Domingo, 12 de abril de 2026
O artigo analisa criticamente as complexas relações entre Daniele Comboni e o colonialismo do século XIX, destacando como a sua ação missionária no Sudão se desenvolveu num contexto profundamente marcado pela expansão europeia e egípcia em África. Depois de delinear as causas históricas, geográficas e políticas do colonialismo – entre as quais o fim do tráfico transatlântico, a abertura do Canal de Suez e o crescente interesse das potências europeias pelo continente africano-, o texto situa a obra de Comboni neste cenário em rápida transformação. [Veja os anexos em italiano, inglês, espanhol, português e francês]
O autor sublinha como Comboni manteve uma relativa autonomia em relação às grandes potências europeias, apesar de dispor de proteções diplomáticas austríacas e italianas. Ao contrário de outros missionários, como Charles Lavigerie, ele não foi diretamente um instrumento das políticas coloniais europeias. No entanto, essa autonomia foi apenas parcial: Comboni acabou por ser profundamente condicionado pelo poder egípcio, que exercia um controlo direto sobre o Sudão e utilizava as missões também como instrumentos de penetração e «civilização».
O texto destaca como a própria sobrevivência da missão comboniana dependia do apoio logístico e político do governo egípcio, criando um vínculo ambíguo que acabou por fazer com que os missionários fossem vistos como aliados do poder dominante aos olhos das populações locais. Essa perceção contribuiu para o isolamento da missão e para a sua vulnerabilidade, sobretudo no contexto das tensões que conduziram à revolta mahdista.
É dada especial ênfase à relação entre Comboni e figuras como Charles Gordon, símbolo do entrelaçamento entre os interesses egípcios e britânicos, e à confiança que o missionário depositava nas conquistas egípcias como possível instrumento para a difusão do cristianismo. Esta visão, no entanto, revelou-se ilusória, uma vez que ignorava a violência e as dinâmicas de resistência locais.
Em conclusão, o artigo defende que, embora não fosse um agente direto do colonialismo, Comboni ficou inevitavelmente envolvido e condicionado por ele. A sua obra missionária acompanhou o destino das empresas coloniais, mas, ao mesmo tempo, deixou um legado duradouro, contribuindo para o nascimento da Igreja local sudanesa, que sobreviveu para além do fim do domínio colonial.
Síntese das ideias principais
O artigo examina em profundidade as relações entre Daniele Comboni e o contexto do colonialismo do século XIX, destacando uma relação complexa, ambígua e que não se reduz a esquemas simplistas. O autor situa, em primeiro lugar, a experiência missionária de Comboni no quadro histórico mais amplo da penetração europeia e egípcia em África, determinada por múltiplos fatores: a longa tradição do tráfico de escravos, a sua supressão parcial ao longo da rota atlântica, mas a persistência da rota oriental e, sobretudo, as transformações geopolíticas ligadas à abertura do Canal de Suez em 1869. Este último acontecimento tornou estratégicas áreas até então marginais, como o Mar Vermelho e o Sudão, atraindo o interesse das potências europeias e reforçando o papel do Egito.
Neste cenário, o Sudão ocupava uma posição crucial: controlado pelos egípcios, constituía uma porta de acesso à África Central graças ao Nilo. Foi precisamente neste contexto que se inseriu a ação missionária de Comboni, que atuou nos mesmos anos em que se delineava a partilha colonial do continente, formalizada pouco depois da sua morte com o Congresso de Berlim de 1884.
Um dos pontos centrais do artigo diz respeito ao grau de autonomia de Comboni em relação aos interesses coloniais europeus. O autor reconhece que ele gozava de relativa liberdade em relação às potências ocidentais: apesar de estar ligado à Áustria e à Itália, não sofreu um verdadeiro condicionamento político por parte destes Estados. O Império Austro-Húngaro garantiu proteção diplomática à missão sem impor uma linha política, enquanto a Itália, ainda pouco ativa no plano colonial durante a vida de Comboni, não exerceu qualquer influência significativa. Isto distingue Comboni de outros missionários contemporâneos, como Charles Lavigerie, mais estreitamente ligados às estratégias coloniais dos respetivos países.
No entanto, esta relativa independência não implica um total alheamento ao colonialismo. O artigo demonstra, de facto, que a verdadeira influência sofrida por Comboni foi a exercida pelo Egito, potência regional que agia de forma análoga às potências coloniais europeias. O governo egípcio permitiu e apoiou a presença missionária no Sudão, mas dentro de limites bem precisos: proibição de evangelização entre os muçulmanos e liberdade de ação confinada às populações africanas não islamizadas do sul. Neste sentido, a missão inseria-se funcionalmente no projeto egípcio de controlo e exploração do território.
