Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2025
Em relação ao tema da Missão – Ir ao essencial, o Secretariado-Geral da Missão procurou contribuições para enriquecer a reflexão pessoal e comunitária. Uma vez que tanto os dois últimos Capítulos Gerais como a última assembleia intercapitular insistiram na importância de alimentar uma espiritualidade comboniana para requalificar o nosso serviço missionário, decidimos partilhar a seguinte reflexão sobre a missão do P. David Glenday. Não foi preparada especificamente para este fim, mas acreditamos que oferece algumas ideias interessantes que podem esclarecer a reflexão sobre a nossa experiência pessoal da missão.

Missão – Uma questão de amor

P. David Glenday, MCCJ

Resumo

Esta reflexão do P. David Glenday apresenta a missão como fundamentalmente «uma questão de amor», fundamentando a identidade e a ação missionárias no amor de Deus revelado na Trindade. Inspirando-se nos ensinamentos dos Papas Francisco e Leão, o texto argumenta que a missão tem origem na própria natureza de Deus como amor extrovertido, compassivo e missionário. Deus não está distante, mas ativamente presente no mundo, especialmente entre os pobres e marginalizados, e convida os batizados a partilhar este movimento divino. A missão, portanto, não é principalmente uma estratégia ou atividade, mas uma resposta ao ser amado e transformado por Deus.

Através da experiência pessoal como missionário comboniano nas Filipinas, o autor ilustra como os missionários encontram Deus já presente na vida dos pobres. A missão torna-se um lugar de aprendizagem concreta do amor – através da solidariedade, gratidão, perseverança e alegria – revelando que o amor de Deus precede e molda a ação missionária. O amor também exige trabalho e compromisso: os missionários são chamados a discernir como Deus já ama os pobres e a colaborar humildemente como co-trabalhadores nesta iniciativa divina contínua.

Viver a missão como amor leva à transformação, tanto do missionário como daqueles a quem serve. Os missionários tornam-se sinais da presença amorosa de Deus, enquanto os pobres são afirmados na sua dignidade como filhos amados de Deus. A reflexão conclui aplicando estas ideias ao carisma comboniano, entendido como uma história viva e dinâmica, enraizada na oração, no discernimento e na descoberta contínua. A verdadeira renovação, insiste o autor, não começa com o planeamento humano, mas com a atenção à forma como a Trindade está a trabalhar hoje, levando a Igreja cada vez mais profundamente a uma missão moldada e sustentada pelo amor.

Síntese das principais ideias do artigo

A Missão – Uma Questão de Amor, do P. David Glenday, propõe uma compreensão profundamente teológica e experiencial da missão cristã, enraizada não na atividade ou na eficácia, mas no amor. A missão, argumenta o autor, tem origem na própria identidade de Deus como Trindade de amor. Baseando-se nos ensinamentos dos Papas Francisco e Leão, o artigo afirma que Deus é essencialmente missionário: dinâmico, extrovertido e profundamente envolvido na vida do mundo. A missão não é, portanto, uma tarefa opcional da Igreja, mas uma participação no próprio movimento amoroso de Deus para com a humanidade, especialmente para com os pobres e marginalizados.

No centro desta visão está a convicção de que os missionários não levam Deus aos outros; antes, encontram Deus já presente nos lugares e nas pessoas a quem são enviados. Através da sua experiência entre os pobres urbanos nas Filipinas, o padre Glenday ilustra como a missão se torna um lugar privilegiado de encontro, conversão e aprendizagem. Os pobres revelam o rosto de um Deus que ensina o amor através da solidariedade, da resiliência, da gratidão, da alegria e da esperança. Nesse sentido, a missão não se trata apenas de dar, mas também de receber, pois os próprios missionários são evangelizados e transformados por aqueles a quem servem.

Como a missão nasce do amor, ela necessariamente se expressa em ações concretas. O amor não pode permanecer teórico; ele toma forma no compromisso, no trabalho e na responsabilidade compartilhada. O artigo enfatiza que os missionários são chamados a colaborar com Deus, que já está a trabalhar na história. Essa colaboração requer um discernimento cuidadoso: antes de agir, os missionários devem primeiro reconhecer como Deus está a amar os pobres num contexto específico. Essa cooperação destaca tanto a dignidade quanto o desafio da vocação missionária, pois exige humildade, atenção e fidelidade à iniciativa de Deus, em vez de planos ou projetos pessoais.

Uma consequência fundamental de viver a missão como amor é a transformação. O missionário é gradualmente transformado, aprendendo que o que mais importa não é simplesmente o que se faz, mas quem se torna. Neste processo, o missionário cresce e torna-se um sinal visível da presença amorosa de Deus. Ao mesmo tempo, aqueles que são servidos são levados a uma consciência mais profunda da sua própria dignidade e valor como filhos e filhas amados de Deus. A missão torna-se assim mutuamente vivificante, gerando cura, reconciliação e esperança.

