Segunda-feira, 19 de Janeeiro de 2026
O artigo analisa as implicações do paradigma do tecno capitalismo na vida comunitária e na missão das comunidades cristãs, com especial atenção à vida religiosa e missionária. Partindo de uma leitura crítica da transformação digital – marcada pelo individualismo, consumismo, competição e redução da pessoa a produtor e consumidor de dados –, o texto destaca como essas dinâmicas afetam profundamente a qualidade das relações, do tempo compartilhado, da fraternidade e da própria credibilidade do anúncio evangélico.
A Internet, as redes sociais, os smartphones e a inteligência artificial, embora ofereçam potencialidades inegáveis, inserem-se frequentemente numa lógica económica que privilegia a eficiência e o lucro em detrimento do bem comum, alimentando uma «cultura do descarte» que contrasta com a visão cristã da pessoa.
Em diálogo com a Escritura, o magistério social e o carisma missionário, o texto propõe uma releitura da comunidade como lugar teológico e profético, chamado a encarnar uma alternativa concreta ao individualismo dominante. A missão não é entendida como uma atividade individual ou funcional, mas como uma experiência comunitária que torna visível um estilo de relações reconciliadas, fraternas e solidárias. Assim, são exploradas algumas pistas operacionais – teológicas, carismáticas, antropológicas, sociais e proféticas – que ajudam a repensar a vida comunitária como espaço de discernimento, formação permanente e testemunho credível do Evangelho.
Em conclusão, o texto afirma que a vida religiosa e missionária, quando vivida como comunidade autêntica e intercultural, representa por si só uma palavra profética no contexto do tecno-capitalismo. Sem pretender mudar o sistema global, ela é chamada a deixar-se transformar pelo Espírito, oferecendo ao mundo o sinal concreto de uma esperança fundada não na eficiência ou no sucesso, mas na lógica evangélica da comunhão, da gratuidade e do cuidado mútuo.
Síntese das principais ideias do texto
Uma análise crítica do impacto do tecno capitalismo na vida pessoal, comunitária e missionária destaca como a transformação digital, embora ofereça grandes oportunidades, está hoje profundamente marcada por uma lógica económica que reduz as relações a funções e a pessoa a um recurso. A Internet, nascida como um espaço de partilha e democratização do conhecimento, foi progressivamente absorvida pelo paradigma neoliberal, que a utiliza para alimentar o consumismo, o individualismo e o controlo. Neste contexto, o ser humano torna-se simultaneamente consumidor e produtor de dados, avaliado com base na sua produtividade e descartado quando não responde aos critérios de eficiência.
O tecno capitalismo não afeta apenas a sociedade em geral, mas penetra profundamente também na vida das comunidades cristãs e religiosas. O uso generalizado das tecnologias digitais altera a relação com o tempo, fragmenta a atenção, empobrece a qualidade das relações e reduz os espaços de silêncio, escuta e contemplação. O smartphone, em particular, introduz uma lógica de disponibilidade permanente que entra em conflito com a vida comunitária, a oração e o encontro real. Também a criatividade e a responsabilidade pessoal correm o risco de ser delegadas a dispositivos tecnológicos, como no caso da inteligência artificial, com efeitos potencialmente desumanizadores.
No plano comunitário, o paradigma tecno-capitalista reforça uma visão individualista que transforma os irmãos em concorrentes ou instrumentos funcionais para os seus próprios objetivos. A comunidade corre assim o risco de perder o seu valor carismático e simbólico, tornando-se uma simples estrutura organizacional ao serviço da eficiência apostólica. A comunidade tem um valor em si mesma: é um lugar de acolhimento incondicional, uma escola de humanidade, um espaço onde as fragilidades podem transformar-se em recursos e onde a missão encontra um enraizamento e uma verificação. Sem uma vida fraterna autêntica, também o anúncio evangélico perde credibilidade.