Um aspeto fundamental destacado é a dependência material e logística da missão em relação ao poder egípcio. Sem o apoio do governo, Comboni e os seus colaboradores não teriam sequer podido aceder ao Sudão nem operar no seu interior. Os missionários beneficiavam de facilidades decisivas: transportes ao longo do Nilo, autorizações alfandegárias, proteção militar e apoio nas expedições. Esta relação privilegiada, embora garantisse a sobrevivência da missão, contribuiu para a identificar, aos olhos das populações locais, com o poder dominante, gerando desconfiança, hostilidade e isolamento.
O artigo sublinha como essa ambiguidade se manifestou em vários episódios concretos, nos quais a missão apareceu estreitamente ligada às autoridades egípcias. A proteção governamental, por exemplo, reforçava a ideia de que os missionários eram parte integrante do aparelho colonial, mesmo quando as suas intenções eram diferentes. Isto contribuiu para comprometer as relações com as populações locais e para tornar a missão vulnerável em momentos de crise.
É também atribuída especial importância à figura de Charles Gordon, cuja atuação evidencia o entrelaçamento entre os interesses egípcios e britânicos. O Sudão, formalmente sob controlo egípcio, era de facto cada vez mais influenciado pela Grã-Bretanha, sobretudo após a aquisição do controlo sobre o Canal de Suez. Comboni viu-se assim inserido, muitas vezes sem plena consciência, numa rede de interesses políticos que ligava o contexto local às dinâmicas imperiais europeias.
Outro elemento crítico diz respeito à visão que Comboni tinha das conquistas egípcias. Ele tendia a interpretá-las numa chave providencial, considerando-as potencialmente úteis para a difusão do cristianismo. Esta perspetiva levou-o a subestimar a violência e as contradições do domínio egípcio, bem como as tensões crescentes entre as populações locais. A incapacidade de compreender o alcance da revolta mahdista é um exemplo significativo desta limitação: Comboni interpretou o fenómeno através das categorias do poder dominante, sem compreender as suas raízes profundas.
O artigo destaca ainda como a missão comboniana acabou por se ver envolvida nas dinâmicas do colonialismo mesmo após a morte do seu fundador. O seu destino esteve, de facto, intimamente ligado aos acontecimentos políticos da região: sofreu as repercussões da queda do domínio egípcio e só pôde retomar a sua atividade sob o controlo britânico, dentro dos limites estabelecidos pelas autoridades coloniais.
Em conclusão, o autor defende que as subordinações de Comboni ao colonialismo foram reais, embora muitas vezes indiretas e não plenamente conscientes. Ele não foi um agente das potências europeias, mas atuou inevitavelmente no seio de um sistema de poder que influenciou profundamente a sua ação. A sua experiência missionária representa, portanto, um caso emblemático das ambiguidades que caracterizaram a relação entre evangelização e colonialismo no século XIX.
Apesar destas limitações e contradições, o artigo reconhece também o legado positivo da obra comboniana: a «semente» do cristianismo plantada no Sudão sobreviveu ao fim do colonialismo e contribuiu para o nascimento de uma Igreja local autónoma. Este elemento final convida a uma avaliação equilibrada da figura de Daniel Comboni, capaz de conciliar tanto as condicionantes históricas como os resultados duradouros da sua ação.
As complexas relações de Daniele Comboni
com o colonialismo europeu e egípcio
Daniele Comboni fundou a missão no Sudão nos anos em que os interesses coloniais das potências europeias começavam a concretizar-se em África. Na origem do colonialismo do século XIX estiveram vários fatores históricos, geográficos e políticos.
Do ponto de vista histórico, a África tinha sido sempre, infelizmente, uma fonte abundante de escravos, tanto para as potências europeias, que operavam na costa atlântica, como para os turcos otomanos na costa oposta, ou seja, a leste. Ao longo do século XIX, o tráfico atlântico de escravos foi abolido, mas o oriental, no Império Otomano, permaneceu ativo, como atestado por exploradores e missionários que começavam a deslocar-se pelo interior do continente, revelando a sua conformação e as suas riquezas potenciais, mas também as brutalidades que caracterizavam as caravanas de escravos encaminhadas para os mercados do Levante. Isto aumentou a pressão da opinião pública europeia para uma intervenção civilizadora e humanitária, com o objetivo de pôr fim a tal escândalo.
