A solenidade da Ascensão é memória de uma cristofania pascal, de uma manifestação do Cristo ressuscitado, glorificado pelo Pai no poder do Espírito Santo. A ascensão ou assunção de Jesus ao céu, o seu êxodo deste mundo ao Pai (cf. Jo 13, 1), é narrada como uma separação de Jesus dos seus, um ser levado para o céu. Encontramos esse relato na conclusão do Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 24, 50-51) e no início de Atos dos Apóstolos (At 1, 6-11).
“Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos.”
Mateus 28,16-20
Chegámos à festa da Ascensão do Senhor, que o livro dos Atos dos Apóstolos situa simbolicamente quarenta dias depois da Páscoa (cf. primeira leitura: Atos 1,1-11). É particularmente significativo notar que esta é a única aparição de Jesus aos seus discípulos narrada no Evangelho de São Mateus. Antes, de facto, tinha aparecido apenas às duas Marias que tinham ido ao sepulcro, confiando-lhes a missão de dizer aos discípulos que fossem para a Galileia: “Ide anunciar aos meus irmãos que vão para a Galileia: lá me verão” (Mateus 28,10).
Não se trata de uma incongruência histórica entre os Evangelhos. Os factos principais da vida de Jesus, transmitidos pelos apóstolos, eram já património comum das comunidades cristãs. Quando os evangelistas escrevem o Evangelho, recolhem alguns relatos e dão-lhes uma estrutura literária, com uma orientação teológica e catequética particular, pensando nas necessidades das suas comunidades.
Partilho convosco algumas reflexões, tendo diante dos olhos o Evangelho de hoje — um texto de apenas cinco versículos — e procurando interiorizar a sua mensagem. Trata-se da conclusão do Evangelho de Mateus e, portanto, do seu ponto culminante e da chave de releitura de todo o Evangelho. Dificilmente poderíamos exagerar a sua importância.
1. Galileia, o lugar do encontro
“Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado”.
Jesus marca encontro com os apóstolos longe do centro religioso e político de Jerusalém: na Galileia, lugar de periferia e de fronteira, onde tudo tinha começado. É dali que se recomeça, já não em direção ao centro, mas em direção aos confins do mundo, a todos os povos. É o início da grande aventura da Igreja, que durará “até ao fim do mundo”. Jesus, que tinha partido da Galileia para concluir o seu caminho em Jerusalém, agora parece deixar para trás a cidade santa e o seu templo: são já realidades ultrapassadas!
A Galileia é o lugar da vida ordinária, onde Jesus tinha encontrado e chamado os seus discípulos. É o símbolo da vida quotidiana. Depois do tempo pascal, o Ressuscitado envia-nos de novo para a nossa vida de todos os dias. É aí que o veremos.
O encontro é no monte. Trata-se do sétimo e último monte do Evangelho de Mateus: o monte da missão. Ele corresponde ao primeiro, o monte da tentação, onde o diabo tinha procurado afastar Jesus do plano de Deus, oferecendo-lhe o poder e a glória do mundo (Mateus 4,8).
2. Os onze discípulos, os protagonistas
São onze, apenas onze, e já não doze. Essa ausência será pesada, embaraçosa, cheia de interrogações, causa de tristeza e de espanto. Por isso Pedro proporá preencher aquele lugar vazio com a escolha de Matias (Atos 1,26). Mas Matias poderia representar cada um de nós!
É com estes onze — um número que fala de incompletude e imperfeição — que também nós somos convocados para a grande missão. Diante da imensidão da tarefa, seríamos tentados a fazer o recenseamento das forças com que podemos contar, como fez o rei David, provocando a ira de Deus (cf. 2 Samuel 24,9). No fundo, não serão talvez isso muitas das nossas estatísticas?
Deus parece quase troçar dos nossos cálculos e reduz cada vez mais as nossas forças, como fez com as tropas de Gedeão, em marcha contra os madianitas: de trinta e dois mil para trezentos homens, porque “Israel poderia gloriar-se diante de mim e dizer: Foi a minha mão que me salvou” (Juízes 7,2). E agora será com onze homens que Jesus fará fermentar o mundo!
3. A dúvida que torna verdadeira a fé
“Quando o viram, prostraram-se. Eles, porém, duvidaram”.