Neste contexto, a vida intercultural surge como uma grande oportunidade, mas também como um desafio. As diferenças culturais, se acolhidas com tempo, escuta e paciência, enriquecem a visão missionária e ajudam a relativizar as próprias categorias. No entanto, a cultura digital tende a oferecer uma compreensão superficial do diferente, substituindo o encontro real por conexões rápidas e simplificadas. Por isso, é necessário cuidar da comunidade como espaço de relação profunda e de discernimento partilhado.
A terceira parte do texto representa a passagem propositiva e construtiva da reflexão, oferecendo algumas pistas para repensar a vida comunitária e missionária à luz dos desafios colocados pelo tecno-capitalismo. Depois de destacar as dinâmicas desumanizadoras do individualismo digital, o texto convida a recuperar uma visão integral da missão, fundada na comunidade como lugar teológico, carismático e profético.
Do ponto de vista teológico, a missão nasce da própria ação de Jesus, que nunca envia os discípulos como indivíduos isolados, mas os envia «dois a dois», construindo à sua volta uma comunidade que anuncia antes de tudo através do estilo das relações. A fraternidade vivida torna-se assim parte integrante da mensagem evangélica: não é um simples apoio logístico à ação missionária, mas uma sua forma essencial. Nesse sentido, a comunidade missionária torna visível que o Deus anunciado é comunhão e que a salvação cristã tem uma dimensão pessoal e comunitária. A missão, portanto, não pode ser reduzida a uma atividade funcional ou a uma soma de iniciativas individuais, mas configura-se como uma experiência partilhada de conversão, discernimento e testemunho.
No plano carismático, o texto recorda com força a importância da comunidade como espaço em que o carisma se encarna na história concreta. O carisma não é uma realidade abstrata ou fixada de uma vez por todas, mas uma dinâmica viva que pede para ser continuamente interpretada à luz dos novos contextos de pobreza e exclusão. Num mundo marcado pela fragmentação e pela rapidez das mudanças, a comunidade torna-se o lugar privilegiado para o discernimento missionário: aqui se escuta a realidade, se partilham intuições, se avaliam escolhas e se constroem metodologias capazes de perdurar no tempo. Este processo comunitário contrasta o risco do personalismo e da identificação da missão com obras individuais ou competências individuais, favorecendo, em vez disso, uma visão da missão como corpo, como responsabilidade partilhada.
A dimensão antropológica sublinha a singularidade de cada pessoa e dos seus dons, opondo-se à redução funcionalista típica do paradigma tecno-capitalista. Na comunidade, ninguém é intercambiável: cada irmão traz uma sensibilidade, uma história, uma maneira única de viver a missão. Reconhecer e valorizar essa singularidade significa criar espaços de escuta, de formação permanente e de acompanhamento, capazes de prevenir o esgotamento pessoal e o burnout apostólico. A sustentabilidade da missão, de facto, não depende apenas da eficácia das obras, mas da qualidade da vida interior e das relações comunitárias que as sustentam.
Por fim, no plano social e profético, a comunidade missionária é chamada a colocar-se conscientemente nas periferias, entendidas não apenas como lugares geográficos, mas como espaços existenciais e simbólicos onde a dignidade humana está ameaçada. Num mundo digital que ilude estar em toda a parte, a comunidade cristã é convidada a redescobrir o valor da presença concreta, do «estar presente» real, como forma de encarnação do Evangelho. Esta escolha tem um valor profundamente profético: testemunha que é possível viver relações não baseadas na produtividade, na competição ou na visibilidade, mas no cuidado mútuo, na partilha do tempo e na acolhida da fragilidade. Desta forma, a própria comunidade torna-se anúncio, sinal credível de uma alternativa evangélica ao modelo dominante do tecno-capitalismo.
Comunidade em missão na era digital: o desafio do tecno capitalismo
Fr. Alberto Lamana Consola, MCCJ
1. O contexto: o tecno capitalismo
A transformação tecnológica mais significativa das últimas décadas é, sem dúvida, a Internet. A sua rápida difusão em todo o mundo revolucionou a nossa maneira de comunicar, informar-nos, relacionar-nos, consumir e trabalhar. Trinta anos após o seu nascimento, porém, estamos cientes de que os ideais inspiradores de Tim Berners-Lee — uma web a serviço do bem comum, instrumento de libertação, conhecimento partilhado e participação democrática — podem ser facilmente distorcidos e transformados em instrumentos de opressão, mentira e manipulação.