Do ponto de vista geográfico, a inauguração do Canal de Suez (1869) revolucionou o comércio e a economia internacionais, atraindo a atenção e os interesses de todas as grandes potências para o Mar Vermelho e para a costa africana que dá para o Oceano Índico, uma área geográfica até então totalmente irrelevante que se transformou rapidamente num ponto estratégico. Isto, por efeito de repercussão, aumentou enormemente a importância do Egito, a quem pertencia a faixa de terra onde o canal foi aberto.
Politicamente, portanto, a África, e em particular o Egito, que até então tinham permanecido à margem da história, entraram subitamente no radar da política internacional e das potências europeias.
Comboni chegou ao Sudão pela primeira vez na década de 1850 e regressou como Vigário Apostólico e, posteriormente, como bispo na década seguinte, ou seja, precisamente nos anos em que se concretizava o que acabámos de descrever. O Sudão, recentemente conquistado pelos egípcios e, portanto, administrado pelos governantes do Cairo, ficava de frente para o Mar Vermelho, ou seja, a via navegável que conduzia ao Canal do Suez. Além disso, era atravessado pelo Nilo, tornado navegável pelos próprios egípcios, que constituía a única via segura de acesso ao coração da África negra. O Egito e o Sudão encontravam-se, portanto, precisamente no centro do problema africano no momento em que as grandes potências europeias, pela soma das razões acima referidas, começavam a planear a conquista do continente. Conquista essa que seria planeada e organizada politicamente no Congresso de Berlim, realizado em 1884, pouco depois da morte de Comboni (1881).
Qual foi, então, a relação de Daniele Comboni com o colonialismo e a política africana das potências da época?
Muitas vezes se discutiu a sua independência em relação aos interesses coloniais. Isso é verdade apenas em parte. Certamente, ele era mais livre do que outros missionários, como o bispo francês de Argel e mais tarde cardeal Charles Lavigerie, notoriamente condicionado pela política africana francesa. Em contrapartida, no caso de Comboni, apesar de ter utilizado as duas nacionalidades e os dois passaportes de que era titular, o austríaco e o italiano, nenhuma das duas parece ter condicionado realmente a sua ação. A Itália, que só demonstrou interesses coloniais concretos após a morte de Comboni, não o condicionou minimamente, também porque, desviada pelas pressões anticlericais provenientes da Questão Romana, não compreendeu, ao contrário da França, a importância que os assentamentos missionários poderiam ter em função de futuras conquistas político-militares. Ainda menos o condicionou a cidadania austríaca, porque o Império da Áustria (desde 1867 austro-húngaro), que, no entanto, garantiu à missão comboniana a proteção político-diplomática, ou seja, a cobertura imperial perante o governo egípcio, nunca fez valer essa proteção sobrecarregando-a com ambições político-territoriais. Como é sabido, a Áustria-Hungria estava totalmente absorvida pelas questões políticas europeias e pela gestão das minorias nacionais e nunca cultivou qualquer ambição colonial em África, com exceção de um breve período durante o qual se interessou pela questão do Canal de Suez, tendo em vista as vantagens que daí poderiam advir para o porto de Veneza. Posteriormente, a perda do Lombardo-Véneto e, consequentemente, de Veneza (1859-1866), reconduziu a sua política para uma órbita exclusivamente europeia.
Dito de forma mais clara, embora tenha sempre utilizado na África o passaporte vienense e tenha estado à frente de uma instituição à qual o governo dos Habsburgos tinha concedido a sua garantia política, diplomática e jurídica, Daniel Comboni nunca teve de seguir a política de Viena; tal como nunca sentiu qualquer obrigação para com a Itália, que só após a sua morte concretizou as suas ambições africanas no território que mais tarde viria a ser chamado Eritreia.
Isto, porém, não significa que Comboni tenha estado imune a influências e condicionamentos coloniais. Ele próprio teve de pagar o seu preço e, enquanto declarava orgulhosamente conseguir manter à distância as interferências consulares das três potências europeias que podiam reivindicar direitos sobre a missão – a França, a Áustria e a Itália [1] –, não se apercebia de que estava a cair na teia muito mais subtil e insidiosa da política egípcia. A verdadeira influência política sobre a missão foi, de facto, a exercida pelo Egito, um Estado africano que operava a sul das cataratas com a mesma arrogância de uma potência colonial europeia e com uma brutalidade tipicamente levantina.
