P. Alfredo Bellini, fundador do Sistema de Comunicação da Fundação Prelazia de Balsas/MA, Rádio e TV Boa Notícia, faleceu aos 89 anos, por problemas respiratórios, na noite de 6 agosto, em Teresina/Pl.
P. Alfredo foi um dos últimos profetas.
Nasceu em Verona, na Itália, no ano de 1921 e, ainda moço, escolheu ser missionário na Congregação dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus. Estudou filosofia em Verona e teologia em Venegono, perto de Milão. Em 1945, com 24 anos de idade, consagrou perpetuamente sua vida para a Missão. No ano seguinte, em sete de julho, foi ordenado presbítero da Igreja.
Primeira etapa do seu apostolado foi Portugal, para aprimorar a língua portuguesa (de 1951 a 1956) e, depois de cinco anos, seguir para a Missão em Moçambique, onde permaneceu mais de 10 anos.
Segunda etapa: regressando de Moçambique foi pedido ao P. Alfredo para ir trabalhar em Portugal por mais nove anos. Sempre atento aos problemas da missão de além-mar, em particular de Moçambique, sendo responsável pelo seminário comboniano em nível de liceu, em Coimbra, não calava sobre as injustiças cometidas pela ditadura. Por causa dessa postura, um dia, depois de uma pregação, «o padre foi convocado à delegação coimbrã da polícia de Estado (PIDE), interrogado e informado de que seria imediatamente expulso do país. A acusação era a maneira de o Padre Alfredo pregar, dando a entender que em Moçambique havia fome e miséria. Porém, a ordem de expulsão foi cancelada in extremis, quando o bilhete de avião já se encontrava feito. Decisiva a intervenção do falecido cardeal D. António Ribeiro, que enviou o seu secretário particular com uma carta para o primeiro-ministro, Marcelo Caetano. Anulada a pena de expulsão, o padre Alfredo foi obrigado a afastar-se de Coimbra por um período de seis meses» (cf. Os Missionários Combonianos e o Estado Novo, Além-Mar, por Carlos Neves Sobrinho).
Mais tarde, os superiores acharam por bem enviá-lo para a missão no Brasil. Destinado à Província comboniana do Brasil Sul, logo mostrou suas qualidades espirituais, sendo reitor do seminário comboniano, na grande Vitória. Artista e profissional na pintura, o Padre Alfredo enfeitou várias igrejas, com estilo moderno e agradável, mostrando a realidade de pobreza das grandes periferias do Brasil. Foi também eleito conselheiro e vice-provincial da Província do Sul por um triênio. Em Vitória, trabalhou com o bispo Dom Luís Fernandes, «incentivando o nascimento das Comunidades Eclesiais de Base e a prática de uma Igreja libertadora».
Sempre em movimento, dinâmico e criativo, após onze anos de ministério, deixou a Província do Sul e optou para a missão no Maranhão, na Província do Nordeste. Ali, na Diocese de Balsas - relata Carlos Airton Rocha, diretor de Jornalismo da Emissora - sentindo a falta da voz da Igreja nos meios de comunicação, lutou, incansavelmente, até obter do Governo Federal a concessão de uma emissora chamada «Rádio Boa Notícia», com uma potência de 10 mil watts, alcançando quatro estados do Maranhão. «A Comunicação é Libertadora dos povos mais Necessitados» era o lema do P. Alfredo. Ele justificava a necessidade da fundação da Emissora Boa Notícia assim: «é para defender os pequenos produtores e a população que estão sendo expulsos de suas terras e denunciar a implantação de grandes projetos de monocultura».
O P. Alfredo teve que lutar muito contra a repetida negação da concessão de «uma rádio a uma Igreja comprometida com os pobres, que denunciava as mazelas e as injustiças». O padre esteve em Brasília vários meses, hospedado em Taguatinga - DF, na Paróquia Sagrada Família, dos Missionários Combonianos, para seguir de perto o processo, até que, depois de muitas exigências, impedimentos e negações, ele conseguiu a desejada concessão.
Na opinião de muitos jovens, o P. Alfredo Bellini foi, «sem dúvida, um dos últimos profetas da diocese de Balsas, por falar sempre a verdade com coragem, por indignar-se pelas injustiças do mundo, por lutar em favor dos menos vistos, injustiçados e menos agraciados da sociedade».
(P. Enzo Santângelo)
Da Mccj Bulletin n. 249 suppl. In Memoriam, ottobre 2011, pp. 115-118.