O neoliberalismo apresenta-se hoje como um paradigma económico único, impondo regras homogéneas para interpretar as interações sociais. Adaptou-se com surpreendente rapidez às mudanças tecnológicas, distorcendo em seu benefício princípios éticos que, na sua origem, eram animados por um desejo autêntico de construir comunidades. A antropóloga, e especialista em cultura digital, Remedios Zafra define essa simbiose entre capitalismo e tecnologia como «tecno-capitalismo». O seu principal receio é que o capitalismo, por sua natureza desinteressado na dimensão moral das relações humanas, busque apenas o lucro económico. Assim, não há qualquer atenção ao bem comum nem à construção de uma ética coletiva que melhore a sociedade.
Assistimos a um capitalismo que se reinventou explorando as novas possibilidades do online. As suas campanhas publicitárias ultra-segmentadas não se limitam a responder às necessidades, mas antecipam e constroem desejos, alimentando um consumismo desenfreado. O ser humano é reduzido a mercadoria: ao mesmo tempo consumidor e produtor de dados, torna-se mais um nó da rede. O sistema tecno-capitalista, porém, não atribui o mesmo valor a todos. Descarta aqueles que não são produtivos: idosos, deficientes, pobres. É a «cultura do descarte», várias vezes denunciada pelo Papa Francisco, que reduz a pessoa a um índice de rendimento. Uma economia que exclui, desprovida de rosto humano, está destinada ao fracasso.
As redes sociais, nascidas com a promessa de nos conectar e criar comunidades abertas, plurais e democráticas, transformam o utilizador em produtor de dados e consumidor obrigatório de publicidade. Em troca, oferecem-lhe métricas generosas para alimentar o seu ego. Pagamos sobretudo com o nosso tempo, atordoados pelo «scroll infinito» que muitas plataformas introduziram como funcionalidade central. O tempo, esse recurso imaterial que diz muito sobre quem somos e sobre as nossas prioridades, é fragmentado e disperso numa contínua procura de atenção. E nós, não estamos imunes a esta deriva.
Existe uma forte ligação entre neoliberalismo e individualismo. Como um dos pilares do capitalismo é o consumo, o indivíduo torna-se, antes de tudo, um consumidor. No paradigma da web, ele também é um «prosumidor», ou seja, alguém que consome e, ao mesmo tempo, produz informações: na maioria dos casos, simplesmente dados. Assim, a sua principal «contribuição» para o sistema torna-se o consumo de dados e publicidade. A produtividade é reduzida à capacidade de gerar visualizações para atrair publicidade, num ciclo interminável de likes, corações e partilhas. Fortalece-se uma visão ampliada do eu, baseada na reputação pessoal, na posse e na gratificação imediata. Por outro lado, enfraquecem-se as identidades baseadas na gratuidade, no cuidado, nas relações desinteressadas e na construção de comunidades baseadas em interesses comuns.
Outro elemento que alimenta o individualismo é a competitividade: uma atenção excessiva ao sucesso pessoal em detrimento das dinâmicas colaborativas. Daí resulta a convicção de que cada um obtém o que merece e que o sucesso ou o fracasso são puramente individuais, ignorando a complexidade dos fatores em jogo. Assim, perde-se o sentido de responsabilidade partilhada, essa dimensão social essencial para o nosso crescimento humano e espiritual.
As plataformas digitais deveriam abrir-nos à pluralidade e diversidade do real; em vez disso, analisando as nossas escolhas pessoais, reforçam formas de comunicação cada vez mais semelhantes aos nossos gostos e impedindo o encontro com o diferente. Uma das grandes vítimas da internet é a verdade: cada um parece construir a sua própria, defendendo-a com argumentos retirados da rede, mesmo para as opiniões mais bizarras. Para um cristão, a verdade existe, é única e tem um nome (Jo 14,6). Ninguém a possui: somos chamados a caminhar em direção a ela com humildade, deixando-nos interpelar pelo clamor da realidade.