A missão só pôde existir graças à benevolência e à generosidade desinteressada do governo egípcio, ou seja, do vice-rei do Egito (Kedivé), que considerou os missionários, desde a sua chegada (em 1848, antes de Comboni, quando foi criado o Vicariato Apostólico da África Central), como a vanguarda do seu próprio projeto de civilização e ocidentalização do Sudão, deixando-os operar em total liberdade, mas apenas dentro dos limites que lhes tinha imposto com muita clareza. Ou seja: proibição absoluta de fazer proselitismo entre os muçulmanos e liberdade de ação apenas nos territórios a sul de Cartum, onde cessava o controlo egípcio e viviam as populações negras ainda não islamizadas, que os egípcios consideravam apenas uma conveniente reserva de pessoas para reduzir à escravatura.
Sem a ajuda governamental do soberano do Egito, formalmente subordinado ao sultão de Constantinopla, mas de facto independente, Comboni nem sequer teria conseguido atravessar o deserto. É importante recordar, de facto, que a missão era, antes de mais nada, uma empreitada organizacional extremamente complexa, obrigada a introduzir todo o tipo de mercadorias num país desprovido de tudo. Os egípcios tinham introduzido no Sudão (ou seja, no território a sul das cataratas) uma aparência de administração civil e política, mas esta continuava a ser uma terra primitiva e desconhecida, onde era preciso fazer tudo por conta própria e a morte estava constantemente à espreita. Só quando Charles Gordon assumiu a responsabilidade (na década de 1870) é que se alcançou um mínimo de eficiência à europeia, mas a organização introduzida era uma gota no oceano e servia apenas ao Estado. Ainda em 1876, escreve Comboni a um correspondente em França: «a maior parte do meu Vicariato está mais atrasada em termos de civilização e costumes do que os nossos antepassados, na época primitiva de Adão e Eva» [2]. Para entrar e sobreviver num ambiente semelhante, a proteção de quem detinha o poder era indispensável.
Em suma, o Vicariato só pôde existir graças à abnegação dos missionários, mas estes só puderam permanecer no Sudão graças às facilidades e à ajuda prestadas pelo governo egípcio. Apenas alguns exemplos. Em Assuão, no Nilo, o ponto de entrada no Sudão, onde se situava a alfândega, as armas de que a missão estava equipada, indispensáveis para a caça e a defesa pessoal dos missionários, em particular na zona primitiva dos Montes Nuba, nunca teriam passado sem os salvo-condutos governamentais. Comboni deslocava-se habitualmente pelo Nilo no vapor do governador, que lhe era posto à disposição gratuitamente. A travessia do deserto da Núbia, na expedição que organizou no início de 1878, foi dificultada pela fome que assolava o Sudão e que tinha reduzido a disponibilidade de camelos. Em Korosko, onde começava o trecho desértico a ser atravessado a cavalo de camelo, diz Comboni, «encontrei um grande número de comerciantes que esperavam ali há quatro a seis meses para conseguir camelos». Ora, o encontro fortuito com Charles Gordon, que fazia o mesmo caminho na direção oposta para se dirigir ao Cairo, resolveu a situação num instante: «Tive a sorte de encontrar Gordon Pasha. Implorei-lhe insistentemente que movesse céus e terra para me arranjar pelo menos os camelos necessários para transportar o pessoal até Berber e Cartum, e ele foi tão bondoso que enviou muitos telegramas, ordenando aos grandes chefes do deserto e aos Mudir do Sudão que me dessem 80 camelos. Graças a Deus, em quatro dias, entre muitas centenas de camelos feridos e exaustos, foram escolhidos 50 e, em onze dias, atravessei o deserto. O resto da caravana enviei pela rota de Dongola».
É possível documentar muitos outros episódios semelhantes. Estes atestam, sem dúvida, a habilidade de Comboni e as suas inúmeras influências, mas revelam também uma relação privilegiada com os governantes egípcios, o que fez com que a missão fosse inevitavelmente vista, aos olhos cada vez mais inquietos dos sudaneses, como uma estrutura integrada no governo invasor. Um episódio significativo é o que aconteceu em El Obeid, capital do Kordofan, onde a abertura da missão provocou um tumulto entre os muçulmanos, com ameaças e agressões aos missionários. O seu protesto junto das autoridades, que levou à prisão os responsáveis pela desordem e mobilizou até os gabinetes governamentais no Cairo, não pôde senão reforçar esta impressão popular e, com ela, o isolamento dos missionários, certamente vistos com «temor» e alvo de todas as «gentilezas possíveis», como afirma a revista de Comboni (a futura «Nigrizia»), mas apenas porque se sabia que por trás deles estava a mão pesada dos turco-egípcios.