Por fim, o artigo situa esta visão no carisma comboniano. O carisma é apresentado não como uma herança fixa ou ideologia, mas como uma história viva moldada pela oração, pelo discernimento e pela descoberta contínua. É uma participação dinâmica na missão da Trindade, inspirada pelo diálogo com o Fundador e atenta às novas formas através das quais o amor procura expressar-se hoje. A verdadeira renovação, conclui o autor, não começa com estratégias de mudança, mas com a abertura à forma como Deus já está a agir. Ao cultivar a atenção, a oração, a escuta mútua e o discernimento, os missionários permanecem fiéis a um carisma que continua a tornar Cristo visível no mundo através do amor.

Missão – Uma questão de amor

P. David Glenday MCCJ

Uma boa pergunta

Tive a sorte, durante a minha vida como Missionário Comboniano, de passar onze anos a servir nas Filipinas. Lembro-me de um dia em que um jovem leigo empenhado me lançou esta pergunta: «Padre David, vocês, combonianos, falam frequentemente com entusiasmo sobre a vossa vocação e o vosso fundador, São Daniel Comboni. Partilham os seus sonhos, a sua motivação, as suas viagens, as suas esperanças e desilusões, a sua herança e memória – e tudo isso é muito bonito e inspirador. Mas agora o que eu gostaria de saber é isto: qual é o coração, o centro, o motor da missão de São Daniel e da vossa missão hoje?»

Uma pergunta muito boa, sem dúvida, e uma pergunta à qual, durante os meus quase cinquenta anos como missionário, tenho frequentemente tentado responder, procurando as palavras certas e, mais ainda, as ações certas. Se o meu jovem amigo me fizesse a mesma pergunta hoje, não hesitaria em recorrer à ajuda não de um, mas de dois Papas: Francisco e Leão. Na verdade, é realmente impressionante que a última grande carta do Papa Francisco, intitulada Dilexit Nos, fosse sobre o amor – «o amor humano e divino do Coração de Jesus Cristo» –, e que a primeira carta do Papa Leão a toda a Igreja, Dilexi Te, seja sobre... o amor – «o amor pelos pobres».  Fica claro, então: como diz o Papa Francisco, «a missão torna-se uma questão de amor», e os missionários são pessoas que estão «apaixonadas e que, encantadas por Cristo, sentem-se obrigadas a partilhar este amor que mudou as suas vidas».

A missão como amor: sim, esta é a realidade estupenda e esplêndida que forma uma ponte que une as duas cartas dos Papas. E, acima de tudo, desejamos refletir sobre essa realidade para crescer como missionários, cada um de nós nas suas circunstâncias específicas. Então, que descobertas profundas sobre a missão podemos esperar fazer nesta jornada, tendo a carta do Papa Leão como nosso roteiro?

Primeiro, o nosso Deus é um Deus missionário

A missão é uma questão de amor e, no fim das contas, isso se deve ao facto de a missão nascer de Deus, a Trindade do amor. Tudo o que Jesus diz e faz nos Evangelhos, pelo poder do Espírito, torna isso claro: o nosso Deus não é distante, indiferente, alheio, desinteressado. Não, o nosso Deus está em movimento, é extrovertido, comprometido, interessado, próximo, apaixonado.

E nós somos batizados em nome deste Deus missionário. Pelo nosso batismo, os Três passam a residir no mais profundo dos nossos corações e começam a formar-nos como missionários – como eles!

Este tema, esta realidade da Trindade missionária, esteve muito presente no ensinamento e no testemunho do Papa Francisco (pensemos, por exemplo, na sua primeira carta Evangelii Gaudium) e foi retomado com energia pelo Papa Leão. Ambos exortam a Igreja a estar onde os Três já estão: nas margens, nas periferias, com aqueles que são considerados distantes. Em Dilexit Nos, o Papa Francisco insiste que os nossos corações devem ser transformados no Coração de Jesus, um coração que se volta para os feridos e os fracos, e o Papa Leão aprofunda e consolida este apelo missionário.

Portanto, a missão é uma questão de amor, porque Deus é amor, e o amor de Deus é um amor missionário, extrovertido.

Segundo, encontrar Deus na missão

Assim, a Trindade do Amor impele-nos à missão – mas também nos espera lá. Durante os meus anos nas Filipinas – onde exerci o meu ministério num pequeno recanto da megacidade de Manila –, tive a graça de aprender a língua nacional, o tagalog, e de poder assim acompanhar especialmente uma pequena comunidade nas favelas da cidade.

Com eles, fiz a descoberta comovente que é o tesouro da vida de tantos missionários: que o Deus que é amor nos precede na nossa jornada missionária e que chegamos a conhecer este Deus de novo na vida e, especialmente, nos corações dos pobres a quem somos enviados. No exemplo das suas vidas, a missão torna-se uma questão de aprender a amar, onde o amor tem o rosto da solidariedade, da gratidão, da coragem, da alegria, da perseverança, do bom senso, da tolerância.