Para reforçar a influência da internet, chegou o smartphone, que, graças às suas imensas redes de comunicação, alcançou uma difusão impressionante em todo o mundo. Em poucas décadas, tornou-se um dispositivo essencial da vida quotidiana. Estamos sempre acessíveis, a qualquer hora. As suas fascinantes possibilidades geraram uma profunda descontinuidade sociocultural para a qual ainda não temos um quadro ético que nos ajude a fazer um uso autenticamente humano: isto é, um instrumento que realmente favoreça o encontro e não nos torne dependentes das suas contínuas exigências de atenção. Sabemos bem que, mesmo entre nós, o telemóvel introduziu uma lógica de disponibilidade imediata que muitas vezes entra em conflito com o silêncio, a contemplação e a qualidade do tempo comunitário.
Nesta lista de efeitos, não pode faltar uma referência à Inteligência Artificial (IA), tecnologia fascinante que já tem um impacto direto na nossa vida. Existem reflexões sérias sobre a sua dimensão ética, que sublinham o risco do seu poder desumanizador: delegar a uma máquina aspetos intrinsecamente humanos. A criatividade também está ameaçada. Não podemos permitir-nos, por preguiça, deixar que uma máquina crie por nós: criar é o que nos torna humanos. A IA pode ser uma boa aliada, mas não um substituto.
A vida religiosa não está imune a tudo isto. Apesar dos nossos longos percursos formativos, o tecno-capitalismo — como um cavalo de Tróia — penetrou subtilmente nas nossas dinâmicas comunitárias. A Internet afeta negativamente o tempo e a qualidade da nossa vida fraterna e, portanto, a nossa missão. Passamos demasiado tempo diante dos ecrãs, subtraindo-o ao encontro com as pessoas, que são o coração da nossa consagração. Seria absurdo negar o potencial positivo da Internet, nos termos indicados por Berners-Lee, mas é urgente refletir sobre o que a Internet está a fazer às nossas vidas, a nível pessoal, comunitário e missionário: três dimensões profundamente entrelaçadas no nosso carisma comboniano.
2. Os efeitos do tecno capitalismo na vida comunitária
O paradigma do tecno capitalismo tende a basear-se numa antropologia individualista, que corrói o bem comum e reduz a pessoa a um simples recurso. Esta visão utilitarista leva-nos a perceber os irmãos como oportunidades para alcançar os nossos objetivos, transformando o outro em função de nós mesmos. O resultado é o sacrifício da comunidade e da solidariedade: relações construídas com base na funcionalidade e na superficialidade. Mas o individualismo não nos afasta apenas emocionalmente dos outros: transforma-os em concorrentes ou, pior ainda, em instrumentos para as nossas ambições pessoais.
O binómio vendas online-publicidade tem um enorme impacto nos nossos hábitos de consumo descontrolado. A facilidade de obter qualquer coisa em tempo recorde é extremamente gratificante. Além da questão das despesas superficiais — já de si problemática —, há uma questão mais profunda: a busca de compensação através do ato de comprar. Criticamos frequentemente estes modelos sociais, mas não é difícil reconhecê-los também dentro das nossas comunidades. Sem esquecer o impacto ambiental destes comportamentos e as suas graves implicações ao longo de todo o ciclo de produção e distribuição. Como missionários, somos chamados a uma ecologia integral que tenha em conta não só a terra, mas também as relações humanas.
O tempo é aquele recurso imaterial que diz muito sobre quem somos e sobre as prioridades das nossas vidas. Hoje passamos muito tempo diante de um ecrã. Certamente muitas atividades apostólicas exigem comunicação online e o uso do computador como ferramenta de trabalho. Mas devemos nos perguntar qual é a qualidade desse tempo. Ouvimos dizer que as redes sociais nos aproximam de quem está longe e nos afastam de quem está perto. Elas geram um distanciamento emocional do aqui e agora, fundamental para o nosso serviço pastoral. O Papa Leão lembrava aos Superiores Gerais que o mundo digital pode influenciar negativamente a nossa maneira de construir e manter relações. O risco é claro: enquanto acreditamos estar a expandir a nossa presença, na realidade podemos estar a reduzir a possibilidade de encontros reais.