Esta relação privilegiada, que conferia prestígio e poder à missão, mas aumentava o seu isolamento e as inimizades, tornou-se ainda mais sólida quando Gordon se tornou governador-geral do Sudão, em 1877. É importante ter em conta que, pouco antes, o Egito tinha sido obrigado a vender à Grã-Bretanha a sua participação na empresa que geria o Canal de Suez para não entrar em falência. Com isso, a Grã-Bretanha assumiu de facto o controlo do Egito. Gordon, inglês, era, portanto, um funcionário egípcio, mas respondia sobretudo perante Londres. Nem sempre, creio eu, Comboni se apercebeu de que estava condicionado por uma teia de interesses que iam do Sudão para o Egito, mas que tinham o seu ponto de chegada na Inglaterra e, portanto, na Europa.
A missão comboniana entre os Nuba do Kordofão foi a que mais sofreu com esta sobre-exposição política. Foi solicitada pelos nubanos na esperança de que servisse para pôr fim às incursões escravistas egípcias, e foi inicialmente autorizada pelo governo, como ponte de ligação para a penetração entre os negros, e, posteriormente, encerrada por ordem das autoridades, com a injunção aos missionários para que a abandonassem, quando no Cairo se decidiu intensificar as ações de força contra a população local. Esta missão foi, em suma, um instrumento da política egípcia, sem que os missionários, talvez nem mesmo Comboni, se apercebessem disso.
Mesmo a opinião que Comboni deu sobre o Mahdi, que se apoderaria do Sudão após a sua morte, no único ponto em que dele fala, parece limitar-se às posições oficiais, incapaz de perceber a realidade do país onde operava, onde estava a amadurecer uma revolta de violência incontrolável que acabaria por arrasar também a missão. Relemos as suas palavras. «O cônsul austríaco conta-me que o Sudão está em plena rebelião por causa de um autoproclamado profeta que diz ter sido enviado por Deus para libertar o Sudão dos turcos e da influência cristã. Há anos que ele cobra impostos para si próprio e tem a seu serviço muitos daqueles que já não podem enriquecer por não poderem mais praticar o tráfico de escravos (e são nove décimos dos indígenas) e aqueles que pagam impostos. Eu próprio vi esse profeta em 1875, juntamente com outros missionários, quando, num vapor governamental, fomos para além de Tura el Khadra, na aldeia de Cavala, e lá o vimos, nu em cima de um camelo, e dizia-se que vivia em cavernas com mulheres nuas. Anteontem, Rauf Pascha, governador do Sudão, enviou um vapor com 200 soldados e um canhão para capturá-lo, e todos foram massacrados. Agora, o próprio Rauf Pascha quer partir com um bom contingente de tropas. Veremos» [3].
Como não ficar surpreendido, perante juízos como este, se a missão parecia aos dervixes a instituição mais ligada ao projeto colonial turco-egípcio? Se os missionários foram considerados os peões mais disciplinados de uma invasão, mais fiéis ao governo do que o próprio exército? [4] Inúmeros escritos de Comboni atestam a sua confiança incondicional na política egípcia. O mais desconcertante é o relatório que se segue, dirigido à Propaganda Fide, redigido na sequência da conquista egípcia do Darfur. «No vizinho e conquistado império do Darfur — escreve ele — estão a ser organizadas alegadamente cinco grandes Mudirias ou províncias egípcias por obra de Ismail Ayub Pascha, governador-geral e meu amigo. Estou ainda perfeitamente informado de que o ambicioso Khedive aspira à conquista do grande império do Wadai e do Bornu e, diria assim, de quase toda a África Central. Apesar de não poucas objeções em contrário, sou de opinião que o facto concreto das conquistas egípcias pode contribuir para a difusão da verdadeira fé católica na África Central. Estou atento a estudar os meios para tirar proveito destes factos importantes. Tal como nas maravilhosas descobertas da indústria e nas sublimes concepções do génio humano, o olhar iluminado da fé contempla, especialmente no nosso século, os meios de que Deus se serve para realizar os seus desígnios sobre os povos e conduzir os homens aos seus destinos imortais; da mesma forma, parece-me que a Providência se serve das conquistas humanas para promover a difusão do Evangelho nestas terras e o triunfo da verdade. O Egito torna-se cada vez mais importante. Para além da recente conquista do império do Darfur, recebo hoje uma carta do coronel Gordon que me informa de que conseguiu percorrer o trecho do Rio Branco de Rejaf a Kerri numa embarcação, quando até hoje se acreditava impossível a navegação pelas cataratas que o tornavam intransitável. Diminuíram, portanto, as dificuldades de comunicação entre Gondokoro e as nascentes do Nilo e os Nyanza [os grandes lagos]. Parece que a empresa de Gordon está a correr bem. Com base nestes resultados obtidos, e que provavelmente se concretizarão, permita-me assinalar este facto de extrema importância. Se as conquistas egípcias avançarem a este ritmo, dentro de poucos anos o Estado de S. A. o Khedive do Egito tornar-se-á um reino colossal. É meu grande compromisso estudar todas as vias para tirar proveito disso em favor da nossa santa Fé» [5].
