Segunda-feira, 22 de Junho de 2026
Estamos no mês de Junho, tradicionalmente dedicado ao Coração de Jesus, e podemos assumir que são bem-vindos os contributos que nos ajudem a aprofundar a espiritualidade do Coração de Cristo. Neste sentido, e sem outra pretensão, comparto estas considerações. [...]
Considerações sobre a Espiritualidade do Coração de Jesus
Estamos no mês de Junho, tradicionalmente dedicado ao Coração de Jesus, e podemos assumir que são bem-vindos os contributos que nos ajudem a aprofundar a espiritualidade do Coração de Cristo. Neste sentido, e sem outra pretensão, comparto estas considerações.
1. – Falar de Espiritualidade
Podemos começar por sentir alguma dificuldade em falar de espiritualidade, pois não é fácil definir o que ela seja. Podemos pensar a espiritualidade como uma “Atmosfera de Valores / atitudes / virtudes / sentimentos / ideias ...em que vivemos” e podemos imaginar que todos têm a “sua espiritualidade, que constroem ao sabor da própria vida e experiências.” Podemos também imaginar a espiritualidade como “Respiro da Vida: algo essencial para o quotidiano, mas imperceptível, que praticamos de maneira inconsciente e instintiva.”
Ao falarmos de espiritualidade hoje, ganha proeminência o coração, pois o coração (isto é, a dimensão afectiva e sentimental da pessoa humana) revela-se fundamental na procura de sentido e de unidade. É o coração que nos faz reacender o fogo do amor, recuperar a alegria de viver e unificar a própria vida no meio das tensões do quotidiano.
2. – Falar da Espiritualidade do Coração de Cristo e os Combonianos
Também aqui podemos encontrar alguma dificuldade, pois a relação da espiritualidade do Coração de Jesus com os missionários combonianos tem uma história atribulada...
Este legado de Daniel Comboni aparece como um tesouro escondido, mas presente como fonte de fecundidade apostólica. Na transformação do instituto em congregação religiosa (1885-1895) a espiritualidade do Coração de Jesus permanece, mas sem Daniel Comboni; isto é, separa-se da herança carismática de Comboni e permanece ligada à devoção do tempo. De facto, afirma-se (então) que o Coração de Jesus é o nosso Pai!
Mas, para além destes percalços da história, devemos afirmar que a espiritualidade do Coração de Jesus tem um lugar central na vida comboniana. Por três razões fundamentais: primeiro, é a fonte, no sentido que todo o apostolado comboniano brota da contemplação do Coração de Cristo. Segundo, é também a forma ou o modelo da vida apostólica: Daniel Comboni diz que o missionário é “o cálice que recolhe o Sangue e a água” e os leva aos povos da África Central. Terceiro, porque é igualmente o objectivo, a finalidade da vida missionária: levar o Amor de Cristo ao mundo, transformar as pessoas e as sociedades com o Amor do Coração trespassado.
3. – Uma Espiritualidade, várias Dimensões
Qualquer consideração sobre a Espiritualidade do Coração de Cristo terá de considerar várias dimensões, a saber.
3.1 – Uma dimensão Bíblica; isto é, terá de partir dos textos bíblicos, de uma Palavra que foi proferida para sempre e para todos e que permanece como referência fundamental. A reflexão sobre esta espiritualidade não pode partir de sentimentos, de ideias ou de modas; terá sempre que partir da Palavra de Deus. Proponho um percurso de vários textos, num olhar retrospectivo, indo do fim para o princípio:
- João 19, 25-36: Jesus entrega o Seu Espírito. O Seu Coração aberto é fonte dos Sacramentos e da Igreja, do Baptismo e da Graça que nos salvam.
- As narrativas da Instituição da Eucaristia: o Coração de Cristo é um coração que ama até ao fim! Lucas 22, 14-23; João 13, 1-20; Marcos 14 12-26; Mateus 26, 17-29.
- O diálogo com a Samaritana, João 4: o coração do Filho oferece uma Água que jorra para a Vida Eterna.
- O Diálogo com Nicodemos, João 3: o coração do filho revela o amor de Deus que “tanto amou o mundo que deu o Seu Filho.”
- A Promessa e o Dom de um coração: ao realizar a Sua salvação, Deus promete um coração novo: Ezequiel 36, 23-32.