A nossa saúde comunitária está a deteriorar-se. Mesmo vivendo sob o mesmo teto, o tempo de qualidade que dedicamos uns aos outros é cada vez menor, e isso leva-nos a perder o interesse uns pelos outros. O Capítulo de 2009 lembrava-nos: «A vida fraterna é um elemento fundamental e indispensável para o nosso crescimento espiritual e serviço missionário. Devemos dedicar o tempo e a atenção necessários para alcançar estes objetivos» (n. 32). Não vivemos com pessoas que escolhemos, mas com irmãos chamados — como cada um de nós — a uma missão comum. Esta vocação partilhada convida-nos a ver a comunidade como uma realidade carismática, não como uma simples estrutura funcional ao serviço da missão. A comunidade tem um valor em si mesma, como portadora de uma Palavra que anuncia a Salvação. Perante a lógica funcionalista do capitalismo, a comunidade expressa a lógica da acolhida incondicional do irmão. Na comunidade não se mede o que cada um produz.
A comunidade é uma escola de vida. Cada um traz consigo a sua fragilidade, mas a comunidade não é a soma das fragilidades dos seus membros. Somente através de uma profunda aceitação mútua é que essas fragilidades podem se transformar em fonte de vida. Precisamente porque reconhecemos que somos frágeis, podemos nos abrir à necessidade da ajuda que nos vem de fora. Isso também nos torna mais humildes no nosso apostolado. Como poderíamos falar de perdão e reconciliação entre os povos, se sabemos como é difícil perdoar o irmão que vive connosco?
Nesse sentido, a nossa vida intercultural é uma oportunidade única para nos abrirmos ao outro, ao diferente. Ela ajuda-nos a relativizar a nossa cultura, ou pelo menos a colocá-la num plano diferente daquilo que nos torna verdadeiramente humanos, onde encontramos uma conexão autêntica. As relações interculturais são complexas, exigem tempo e energia, mas representam uma oportunidade de autoconhecimento que amplia a nossa compreensão pessoal dentro do grupo. No entanto, também aqui a cultura digital nos tenta: oferecendo-nos conexões superficiais, uma compreensão ilusória do «diferente», sem o tempo necessário para a verdadeira escuta.
Não podemos ignorar o enorme impacto do telemóvel na nossa vida comunitária. Momentos privilegiados de partilha — como refeições ou reuniões — são continuamente interrompidos pelas solicitações do dispositivo. É frustrante conversar com alguém que está fisicamente presente, mas constantemente ocupado a responder a mensagens do WhatsApp. A nível pessoal, provoca interrupções contínuas das nossas atividades, reduzindo drasticamente a capacidade de concentração. Já se fala abertamente de patologias relacionadas com a dependência do smartphone. Até a oração comum sofre com isso: quantas vezes nos encontramos a rezar com o olhar distraído, a mente ainda nas últimas notificações.
3. Pistas para uma comunidade missionária
Depois de destacar os efeitos do paradigma tecno capitalista sobre a nossa comunidade e a nossa missão, consideremos agora algumas pistas que podem nos iluminar para superar os limites que ele nos impõe, especialmente o problema do individualismo, que hoje representa o maior desafio para a nossa metodologia missionária. Podemos considerá-las a partir dos seguintes âmbitos: teológico, carismático, antropológico, social e profético.
Teológico: O ponto de partida da missão reside na própria ação de Jesus, que envia os discípulos dois a dois e constrói uma comunidade que anuncia. Este caminhar e estar juntos é, por si só, expressão de um novo tipo de relações. A boa nova é, antes de mais, uma oportunidade de conversão para quem a anuncia. A fraternidade vivida entre os discípulos é sinal da credibilidade do anúncio: a missão comunitária não transmite apenas uma mensagem, mas encarna um estilo de relações novas, reconciliadas e fraternas entre pessoas que partilham o mesmo chamamento. A comunidade missionária torna visível que o Deus anunciado é comunhão e que a salvação não é apenas pessoal, mas também comunitária.
