Quarta-feira, 3 de Abril de 2024
O padre Feliz da Costa Martins, missionário comboniano português, já completou 73 anos, dos quais mais de trinta passados em terra sudanesa. Desde 2022, encontra-se a trabalhar em Helwan, no Egipto. É um bom contador de histórias de missão. Hoje, a sua crónica fala de uma breve viagem à comunidade cristã de Dar el Salam, guiado por um condutor muçulmano de “tuque-tuque” e como, em conversa, acabou por lhe dar uma “espécie de mini-catequese”.

Foi Deus que te enviou

Não têm hora nem lugar. É quando quiseres e onde quiseres. Basta um sinal com a mão e tem-lo ali ao teu lado: assim é o tuque-tuque hoje, aqui, em Helwan e em muitos outros lugares do Egipto. Assim era também o tuque-tuque no Sudão, há alguns anos atrás. Foi assim naquele domingo de Páscoa em Nyala, onde fui missionário durante uma dúzia de anos.

O tuque-tuque parou ao meu lado.

– Dar el Salam? – perguntei.

– Sim, entra se faz favor. Egípcio ou Sírio?

– Nem um nem outro. Desculpa, desta vez não acertaste. Sou europeu. O meu país é Portugal! – sorri.

O condutor do tuque-tuque ficou confundido, pois estava habituado a que os poucos brancos que se viam no Sudão serem, geralmente, de origem síria ou egípcia.

– Não imaginava que me aparecesse um cliente conterrâneo do Cristiano Ronaldo, o meu jogador favorito! – respondeu. – O que é que te trouxe aqui a Nyala, a este remoto canto do Darfur, no Oeste do Sudão? Aposto que trabalhas para uma das muitas organizações da ONU, não é verdade? – perguntou, intrigado e curioso.

– Também não acertaste! – respondi-lhe, em tom de brincalhão.

– Então, o que é que te trouxe aqui? – insistiu, já um tanto impaciente.

– Tu mesmo. Tu e toda a gente de Nyala, do Darfur e do Sudão inteiro! – respondi.

Fitou-me com ar confuso. Parecia que se tinha esquecido que ia a conduzir o tuque-tuque. Tive que lhe gritar:

– Tem cuidado! Agarra o guiador! Olha que a estrada não é só para nós!

O meu alarme deixou-o sem palavras. Reduziu a velocidade do triciclo e, de maneira a não deixar cair a conversa, articulou a pergunta:

– Eu e os meus compatriotas sudaneses trouxemos-te aqui? Será que me conheces de algum lado? Sabes quem eu sou?

Eu, com um sorriso calmo e encorajador, reafirmei:

– Sim, tu e todos os sudaneses.

O lugar para onde nos dirigimos é de fraca nomeada.

– Conheces Dar el Salam? – perguntei.

– Sim, mas não vou lá frequentemente! – respondeu. E continuou:

– É uma aldeia nova, de refugiados do Sudão do Sul que escaparam da guerra e ficaram por aqui. É um pedaço de deserto muito solitário e inóspito, onde até há bem pouco tempo não havia quase ninguém. Dizem que as serpentes lá são das mais perigosas. E o que é ainda pior, é o lugar de esconderijo dos famosos Janjauides, os grupos de rebeldes armados que matam sem dó nem piedade. Muitos dos jovens dessa nova aldeia procuram trabalho em Nyala, mas têm pouca sorte! – respondeu.

Estávamos a chegar à entrada do nosso destino: Dar el Salam, literalmente Casa da Paz.

Alguns catraios brincavam na estrada de terra batida, mas a cena não estorvou a paciência do condutor. À medida que o veículo se aproximava, ele captou as palavras gritadas pelos pequenos.

Olhou para mim, desconfiado e curioso, como a querer perguntar-me qualquer coisa. Apurou o ouvido e certificou-se. Não havia mesmo dúvida alguma. Tinha percebido clara e distintamente.

Abuna ja, o nosso pai chegou! – os miúdos gritavam.

Acenei-lhe com a cabeça que sim, que também eu próprio tinha ouvido.

Perguntou-me, muito admirado:

– É mesmo verdade que és o pai deles?

Aproveitei a ocasião de lhe explicar o porquê de os garotos me terem chamado abuna. Foi uma espécie de mini-catequese que escutou com interesse.

– Sim, sou abuna, pai, porque os cristãos chamam assim os sacerdotes católicos, os padres, em árabe. Aqui, no acampamento de Dar el Salam, muitos dos refugiados são católicos. Hoje é um dia muito especial: é a Páscoa, a nossa grande festa. Eu sou o abuna, o sacerdote. Venho celebrar com eles a Páscoa da Ressurreição.

– Agora compreendo o que te trouxe ao Sudão! – disse, enquanto aplicava o travão de mão do veículo. E continuou: – Tu és um rajul el din.

Os muçulmanos, de facto, chamam rajul el din, homem da religião, à sua autoridade religiosa. Continuámos a conversar ainda por mais alguns minutos. De desconhecidos que éramos, agora parecíamos amigos de longa data.

Ele manifestou querer saber mais acerca da religião cristã.

– Irei ter contigo, um dia destes, à tua casa, à igreja! – disse, enquanto atendia a um dos catraios que metia conversa com ele e lhe perguntava como se chamava.

– O meu nome é Khalid! – respondeu amigavelmente, enquanto se dirigia para o triciclo.

Parecia não ter pressa de voltar ao trabalho. Insisti em meter-lhe na mão o dinheiro da viagem. Mas recusou, ao mesmo tempo que exclamou com satisfação:

Abuna, esta viagem fica à minha conta.

E, antes de pôr o motor a trabalhar, acrescentou:

– Deixa-me dizer só mais uma coisa: o que te trouxe aqui não fomos nós os sudaneses, foi Deus. Foi Deus que te enviou.

Sim, a verdade foi clara e devidamente pronunciada: Foi Deus que me enviou. Esta declaração imprevista do Khalid, recordou-me a passagem do Evangelho em que Jesus Ressuscitado disse aos apóstolos «Ide por todo o mundo…»

Sim, era o Jesus da Páscoa.

O motor do tuque-tuque já batia de novo. Gemia, queixava-se, mas não havia forma de se mexer. Seria bruxedo? Sim, era um feitiço muito fácil de desvendar: os putos, traquinas, tinham invadido o pequeno veículo de tal maneira que não cabia nem mais uma agulha. Riam e gritavam numa algazarra nada fácil de acalmar. Até que um dos anciãos se aproximou e, usando a sua autoridade em língua dinca, pôs termo à questão.

– Olhem que o catequista já está na capela à vossa espera! – acrescentou.

Finalmente, o tuque-tuque pôde partir e, pouco a pouco, desapareceu na nuvem de pó levantada pela cáfila de camelos que acabara de passar.

Na santa Missa, a alegria não parou. Não eram só os pequenos, mas também os jovens e adultos, homens e mulheres. Juntos, formavam a pequena-grande comunidade cristã que se tinha reunido na espaçosa palhota que se distinguia entre as outras habitações da aldeia de Dar el Salam. Naquele grandioso dia, a cruz de bambu que se vê de longe no topo da capela estava lindamente adornada com ramos verdes de nim e flores brancas de sabah el kheir.

Gassim, o catequista, estava orgulhoso da sua comunidade e da dezena de jovens catecúmenos que de aí a pouco ia receber o batismo. Ali, junto do altar, cantavam em coro com toda a comunidade:

Alegremo-nos e exultemos! É a Páscoa do Senhor. Aleluia, Aleluia, Cristo ressuscitou.

P. Feliz da Costa Martins