Quinta-feira, 27 de agosto de 2026.
O padre Leonel Claro, missionário comboniano português, viveu durante 20 anos no Chade em dois períodos distintos (1994-2004 e 2006-2025). Chegou após a guerra civil, e aprendeu a partilhar a «alegria e simplicidade» de quem não tem nada. Agora vai servir a Igreja portuguesa através da animação missionária e vocacional.

O padre Leonel Claro está de regresso a Portugal, depois de 10 anos no Chade, para ajudar na animação missionária da congregação e das dioceses no Norte.

«Vou andar pelo Norte, a trabalhar aí na animação missionária e na animação vocacional».

Ordenado padre em 1989, o missionário viveu 20 anos da sua vida no Chade, país de missão que escolheu e onde trabalhou em dois períodos: de 1994 a 2004, e entre 2006 e 2025.

A primeira década vivida naquele país africano, saído da guerra civil entre 1965 e 1990, onde a pobreza se revelou «um choque», uma vez que encontrou o país «em pior estado do que imaginava».

«O país tinha saído de uma guerra civil, há pouco tempo, mas ver pessoas pobres mesmo, visível nas roupas sujas, sem nenhuma perspetiva de vida, foi um choque, mas com o tempo, uma pessoa entra na cultura, aprende-se a gostar», recorda.

Em Moïssala, cidade no sul do Chade, o missionário comboniano apaixonou-se pelo «acolhimento e simplicidade das pessoas», numa comunidade com 120 mil habitantes e onde apenas quatro po cento da população era batizada.

«Deslocamo-nos e só encontramos pessoas sem problemas, sem maldade, sem malícia. Pessoas que não te conhecem e recebem-te como se fosses a pessoa mais amiga da família. Vive-se essa simplicidade, o acolhimento, o saber-estar, a alegria. No meio de muita pobreza, encontra-se a alegria das pessoas. E a cada noite de luar, há sempre música, e junta-se pessoas a cantar e a dançar», explica.

Com os africanos, o padre Leonel aprendeu a valorizar o que se tem em cada momento.

«A vida era vivida ao ritmo das dificuldades do dia-a-dia. As pessoas caminhavam cinco, 10, 15 ou 20 quilómetros para participar numa Eucaristia, algumas vinham de véspera porque talvez fosse a única celebração em seis meses ou um ano. Vivia-se ao ritmo da natureza, com toda a simplicidade, comunhão, partilha, e a aproveitar o dia de hoje porque nãos e sabe se haverá amanhã», conta.

Quando regressa ao Chade, dez anos depois de ter deixado o país africano para um ano sabático entre Jerusalém e Paris, o missionário encontra um país «estruturalmente» mais desenvolvido; enviado para uma paróquia rural, o trabalho pastoral centrava-se no acompanhamento «mais próximos das pessoas».

A missão em África marca grande parte da vida do padre Leonel que radica a sua vocação no trabalho com os jovens.

«O contacto com os jovens ajudou-me a identificar-me vocacionalmente. Seja pela linguagem, pelo convívio, pela irreverência e comportamento, os jovens colocam-nos em crise, fazem-nos sair do protocolo. É um trabalho mais difícil do que com os outros, do que com as crianças e adultos, mas é mais livre», afirma.

O padre Leonel está na génese do projeto musical “Banda Missio” que procura evangelizar através da música, com uma forte aposta na palavra.

«Quando fazíamos algum concerto, a primeira coisa que eu pedia ao técnico de som era que a música não tapasse a voz. A música é um instrumento, é uma ajuda para fazer passar a mensagem vocacional, a mensagem de oração religiosa, de solidariedade, fraternidade e, sobretudo, da missão», concretiza.

O padre Leonel integra a comunidade comboniana de Vila Nova de Famalicão.

Leonor João e Lígia SilveiraECCLESIA