A encíclica Laudato Si' iluminou um aspeto muitas vezes esquecido ou polarizado: a integração da promoção humana na ação missionária. Ao falar de ecologia integral, o Papa Francisco forneceu-nos as chaves para compreender a missão como uma unidade que abrange todas as dimensões da pessoa e do seu ambiente. É algo que o próprio Comboni compreendeu e promoveu. Hoje existe o risco de negligenciar dimensões fundamentais da evangelização, concentrando-se excessivamente na pastoral sacramental, com o consequente empobrecimento da nossa missão. A comunidade, acolhendo a diversidade e a sensibilidade dos seus membros, abre horizontes mais amplos para uma resposta integral. As dimensões pessoal, social e espiritual reforçam-se mutuamente e ajudam a evitar os extremos do espiritualismo ou do materialismo.
Carismático: Para Comboni, o cenáculo de apóstolos é um elemento fundamental da missão. Desde a sua primeira experiência, em Santa Croce, ele intuiu a importância da comunidade como apoio mútuo a nível pessoal e também na atividade pastoral. A nossa história e tradição souberam codificar este valor na Regra de Vida. O individualismo não é uma novidade, mas hoje manifesta-se com muito mais força devido ao profundo impacto do paradigma tecno capitalista. A comunidade é o lugar onde se vive e se atualiza o carisma, em diálogo com a realidade missionária concreta. Hoje, são múltiplos os contextos em que emergem «os mais pobres e abandonados». Como Instituto, somos chamados, em todos os lugares, a discernir o sentido do Carisma hoje. A comunidade é o espaço privilegiado para o discernimento dos campos e métodos missionários, porque é precisamente a comunidade que toca a fibra humana dos missionários em carne e osso, que se sentem interpelados a oferecer uma resposta. Precisamos desenvolver uma metodologia concreta que responda aos desafios atuais e, ao mesmo tempo, lance as bases de um «saber fazer» capaz de continuar no tempo, superando as competências individuais. Isso requer confronto, avaliação periódica e abertura à frescura do Evangelho. Saber documentar uma ação apostólica a nível comunitário é uma grande riqueza para todo o Instituto, pois pode inspirar outras comunidades a iniciar novas iniciativas em contextos diferentes. Uma vez entrados na lógica da missão comunitária, torna-se natural estendê-la a outras esferas da vida da Igreja local, do laicato ou mesmo a outras realidades de carácter social. É uma nova maneira de conceber a missão como um corpo, e não através da identificação pessoal com uma obra específica.
Antropológico: Na comunidade, cada um chega com talentos únicos, expressão dos dons recebidos. Quando esses dons são acolhidos, tornam-se instrumentos originais e irrepetíveis. No entanto, a tentação da lógica da eficiência leva-nos a construir uma imagem artificial, monótona e padronizada das pessoas, definindo-as simplesmente com base no papel e nas funções. O indivíduo é assim reduzido a uma série de funções a desempenhar, e qualquer pessoa com as mesmas competências poderia substituí-lo. Desta forma, anula-se o dom que cada pessoa é em si mesma. Cada um traz algo novo e diferente, que só com os olhos da fé podemos compreender. Ninguém é substituível: todos contribuímos com sensibilidades e talentos diferentes. É claro que, para alguns serviços, são necessárias competências específicas, mas, além disso, a interação com a missão concreta é sempre única. Quando uma pessoa deixa um serviço, não pode ser simplesmente substituída: outra chegará com outros dons e outras formas de agir.
A vida intercultural torna-se uma ocasião privilegiada de abertura e de conhecimento da realidade. Construir uma missão em contextos interculturais significa abrir-se a uma pastoral em que as diferenças não são um obstáculo, mas a manifestação das inúmeras facetas da realidade, vistas com o olhar do missionário. Nenhum grupo cultural pode monopolizar a visão missionária do Instituto – uma tentação em que é fácil cair. Portanto, é necessário criar comunidades e circunscrições que representem a riqueza multicultural que nos constitui. Também a nossa mobilidade, que nos leva a trabalhar em contextos, países ou mesmo continentes diferentes, abre a nossa mente a novas expressões e culturas que envolvem diferentes metodologias pastorais. Desta forma, o missionário apropria-se de uma experiência que coloca à disposição noutros contextos.