Viram-no, prostraram-se, mas duvidaram! As mulheres junto ao sepulcro, quando viram Jesus, “aproximaram-se, abraçaram-lhe os pés e adoraram-no” (Mateus 28,9). Aqui, pelo contrário, há dúvida, e é Jesus que tem de se aproximar dos onze.
Os evangelistas não poupam os apóstolos! Põem em evidência os seus limites, as suas fraquezas, as suas incompreensões, as suas lentidões: numa palavra, a sua inadequação. São homens como nós. Pensando neles, ninguém poderá mais dizer: “Mas como, queres escolher precisamente a mim?”. Não devemos envergonhar-nos das nossas dúvidas. A dúvida leva a sério a grandeza da fé.
4. Todo o poder ao... “maldito” na cruz!
“Jesus aproximou-se e disse-lhes: Foi-me dado todo o poder no céu e na terra”.
Aquele que tinha sido julgado pelas autoridades religiosas como blasfemo e maldito por Deus recebe do Pai “todo o poder no céu e na terra”! Que ironia! Dá que pensar, sobretudo a nós que exercemos um “poder” em nome de Deus!
Tudo está agora nas suas mãos (João 13,3): nas mãos do Amor. Nada nem ninguém nos pode arrancar dessas mãos (Romanos 8,35; João 10,28). É uma certeza consoladora e libertadora, capaz de desfazer os laços paralisantes dos nossos medos.
5. O mandato missionário da Igreja
“Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos mandei”.
Ir é a primeira palavra de ordem. Retomar o caminho da missão, a missão de Jesus. É impressionante ver como, desde o início, a Igreja — uma realidade minúscula e insignificante — tinha uma consciência tão forte de ser enviada a todo o mundo!
Para fazer discípulos: dele, não nossos. Batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, isto é, mergulhando-os — este é o significado do verbo grego “batizar” — no Amor da Trindade. Ensinando-os não como mestres, mas como discípulos e testemunhas do único Mestre (Mateus 23,10).
6. A Ascensão, plenitude da Encarnação
“E eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.
É a última palavra de Jesus, o Emanuel (Mateus 1,23). É a sua encarnação em cada um de nós. A presença é algo difícil de definir. Pode-se estar presente com o corpo e ausente com a mente e com o coração.
A Ascensão não é uma partida, mas uma nova e mais profunda modalidade de presença: Cristo é “mais íntimo a nós do que nós somos a nós mesmos”, para dizê-lo com Santo Agostinho. Por isso São Paulo poderá dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2,20).
7. Uma sugestão
Quando te parecer que Cristo é o grande ausente da tua vida ou da nossa sociedade; quando te parecer que o “príncipe deste mundo” retomou nas mãos o poder… volta a pegar neste Evangelho e escuta esta palavra que nunca passará: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra”.
E recorda-te da última e definitiva promessa de Jesus: “E eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo
Mateus 28,16-20
Infelizmente, na Itália, festejamos a Ascensão do Senhor Jesus Cristo não no 40º dia depois da ressurreição (cf. At 1, 3) – como previsto pelo calendário da Igreja Romana –, mas no domingo seguinte, o sétimo Domingo da Páscoa, aquele que antecede o Domingo de Pentecostes, 50º dia pós-pascal. A solenidade da Ascensão, mesmo assim, é sempre memória de uma cristofania pascal, de uma manifestação do Cristo ressuscitado, glorificado pelo Pai no poder do Espírito Santo. A ascensão ou assunção de Jesus ao céu, o seu êxodo deste mundo ao Pai (cf. Jo 13, 1), é narrada como uma separação de Jesus dos seus, um ser levado para o céu. Encontramos esse relato na conclusão do Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 24, 50-51) e no início de Atos dos Apóstolos (At 1, 6-11), enquanto que, em Mateus, Marcos (exceto o encerramento canônico, posterior; cf. Mc 16, 19-20) e João, narram-se aparições do Ressuscitado, mas não se fala explicitamente de uma partida, de um deixar a terra para o céu.