- O Fogo que arde e não consome, mas transforma, é o Amor: Êxodo 3, 1-6
3.2 – Uma Dimensão Teológica; isto é, uma reflexão que aprofunde os aspectos que encontramos nos textos bíblicos. Podemos sublinhar os seguintes:
- A Fidelidade: Coração Fiel (nas tentações: Mateus 4, 1-11 e 26, 36-46 (Padres da Igreja: Jesus enfrenta a paixão certo do abraço do Pai!); Lucas 4, 1-12 e 22,39-46; Lucas 23.
- A Humildade: Lucas 10, 21-24: Jesus exulta porque o Reino é revelado aos pobres e simples.
- A Compaixão: Jesus mostra um Coração cheio de compaixão (=as vísceras misericordiosas de Deus): Marcos 6, 34; Marcos 7, 11-17 (cura do Filho da Viúva); Lucas 10, 29-37 (Bom Samaritano); João 11, 32-36 Jesus chora, ressurreição de Lázaro).
- A Misericórdia: Jesus tem um Coração misericordioso que anuncia o perdão do Pai a todos (Lucas 15).
- O Serviço: Jesus vive um Amor que é concreto e se manifesta no serviço: João 13, 1-14.
- A Confiança: Jesus revela um Coração confiante no Amor do Pai e nas potencialidades das pessoas que encontra (Lucas 11, 9-13 - Confiança na oração).
- A Doação até ao fim: o Coração de Jesus é um coração entregado, descentrado de si, a viver para os outros: João 10, 7-18 (O bom Pastor dá a vida pelas ovelhas); João 12, 20-28 (o grão de trigo que morre e dá fruto).
3.3 – Uma Dimensão Espiritual e Apostólica: isto é, dimensões que levam para a vida a reflexão bíblica e teológica, que exploram os conteúdos e as práticas devocionais (Orações, Ladainhas e Jaculatórias, Invocações, Consagrações, Práticas espirituais), ligados à espiritualidade.
A dimensão espiritual é talvez aquela mais abandonada pela nossa geração. Eu proporia os seguintes âmbitos a considerar:
- a Imitação: o amor leva a imitar e a emular, a fazer como o amado;
- a Doação: a essência do amor é dar-se, doar-se, entregar-se;
- a Consagração: isto é, a doação como estado de vida, viver em amor e dedicação a Alguém;
- a Expiação / Reparação / Consolação; isto é, o amor como expiação, como amar pelos outros, em lugar dos outros, em lugar de quem não ama. É o amor mais desinteressado, a forma de amor muito sublinhada no passado.
A Dimensão Apostólica traduz as dimensões da Teologia e da Espiritualidade do Coração de Jesus para a vida e a acção: estilo, palavras, obras... A Regra de Vida (3,2) continua a propô-la aos missionários combonianos: “No Coração de Cristo, o comboniano contempla as atitudes interiores de Cristo e assume-as: a doação incondicional ao Pai, a universalidade do seu amor pelo mundo e o seu comprometimento com a dor e a pobreza dos homens.”
4. – Daniel Comboni e a Espiritualidade do Coração de Jesus
Não podemos terminar estas considerações sem referir tudo a São Daniel Comboni. Uma vista rápida ao índice dos seus escritos mostra-nos como foi constante, profunda e totalizante a presença da devoção ao Coração de Cristo na sua vida pessoal e na sua acção apostólica. A Regra de Vida lembra-nos que esta devoção integra “como aspecto relevante” o carisma fundacional; isto é, a graça particular que foi concedida a Daniel Comboni e que fez dele Fundador. Pois “o seu amor à África tinha a origem e modelo no amor salvífico de Cristo Bom Pastor” do Coração trespassado, diz a Regra. E “confiando naquele Coração Santíssimo, sinto-me cada vez mais disposto a sofrer e morrer...,” diz Daniel Comboni.
Para São Daniel, a vivência da espiritualidade do Coração de Cristo leva a um processo interior de transformação do próprio coração, processo de fundamental importância para o missionário. Na Regra de 1871, ele afirma que a função das Regras é “...transformar a mente e o coração, de modo a saber regular-se por si mesmo...”; e “manter o coração quente” (Regra, X, 5º parágrafo); e ainda “manter o coração generoso (espírito de sacrifício). Tal transformação dura a vida inteira e consegue-se mantendo os “olhos fixos em Jesus, amando-o ternamente e procurando compreender o que significa um Deus morto na Cruz pela salvação das pessoas” (Regra X, Ponto 3).
P. Manuel Augusto Lopes Ferreira, Mccj
Lisboa, Festa do Coração de Jesus, 12 de Junho de 2026