Na realidade, as coisas correram de forma bem diferente. Comboni, de facto, faleceu antes que a revolta indígena reduzisse a cinzas o «colossal reino» do Cairo, a missão e as suas — neste caso — previsões demasiado imprudentes. A obra comboniana registou, portanto, todas as reviravoltas da sorte e os reveses sofridos pelas construções coloniais africanas. Sendo uma consequência disso, não pôde deixar de seguir o mesmo destino. As pressões políticas de que foi vítima foram menos percetíveis do que noutros casos, mas não por isso menos subtis e insidiosas.
E não se deve esquecer que, quando os combonianos regressaram ao Sudão, após o fim da mahdia e na sequência dos ingleses — os verdadeiros governantes do Sudão —, só o puderam fazer dentro dos limites, inclusive geográficos, que lhes foram impostos pelos administradores britânicos.
As subordinações de Comboni ao colonialismo europeu são, em suma, reais e inegáveis. Mas, por mais que seja verdade que ele não se isentou delas, é igualmente verdade que a semente cristã que ele plantou no Sudão sobreviveu ao fim do colonialismo e deu origem, ainda que entre todas as dificuldades que conhecemos, à Igreja local sudanesa e sul-sudanesa.
Gianpaolo Romanato
Fonte: Gianpaolo Romanato, A África de Daniele Comboni. Missão, exploração, aventura, Studium, Roma, 2026, pp. 291 e seguintes.
Bibliografia
[1] Escribe Comboni: «Un asunto muy delicado es el de la protección europea en Egipto. […] Austria tiene derecho a ello, al ser la protectora del valle del Nilo. Francia tiene derecho por la ayuda que me ha o otorgado en cuando a los pasajes [navales] y por lo que hará. Italia tiene derecho por ser nosotros italianos. Lo cónsules de estas tres naciones me tratan con gentileza. Pero yo hasta ahora me he mantenido, y espero que por mucho tiempo me mantendré, en una respetuosa y amistosa independencia» (D. Comboni, Escritos, 1526; Comboni a Canossa, El Cairo, 20 de diciembre de 1867).
[2] Escritos, 4030
[3] Escritos, 6941-6942; Comboni a Sembianti, Jartum, 13 de agosto de 1881.
[4] No se debe olvidar que la obra más utilizada por los ingleses para justificar la intervención militar contra los Mahdistas fue el diario del misionero comboniano Joseph Ohrwalder, que permaneció prisionero del Mahdi en Sudán durante varios años. Después de la fuga a Egipto, fue obligado por los ingleses a escribir su historia, el manuscrito fue retocado por el servicio de inteligencia británico con el fin de empeorar la imagen de los Mahdistas y publicado con el título Ten Year’s Captivity in the Mahdi’s Camp, Londres, 1892 (en español: Mis diez años de prisión. Revuelta y reino del Mahdi en Sudán, Emi, 1998). Winston Churchill, que formó parte del contingente británico que descendió a Sudán para derrotar a los mahdistas, cita varias veces a Ohrwalder en el libro que escribió sobre ello: Reconquistare Khartoum, Piemme, 1999. Sobre la triste odisea de los misioneros prisioneros del Mahdi, véase el estudio de Camillo Ballin, Il Cristo e il Mahdi, Emi, 2001.
[5] Escritos, 3859-3861: Comboni a Franchi, El Obeid, 13 de julio de 1875.