No Evangelho segundo Mateus é testemunhada uma única e mesma aparição do Ressuscitado na Galileia, em uma montanha, como última e definitiva saudação testamentária aos discípulos. Se Mateus tinha aberto o seu Evangelho com as palavras “livro da gênese de Jesus Cristo… o Emanuel, o Deus-conosco” (Mt 1, 1.23), agora ele o encerra com uma alusão ao último versículo das Escrituras hebraicas que ele conhecia, lá onde se lê: “O Senhor, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra” (2Cr 26, 23); e aqui o Ressuscitado, aquele que é o Deus-conosco para sempre, diz: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”. Assim, o Evangelho leva a cumprimento toda a história da salvação.
Mas leiamos o texto de Mateus com atenção e humildade. Na noite da sua Paixão, durante a ceia pascal, depois de ter partido o pão e de ter dado graças sobre o cálice, enquanto com os seus ele saía para o Monte das Oliveiras, Jesus tinha predito o escândalo de todos e a negação de Pedro, situando, porém, a sua ocorrência depois da sua ressurreição na Galileia (cf. Mt 26, 30-35). Depois, viera a hora da prisão e da fuga de todos os discípulos, na noite da paixão, o dia da morte e do sepultamento. Mas Mateus conta que, ao alvorecer do dia depois do sábado, Maria Madalena e a outra Maria encontraram o túmulo vazio e escutaram de um mensageiro o anúncio da ressurreição de Jesus. E, enquanto iam levar esse evangelho aos discípulos, encontraram o Ressuscitado, que lhes renovou o convite, a ser dirigido aos próprios discípulos, de ir à Galileia, onde ele os precedia e onde o veriam (cf. Mt 28, 1-10).
E eis que os discípulos, 11 e não mais 12, por causa da traição de Judas, “foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado”. Eles não são chamados de apóstolos, enviados, mas sim de discípulos, porque ainda devem ser iniciados pelo seu grande rabi, Jesus, e estão novamente na Galileia, a terra em que foram chamados e permaneceram durante anos no seu seguimento.
Para Mateus, a Galileia não é tanto a terra da infância de Jesus, a partir da qual ele recebeu o apelido de “galileu”, mas sim a terra desejada por Deus como lugar da evangelização, a “Galileia dos gentios, dos pagãos” (cf. Mt 4, 12-16; Is 8, 23-9,1), terra considerada impura, da qual “não podia sair nada de bom” (cf. Jo 1, 46), terra de mistura de povos, longe do centro da fé e do culto, a cidade santa de Jerusalém. A Galileia, portanto, como terra por excelência de evangelização e de missão: aqui os discípulos são novamente chamados, quase como que para recomeçar aquele seguimento que se concluiu com o abandono de Jesus.
O lugar do encontro é a montanha, local teológico para Mateus, lá onde Deus várias vezes se revelou e quis ser encontrado, lá onde Jesus tinha pronunciado o longo discurso que continha também as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-7, 29), lá onde Pedro, Tiago e João tinham completado a sua transfiguração (cf. Mt 17, 1-8). Ao verem Jesus, os 11 discípulos, que o tinham visto pela última vez capturado pelos seus inimigos, não podem deixar de se prostrar em adoração. O que aconteceu? Mateus não nos falou da reação dos discípulos ao anúncio das mulheres nem de outros sinais dados por Jesus; mas agora, diante dessa cristofania, eles o adoram, sem dizer nada.
Alguns deles chegam à fé na ressurreição, mas outros ainda alimentam dúvidas, porque hesitam a reconhecê-lo: a fé nunca é visão, mas é uma contínua vitória sobre as dúvidas, vitória que só se obtém adorando e, acima de tudo, amando. Nos Evangelhos, não há nenhum traço de exaltação irracional diante de Jesus ressuscitado, mas há um fatigante reconhecimento que só se realiza em uma relação amorosa, cheia de confiança e de abandono ao Senhor.
Assim, Jesus se aproxima dos 11, não os repreende pela fuga (cf. Mt 26, 56), não os faz corar pela sua pouca fé (cf. Mt 14, 31), mas se revela na glória recebida do Pai, que o chamou de volta da morte: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”, palavras que nos abalam e que só podemos acolher na fé. Quem é este? São palavras que só podem ser ditas pelo Kýrios, o Senhor do céu e da terra. Jesus possui uma exousía, um poder: ele não o deu sozinho a si mesmo e nem o quis, porque o rejeitou quando lhe foi oferecido pelo tentador, o diabo (cf. Mt 4 ,8-10), mas o recebeu de Deus, o Pai. De fato, ele é “o Filho de homem que chegou de junto de Deus, que lhe deu poder, glória e reino… um poder eterno, que nunca lhe será tirado, um reino que jamais será destruído” (cf. Dn 7, 13-14).
