orientações Pastorais da Igreja Católica diante da Mineração”. Nossas comunidades ancestrais, indígenas, afrodescendentes, camponesas e urbanas possuem uma infinidade de alternativas de vida que levam em conta a relação harmônica com o ambiente, com os rios, as florestas e o conjunto da Criação. Dialoguemos e busquemos saídas que garantam a vida dos seres humanos e não humanos, que somos criaturas de Deus.

Nesse sentido, insistimos na importância de que o Papa Leão XIV se encontre com as vítimas da mineração e dedique um tempo real e significativo à escuta de seus sonhos, visões e projetos, assim como dos líderes religiosos que, há anos, caminham junto a essas comunidades, compartilhando suas dores, resistências não violentas e esperanças a partir de sua ecoespiritualidade.

Coloquemos em prática o chamado da Encíclica Laudato Si’ para proteger e cuidar da Casa Comum; levemos em conta o documento das Igrejas do Sul Global diante da COP 30, que nos anima a não aceitar “falsas soluções” para os desafios energéticos do momento e nos convoca a garantir um futuro saudável para as gerações futuras.

Senhor, toma-nos com o teu poder e a tua luz,
para proteger toda a vida,
para preparar um futuro melhor,
para que venha o teu Reino
de justiça, de paz, de amor e de beleza.

ASSINAM:

Rede Igrejas e Mineração – RIM
Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM
Comissão Brasileira Justiça e Paz
Rede Eclesial Mesoamericana – REMAM
Rede Eclesial Grande Chaco e Aquífero Guarani – RECHAG
Pax Christi Internacional
Rede Eclesial Platina – REPLA
JPIC Commission Union of Superiors General (USG) and the International Union of Superiors General (UISG)

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