Terça-feira, 15 de julho de 2026
Cinco meses podem parecer pouco tempo. Mas são suficientes para descobrir uma Igreja local vibrante, um povo extraordinário e os desafios que continuam a marcar a missão evangelizadora em Caia. Esta é a convicção do seu bispo, dom António Manuel Bogaio Constantino, mccj, ordenado inicialmente bispo auxiliar de Beira em 19 de fevereiro de 2023, depois nomeado bispo de Caia em 25 de fevereiro de 2026 e administrador apostólico de Beira em 12 de junho de 2026.
Quando cheguei à Diocese de Caia, no centro de Moçambique, sabia que encontraria uma Igreja missionária; aliás, eu conhecia já uma parte deste vasto território porque o percorri como bispo auxiliar da arquidiocese da Beira. Não imaginava, contudo, a dimensão humana, geográfica e espiritual desta missão.
Nestes primeiros cinco meses fiz centenas de quilómetros por estradas de terra batida, visitei comunidades isoladas e antigas missões e encontrei cristãos cuja fé permanece viva, apesar das enormes dificuldades do dia a dia.
A diocese de Caia é uma das mais desafiantes de Moçambique. Estende-se por quase 55 mil quilómetros quadrados, abrangendo vastas zonas rurais com centenas de pequenas comunidades no vale do rio Zambeze. Muitas ficam longe da sede da paróquia e recebem a visita de um sacerdote poucas vezes por ano. A distância, contudo, nunca apagou a esperança dessas comunidades.
Aqui, evangelizar é viajar durante horas por caminhos de areia, atravessar zonas inundadas na época das chuvas e, por vezes, interromper a viagem porque simplesmente já não há estrada. Há localidades onde o automóvel ou a mota deixam de ser suficientes; o único meio é continuar a pé para chegar às famílias que aguardam pela celebração da eucaristia, pelo batismo dos filhos ou por uma palavra de esperança.
Uma geografia exigente, uma fé extraordinária
A geografia molda profundamente a vida da diocese. Grandes distâncias, infraestruturas limitadas e acessos difíceis tornam cada visita pastoral uma verdadeira aventura. Durante as chuvas, muitas comunidades ficam isoladas. Uma deslocação de cem quilómetros pode transformar-se numa viagem de um dia inteiro. Mas é nestes lugares que encontramos algumas das comunidades mais vivas da diocese.
Os fiéis organizam-se, são assíduos a celebração dominical, ensinam catequese, acompanham os doentes e preservam a vida comunitária, em grande parte graças aos catequistas e animadores leigos, verdadeiros pilares da primeira evangelização. Eles mantêm acesa a chama da fé.
O Zambeze: obstáculo e ponte
Nenhuma realidade simboliza melhor esta diocese do que o majestoso rio Zambeze.
À primeira vista, parece dividir o território e dificultar o trabalho missionário. As travessias exigem tempo, organização e recursos. Em determinadas épocas do ano, as deslocações tornam-se ainda mais difíceis.
Mas, o Zambeze também une a diocese.
Ao longo das suas margens nasceram comunidades, desenvolveram-se antigas missões e construiu-se uma história comum de evangelização que permanece até hoje.
O rio alimenta a terra, sustenta milhares de famílias e recorda-nos diariamente que a missão da Igreja, tal como as suas águas, nunca deixa de correr.
Reanimar as antigas missões
A diocese de Caia guarda um património missionário extraordinário desde o século XVII. Muitas das missões são antigas e desempenharam um papel decisivo na evangelização, na educação e na promoção humana.
Hoje, algumas mostram o peso do tempo: edifícios a necessitar de reabilitação, infraestruturas a precisar de modernização, centros pastorais a pedir novos recursos para responder às necessidades atuais.
Contudo, reestruturar estas missões é muito mais do que restaurar paredes. É também devolver-lhes capacidade para formar catequistas, acolher jovens, servir as famílias e continuar a anunciar o Evangelho às novas gerações.
Uma diocese que continua em primeira evangelização
Apesar da longa presença da Igreja nesta região, muitas áreas da diocese têm os desafios próprios da primeira evangelização. Esta realidade exige criatividade, perseverança e uma presença constante junto das populações. Exige também recursos humanos e materiais para a missão crescer.
Cada nova capela construída, cada bíblia entregue a um catequista, cada veículo que chega a uma comunidade isolada são muito mais do que um investimento material. é possibilidade de anunciar Cristo onde Ele ainda é pouco conhecido.
Os missionários: presença de esperança
Nestes cinco meses encontrei homens e mulheres cuja dedicação me impressiona profundamente. Sacerdotes, religiosas, religiosos, catequistas e inúmeros leigos percorrem diariamente longas distâncias para servir comunidades. Trabalham na evangelização, acompanham famílias, promovem a educação, visitam doentes e ajudam as populações a enfrentar desafios sociais e económicos.
A missão em Caia não se faz apenas com palavras. Faz-se com presença, proximidade, serviço, sacrifício e entrega.
Caminhar juntos
Ao olhar para estes primeiros cinco meses, tenho uma profunda convicção: Caia é uma diocese pobre em recursos, mas extraordinariamente rica em pessoas. Deus continua a agir através da simplicidade dos mais humildes. Apesar das dificuldades, cresce uma Igreja viva, missionária e cheia de esperança.
Ainda estamos no processo de reforçar a formação dos catequistas, recuperar missões, apoiar sacerdotes, construir pequenas capelas e manter viva a presença da Igreja nas periferias. Esta será a segunda etapa.
Nada disto seria possível sem a generosidade de tantas pessoas espalhadas pelo mundo que rezam e dão um pouco de si para que se possa chegar onde as distâncias parecem impossíveis.
Em nome das comunidades da diocese, deixo uma palavra de profunda gratidão a todos os que connosco têm colaborado. Cada gesto de solidariedade transforma-se aqui em esperança concreta. Cada contribuição ajuda-nos a continuar esta missão que faz estradas difíceis, vence as distâncias do vale do Zambeze e leva o Evangelho até às aldeias mais remotas.
Ainda estamos no início. Porém, uma certeza perdura: Cristo continua a preceder-nos em cada comunidade e a chamar-nos a ser uma Igreja próxima, missionária e comprometida com o futuro deste povo.
+Dom António Constantino, MCCJ
Bispo de Caia e administrador apostólico da Arquidiocese da Beira