No Antigo Testamento, só Deus é o Senhor do céu e da terra, Senhor do mundo visível e do invisível, Rei de todo o cosmos, e na glória Jesus nos revela que esse poder divino é compartilhado por ele. Assim, Mateus, mesmo sem nos descrever uma ascensão de Jesus em termos visuais, óticos, revela-nos onde devemos buscar e encontrar o Ressuscitado: em Deus, igual a Deus no seu senhorio, “no seio do Pai” (Jo 1, 18), diria o quarto Evangelho.
A Igreja adora e confessa Jesus como aquele que está sentado à direita do Pai, aquele que intercede por nós junto dele. Essas e outras formulações semelhantes frequentemente são incapazes de nos revelar o mistério, mas o decisivo não é o nosso exercício imaginativo para ler a ascensão, mas sim para fazer com que o Senhor Jesus realmente reine em nós, que ele seja o centro da nossa história, que ele seja aquele em que acreditamos e esperamos como único Salvador.
E como Deus revestiu Jesus de tal autoridade, ele pode dizer: “Portanto (oûn), indo, fazei discípulos meus todos os povos”, em que a ênfase não recai sobre o verbo “ir” (não está escrito: “Ide”), sobre uma missão de conquista, de ocupação de terras e espaços, mas sobre a abertura a todos os povos, a todas as culturas, a todos os homens e mulheres que fazem parte da humanidade. Chegou a hora do anúncio aos gentios: Jesus viera sobretudo para o povo de Israel, ao qual havia sido prometido como Messias e Salvador, e a essa missão que lhe foi conferida pelo Pai ele tinha obedecido; mas, depois da sua morte e ressurreição, o Evangelho deve chegar a todos os povos da terra. Caem todos os muros: aquele entre Israel e os pagãos, aqueles entre os povos, todos os muros edificados na história. Agora, todos os seres humanos são destinatários do Evangelho, que deve ser proposto, não imposto, que deve ser oferecido como testemunho, não propagandeado em palavras, que deve ser vivido para ser eventualmente anunciado.
De fato, não se pode ensinar e transmitir o Evangelho sem vivê-lo e sem viver dele! Eis a tarefa dos discípulos, que, naquela hora, na Galileia, são realmente pequena comunidade, “pequeno rebanho” (Lc 12, 32): uma tarefa que não olha para a pouqueza de quem a desenvolve, mas para a promessa daqueles que pediram para vivê-la e anunciá-la. Aqui é novamente delineado por Jesus quem é o discípulo: é alguém que se torna o que é graças à escuta de Jesus, estando com ele; é alguém que está imerso na vida da comunhão divina entre o Pai, Filho e Espírito Santo; é alguém que, vivendo dessa vida doada, acolhe o ensinamento dos enviados, dos apóstolos, da Igreja, para viver aquilo que Jesus pediu, para viver o Evangelho.
A promessa de Jesus em que devemos pôr fé e esperança é: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”. Eis a nova e definitiva aliança com a qual Deus se uniu ao seu povo: “Eu serei o vosso Deus, eu serei o Deus-convosco”. Essa é a última palavra do Evangelho, essa é a nossa fé: o Senhor Jesus Cristo está conosco sempre. Ao enviá-lo ao mundo, o Pai tinha revelado através do seu mensageiro: “Ele será chamado Emanuel, Deus-conosco” (Mt 1, 23; Is 7, 14); agora Jesus assume plena e definitivamente esse nome recebido do Pai pela eternidade. Deus dissera a Moisés: “Eu estarei contigo” (Ex 3, 12), e Jesus Cristo diz isso a cada um de nós, batizados no seu nome, cristãos que levam o seu nome e tentam viver, observar o seu Evangelho.
Enzo Bianchi
A tradução é de Moisés Sbardelotto.