Na missão com e para os pobres, nós, missionários, aprendemos a amar.

Terceiro, trabalhar com Deus na missão

Porque a missão é uma questão de amor, é também uma questão de obras, de trabalho, de ação. Como Jesus diz em João 5, 17, «o meu Pai trabalha até hoje, e eu também trabalho», e ele completa isso em João 15, oferecendo-nos o rico retrato do Pai como o viticultor. O Pai se alegra com os nossos frutos abundantes, diz-nos Jesus, e São João sublinha a mesma visão quando nos encoraja a amar na prática e não na teoria.

Por causa do amor, somos colaboradores de Deus, como insiste São Paulo, e isso é tanto uma alegria como um desafio. É uma grande alegria saber que o Senhor quer que nos juntemos a Ele no amor aos pobres, que Ele deseja a nossa companhia e solidariedade: é uma nova forma de apreciar a nossa grande dignidade e potencial na graça do batismo. E é também um desafio, porque significa que precisamos primeiro discernir como Deus está a amar os pobres aqui e agora, para que possamos responder a esta iniciativa divina. Deus ama os pobres em primeiro lugar.

Finalmente, transformados pelo amor

Quando compreendemos e vivemos a missão como amor nestas diferentes formas, algo maravilhoso e poderoso acontece: somos mudados, transformados. Percebemos pouco a pouco que o que realmente importa no nosso serviço aos pobres é, acima de tudo, quem somos, e descobrimos que nos estamos a tornar um sinal, um sacramento da presença amorosa de Deus.

Sim, somos transformados, mas também, pela graça de Deus, aqueles a quem somos enviados, pois são levados a uma nova consciência do seu valor e dignidade infinitos e do seu potencial como seres humanos, filhos e filhas do Pai que os ama de uma forma muito especial.

As palavras finais do Papa Leão inspiram-nos a ligar a vocação ao amor à forma específica de o fazer como Missionários Combonianos:

O amor cristão derruba todas as barreiras, aproxima aqueles que estavam distantes, une estranhos e reconcilia inimigos. Ele atravessa abismos que são humanamente impossíveis de transpor e penetra nas fendas mais ocultas da sociedade. Pela sua própria natureza, o amor cristão é profético: faz milagres e não conhece limites. Faz acontecer o que era aparentemente impossível. O amor é, acima de tudo, uma forma de ver a vida e uma forma de a viver. Uma Igreja que não impõe limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje necessita.

Implicações para o nosso caminho missionário

Olhando para trás, para a nossa experiência pessoal, somos convidados a discernir como encontramos esse amor de Deus em harmonia com o carisma de Daniel Comboni. Um carisma é, antes de mais nada, uma história a ser contada: algo que nos acontece, uma narrativa vivida – a Trindade em ação. Um carisma conduz-nos a um fim primeiro desejado pela Trindade: tornar presente, na Igreja e no mundo, aqui e agora, uma ou outra das inúmeras facetas da vida e missão de Jesus, através da vida daqueles que são «tocados» por esta graça. Desta forma, um carisma torna Cristo visível.

Quando o carisma é compreendido e vivido desta forma, várias coisas muito significativas tendem a acontecer:

1. Participar no carisma será vivido como uma experiência, mais do que simplesmente o estado de estar convencido de uma ideia, por mais valiosa que seja. O movimento será de estático para dinâmico, de teórico para prático, da cabeça para o coração.

2. A ligação com o Fundador será reformulada, de modo que a prioridade será o diálogo com ele, mais do que simplesmente conhecê-lo e abraçar as suas ideias, por mais importantes que sejam. O carisma é mais uma conversa com o Fundador do que uma palestra sobre ele.

3. Uma espiritualidade discernente e orante passará para o centro do mundo do missionário, porque foi dessa oração que o carisma nasceu e ainda vive. O carisma atrai a pessoa para o coração ardente da Trindade Divina, para que ela se torne participante da sua missão.

4. Embora a memória desempenhe um papel importante na experiência do carisma, o mesmo acontece com a descoberta: que novas formas e expressões esta graça está a dar origem hoje?

Conclusão

Quando o carisma é compreendido e vivido desta forma, o desafio da renovação contínua torna-se rapidamente imperioso. No entanto, é de grande importância começar essa renovação com a pergunta certa, que não é «como devemos renovar-nos?», mas sim «como é que Deus Trino está agora a trabalhar para nos levar à renovação?» ou, como Lonergan insistiria, «esteja atento». A importância dada ao discernimento, ao estudo, à oração e à escuta mútua torna-se, assim, um indicador significativo de um carisma vivo e saudável.

P. David Glenday, MCCJ