Alguns apostolados esgotam as pessoas. Muitas vezes falta integração na comunidade e reflexão sobre o que se faz. Cada um é chamado a encontrar uma «distância justa» em relação ao seu compromisso: não somos funcionários de uma obra, nem devemos deixar-nos esmagar pelo peso das injustiças contra as quais lutamos todos os dias. É urgente restaurar dinâmicas de formação permanente na comunidade, que dêem espaço ao crescimento pessoal. O trabalho interior e a transformação das injustiças fazem parte de um único movimento de libertação: são dois âmbitos que se sustentam mutuamente e trazem em si a verificação da sua autenticidade. É aqui que reside a verdadeira sustentabilidade: uma ação pastoral que nutre a vida comunitária, a fé, a paixão pela missão e pelos empobrecidos.
Social: A periferia é um lugar qualificado para a missão. Uma comunidade missionária é tal quando sabe colocar-se não no centro, ocupando espaços, mas na periferia, lugar teológico por excelência: é fazer causa comum com o caminho de um povo. É o contexto adequado para ler a realidade, deixando-nos interrogar pela sua complexidade e contradições.
O Papa Leão recorda-nos em Dilexi te: «... é preciso reconhecer mais uma vez que a realidade se vê melhor a partir das margens e que os pobres são portadores de uma inteligência específica, indispensável para a Igreja e para a humanidade» (DT 82). Este «estar presente» transforma-nos: muda a nossa maneira de olhar, aproximando-nos cada vez mais da forma como o próprio Deus contempla e abraça a realidade. A Internet dá-nos a impressão de estar em toda a parte, alimentando múltiplas relações; mas é fácil perder de vista o presente e o contexto local como lugar teológico, Palavra encarnada, espaço-tempo em que entrelaçamos as nossas vidas. O mundo virtual gera sensações gratificantes, mas corre o risco de nos afastar do mundo real e a sua dimensão do concreto. O digital impõe um filtro que distorce e esconde dimensões essenciais da pessoa.
Profético: A comunidade religiosa é uma palavra profética que desafia o individualismo gerado pelo tecno capitalismo. Ela testemunha que é possível viver de maneira diferente: colocando o cuidado com a pessoa acima da eficiência e da produtividade; vivendo segundo a lógica do perdão e da partilha; construindo relações nas quais se reconhece Cristo no irmão e na irmã. Tudo isso só é possível na fé. É um estilo de vida que ilumina uma sociedade fragmentada.
Conclusão
Vivemos numa realidade marcada pelo flagelo da guerra, pelo aumento da pobreza e da exclusão. O tecno capitalismo continua a conquistar novos espaços e impõe-se como paradigma dominante, prometendo soluções baseadas num crescimento económico infinito que alimenta a ambição pessoal e o individualismo, corroendo a dimensão social, essencial para o nosso desenvolvimento humano.
Vimos o fascínio exercido pela tecnologia e sabemos que não estamos imunes ao risco de sermos instrumentalizados pelas suas dinâmicas desumanizadoras. A vida religiosa é uma alternativa a este sistema: testemunha uma forma de vida radicalmente diferente, valoriza a comunidade como lugar onde se constrói uma alternativa ao individualismo. É profecia em si mesma, quando sabe colocar-se nas periferias, de onde imaginar novas possibilidades a partir do Evangelho.
Mas permanecemos humildes: talvez não consigamos mudar o mundo; o que está nas nossas mãos é deixar-nos mudar, permitir que o Espírito habite em nós para nos transformar em instrumentos da misericórdia do Pai. O que nos distingue como cristãos é que a nossa esperança não depende de condições externas, sempre mutáveis, mas tem a sua origem no evento salvífico da Cruz, a partir do qual aprendemos a ler a história.
Ir. Alberto Lamana Consola, MCCJ